Entrevistas |
D. Louis Sako, Arcebispo de Kirkuk
Arcebispo do Iraque é prova de força católica entre muçulmanos
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Entre 2003 e 2011 morreram no Iraque mais de 900 cristãos por causa da sua fé e 54 igrejas foram destruídas. Um país cada vez mais islamizado, mais violento e sem rumo definido para um futuro próximo. Em entrevista exclusiva ao Jornal VOZ DA VERDADE, D. Louis Sako, Arcebispo de Kirkuk, lamenta os números mas lembra que a Igreja sempre foi “uma Igreja de mártires”. “É neles que encontramos a força para continuar", garante.


A Constituição do Iraque discrimina os cristãos. Como se vive com uma lei que não é igual para todos?

A religião ofical do Estado é o Islão. É ele a fonte da legislação. Só que isto não resulta. A política é algo diferente da religião, que deve ser baseada na verdade e na moral. Mas muitas vezes, com o Islão, há mentiras. Actualmente, há muitas outras religiões [no mundo], e não apenas o Islão. Então, porquê impor uma em detrimento das outras? É hora de separar a religião do Estado!

 

O que mudou com a morte de Saddam Hussein?

Bom, ele era um ditador. Tudo era controlado, e durante 35 anos não houve cultura, não houve educação... havia uma ideologia, um partido. Havia apenas 'slogans', mas nenhuma liberdade, nenhuma possibilidade de viajar, por exemplo. Quem quisesse ir para a Universidade, tinha que se filiar no partido. Agora temos liberdade, imensa liberdade, mas o problema é a segurança.

 

Como se vive o dia-a-dia sabendo que a morte pode estar a cada esquina?

Vivemos com a noção disso. Nunca temos a certeza se vamos conseguir voltar a casa, porque, na verdade, nunca sabemos o que vai acontecer. Mas temos que encorajar as pessoas, temos que estar ao lado delas a ajudá-las, a dar-lhes muita esperança, a fazê-las perseverar e também a protegê-las. A situação é dura mas há espaço para trabalhar [enquanto Igreja]. As escolas e as universidades já funcionam, as pessoas já podem ir trabalhar...

 

Quantas pessoas abandonaram Kirkuk desde 2003 devido às perseguições religiosas?

Muitos dos números que têm sido anunciados são exagerados! As pessoas têm saído das cidades também em busca de trabalho, e não por serem perseguidas. Até agora e desde 2003, cerca de duzentas famílias saíram da minha Diocese. Temos que ter noção de que, por exemplo, no caso de haver um ataque com um carro-bomba, podem morrer cristãos. Mas não morrem por perseguição. Não podemos generalizar.

 

Passou um ano desde o massacre na Catedral de Bagdade, que matou 70 pessoas. Como se supera um acontecimento desses?

O massacre foi um grande choque para toda a gente. E não apenas para os cristãos, também para os muçulmanos. Mas sabe que mais? Nós sempre fomos, ao longo da História, uma Igreja de mártires. No sangue dos mártires encontramos a força e a esperança. Nesse dia, dois padres foram mortos. Eles dirigiram-se aos criminosos e disseram-lhes: 'Por favor, deixem as pessoas sair e matem-nos a nós'. Isto é grandioso! É algo heróico! Eu fui superior deles quando ainda estavam no seminário... Quando soube disto, fiquei realmente sensibilizado. E este exemplo tem-nos ajudado. Temos que ter noção de que se queremos fazer algo da nossa vida, deve ser algo grandioso. No Iraque, temos problemas com a segurança, mas se vivêssemos aqui [na Europa] enfrentaríamos outros desafios: os hábitos, a educação... Temos medos, mas também temos esperanças: temos medo de que a situação piore; mas temos a esperança de que os iraquianos retomem as suas responsabilidades e consigam estabilizar e manter a paz em todas as cidades.

 

O que mudou após a Guerra do Iraque?

A liberdade! (sorrisos) A liberdade é um presente enorme, porque nós, Homens, fomos criados livres. E as pessoas eram escravas. Agora podem expressar-se, podem ler livros, podem viajar, podem falar. Actualmente temos oito partidos políticos, doze jornais, duas televisões, rádios… é todo um mundo novo! Até a economia se está a desenvolver. A segurança é, efectivamente, um problema… mas somos livres!

 

Como é que a Igreja Católica, fora do Iraque, pode ajudar?

Criando projectos nas aldeias, nas cidades, coisas que ajudem os cristãos a melhorar a sua vida quotidiana: em termos de electricidade, de fornecimento de água, de educação. Mas na verdade o grande problema é em termos de direitos humanos. As conferências episcopais podiam fazer um trabalho muito importante se interviessem junto da comunidade internacional de forma a conseguir fazer pressão nos países árabes, para que respeitem os Direitos Humanos. O único critério [para fazer leis e criar regras] devia ser a cidadania e não as religiões. E não deve haver religiões com soberania sobre outras. Uma Constituição deve ser para todos, e não preterir cidadãos.

 

Sente medo?

Nunca! Nunca me senti assustado. Além de que tenho imensos amigos imãs. E habitualmente, trabalho em conjunto com as autoridades [de Kirkuk]. É habitual ir oferecer medicamentos a hospitais, como se fossem presentes da comunidade cristã para a comunidade muçulmana. E também já organizei três orações inter-religiosas para muçulmanos e cristãos. Já escrevi dois livros: como apresentar o cristianismo aos muçulmanos numa linguagem actual, e como entender o Islão. Por exemplo, no Islão não existe exegese; por isso é importante ajudá-los a contextualizar os textos, visto agora terem uma nova interpretação. O que não é muito fácil porque os muçulmanos acreditam que o Corão foi ditado directamente por Deus. Temos que lhes explicar que nós não somos infiéis, que a nossa Santíssima Trindade não significa que temos três deuses…

Mas voltando ao medo: nós somos consagrados. E quando somos consagrados, desistimos da nossa vida em prol da dos outros. Acreditamos e confiamos em Deus. Se confiamos em Deus, como podemos ter medo? Isso não funciona, é uma duplicidade. Nós [padres] temos que ser exemplo e modelo a seguir para o nosso povo. Eu nunca tenho medo. Confio em Deus, rezo, e quando rezo tenho que acreditar no que estou a dizer. Quando um padre ou um bispo sente medo, o melhor é voltar para casa.

 

Falemos da Primavera Árabe...

Os jovens que protagonizaram a Primavera Árabe não têm nada para além de 'slogans'. Não têm uma liderança forte e real. E isso faz com que os muçulmanos estejam a tomar o poder. É o que está a acontecer na Tunísia e no Egipto. A Tunísia era um Estado secular: o que aconteceu? Os partidos islâmicos tomaram o poder e a autoridade. E o que aconteceu na Líbia? Kadhaffi era um ditador, mas de que forma foi morto? A sua morte foi horrível. De que tipo de civilização estamos nós a falar, aqui? E agora, todos estes países estão a voltar para as leis islâmicas, a apregoar a aceitação da poligamia e dos divórcios. Tenho, efectivamente, medo do que os fundamentalistas possam fazer com o poder que estão a ganhar. Eles são incapazes de se adequar a uma sociedade moderna porque acreditam que vão perder a identidade islâmica. Acreditam que se a cultura europeia entrar nestes países possa ser agressiva e destruir o Islão.

 

De que forma vê o futuro?

Tem que haver movimentações no sentido de pedir às pessoas que perdoem e que dêem início a uma nova fase, com sentimentos de muita esperança e não de vingança. Que construam uma sociedade multicultural e plural. De outra forma, as pessoas vão destruir o que têm estado a fazer. O Islão vai destruir-se. É isso que os fundamentalistas estão a fazer. É isso que acontece quando defendemos uma coisa e atacamos todas as outras. Eles atacam e ofendem Jesus Cristo. Mas nós não nos importamos porque somos mais fortes do que isso. Se eles acreditam que a sua religião vem de Deus, então têm que acreditar que Deus os protege.

 

O que viu de diferente na Igreja europeia?

A Igreja na Europa é um bocadinho fria. E nós, cristãos, temos que mostrar a nossa fé, sem vergonha e sem medos. Somos cristãos, mostremos que somos cristãos. A nossa fé deve reflectir-se em todas as nossas posições, decisões e escolhas. Deve fazer-nos mais fortes. De outra forma vamos perder a força. Vamos perder a esperança. Nós [cristãos] devemos ser uma boa elite, e não olhar somente para os problemas. É normal termos problemas, mas também temos outras coisas. Nunca devemos esquecer de que somos pastores e não apenas administradores. Devemos viver junto das nossas comunidades. Talvez a Europa precise de um trabalho pastoral diferente. Fiquei um pouco chocado quando celebrei em igrejas praticamente vazias. Alguma coisa está errada: porque é que as pessoas não vêm à Igreja? Temos que tentar perceber o que está mal. Além de que aqui [na Europa] tudo é individual! Já no Oriente, tudo é orientado para a comunidade. Não podemos viver uns sem os outros. Mesmo na Igreja somos como uma família. Porque é que a Igreja na Europa deixou de ser missionária? Outra questão: a Igreja europeia devia encorajar a natalidade. As crianças fortalecem as famílias e comunidades. Por exemplo, no Oriente é fácil ver uma mulher a passear na rua com duas crianças, enquanto na Europa vemo-la a passear com um cão [...] precisamos de formar pessoas para outro tipo de vida. Uma vida mais sóbria e austera, sem as coisas que não são realmente importantes. Viver sem um telemóvel não é trágico. É tudo ilusão. É preciso trabalhar os valores familiares. O individualismo que se vive na Europa é escandaloso.

 

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Arcebispo de Kirkuk pede ajuda para a formação de seminaristas

Na Diocese de Kirkuk “há vocações mas é preciso formar os formadores, e nisso a Igreja Católica do Ocidente pode ajudar-nos ”, disse ao Jornal VOZ DA VERDADE D. Louis Sako.

Actualmente a cidade de Kirkuk tem cerca 700 mil pessoas e dessas 12 mil são cristãs. Para as assistir religiosamente a cidade, o arcebispo iraquiano conta com sete padres católicos mas, segundo refere, “também há diáconos e religiosas” que colaboram na missão.

No período anterior à Guerra do Iraque, D. Louis Sako foi reitor do Seminário daquela diocese, onde estavam 65 seminaristas. “Actualmente são 21 os rapazes que estão em formação para o sacerdócio, porque muitas famílias vão-se embora e as crianças vão com elas”, justifica o Arcebispo de Kirkuk.

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