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“In manibus tuis”: Brasão episcopal de D. Rui Valério, novo Bispo das Forças Armadas e de Segurança

25.11.2018

Chapéu com dois cordões e seis borlas, tudo em verde. Cruz pastoral dourada sotoposta ao escudo e ao listel. Escudo azul-celeste dividido em três campos por cruz em prata. No campo superior, a pomba em prata; no campo à direita, uma vieira sobre três linhas onduladas, tudo em prata; no campo à esquerda, busto de Nossa Senhora de Fátima, em prata. Na base do escudo, listel dourado que ostenta o lema “IN MANIBUS TUIS”, a vermelho, cor do martírio, em referência a Santo Adrião, mártir.

 

Interpretação

O azul-celeste inunda o espaço do escudo. É a cor dos Céus que a tradição cristã identifica com o Sagrado, com Deus, a origem absoluta de tudo quanto existe. É para o Céu que o crente é convidado a dirigir a sua atenção. É nele que habita a sua Pátria definitiva. Peregrinamos no tempo à procura da eternidade. Não foi para a escassez dos instantes que fomos criados, mas para essa morada definitiva e intemporal que a cada momento nos interpela a deixarmos tudo por seu amor.

A cruz da sabedoria, que divide em três o campo do escudo, é memória de Cristo crucificado, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, é poder e sabedoria de Deus. Porque, o que é tido como loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é tido como fraqueza de Deus é mais forte que os homens” (1Cor 1, 23-25).

Rasga-se o Céu e o Espírito desce sobre Jesus, em forma de pomba (Lc. 3, 21-22). É o dom inaudito que o Pai comunica ao Filho para que este o reverse sobre todos os que abraçarem a boa notícia segundo a qual Deus nos ama sem reservas nem limites. É no Espírito que a vida íntima de Deus se derrama sobre a humanidade. Através do Espírito, Deus consagra o seu eleito para a missão de “anunciar a Boa-Nova aos pobres”, “proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista”, “libertar os oprimidos” e “proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4, 18-19).

No batismo – que a vieira e as linhas onduladas das águas simbolizam – o crente é ungido no Espírito e enxertado em Cristo. Uma nova vida se configura no coração do homem novo. As águas primordiais são o princípio da vida, a renovação do ser e a recuperação de tudo o que parecia perdido. Mas este dom deve ser recursivamente trazido à consciência e nela assumido. Assim, ao longo da vida, entre tribulações e caminhos inesperados, torna-se necessário renovar essa promessa originária que um tempo fora efetuada no batismo, como Luís Maria Grignion de Montfort propôs, no carisma que doou à Igreja. Ainda, segundo uma interpretação fundada em Santo Agostinho, a vieira evoca a profundidade do mistério de Deus no qual o batismo, pelo dom do Espírito Santo, nos faz mergulhar. A vieira refere-se também ao Apóstolo São Tiago, cuja ordem está ligada à vila de Castro Verde, Alentejo.

As águas onde a vida baloiça recordam também o tempo em que servi na Armada e nela entendi quão valiosa é a camaradagem e o bem comum.

Mas a história pessoal tem as suas particularidades. Nascido na diocese de Leiria-Fátima, foi à luz de Maria, a mãe de Jesus e a Senhora de Fátima, que amadureci para a vida cristã. E por um acaso providencial, encontrei na congregação dos padres monfortinos, onde cresci humana e espiritualmente, essa devoção a Maria que é caminho para Deus. Foi à sombra do olhar atento e materno de Nossa Senhora de Fátima que vi medrar em mim a vocação sacerdotal e o desejo de entrega aos humildes e aos pobres (Lc 1, 52-53), bem como às crianças a quem Maria se fez presente nesse desconhecido fim do mundo que era, então, a Cova da Iria. Foi aí também que incessantemente a Senhora de Fátima se não cansou de repropor o apelo à oração e à conversão, no espírito originário da Boa Nova: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).

“O meu destino está nas tuas mãos” (Sl 31, 16), canta o salmista no meio das provações da vida. Não há maior felicidade do que abandonar-se inteiramente nas mãos de Deus, nas mãos daquele que nunca nos falta, ainda que se desmoronem todas as certezas e vacile a confiança entre os homens. Só Deus basta. O meu lema é “Nas tuas mãos”.

Segundo a interpretação de Santo Ireneu, as mãos de Deus são o Seu Filho, Jesus Cristo, e o Espírito Santo, nos quais nos é dado viver.

E conquanto Cristo haja sentido o mais atroz de todos os sofrimentos (Mc 15, 34), foi nas mãos do Pai que ele entregou confiadamente o seu espírito (Lc 23, 46). Vivo, por isso, no desejo ardente de permanecer, sossegado e tranquilo, nas mãos de Deus, como criança saciada ao colo de sua mãe (Sl. 131, 2).

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