Entrevistas |
Fernanda Freitas, presidente do Ano Europeu do Voluntariado
“Voluntário é aquele que serve e faz a diferença”
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Fernanda Freitas é um rosto conhecido da televisão e que durante este ano de 2011 assumiu o cargo de presidente do Ano Europeu do Voluntariado. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, Fernanda Freitas diz esperar que o voluntariado não seja uma moda, mas um modo de vida.

 

Durante este ano 2011 foi presidente do Ano Europeu do Voluntariado (AEV) em Portugal. Que balanço faz deste ano?

Penso que só podemos fazer um balanço positivo. E não sou eu, enquanto presidente ou mesmo todas as pessoas envolvidas na coordenação nacional a fazer esse balanço. Foi a própria Comissão Europeia, que convidou apenas Portugal como 'guest- speaker' na cerimónia final de encerramento do ano, porque considerou que o nosso país teve as melhores ‘tácticas’ neste Ano Europeu do Voluntariado. Portanto, fomos falar daquilo que fizemos e das várias iniciativas. Nós fomos o país que teve mais imprensa envolvida, mais acções realizadas, que teve, no fundo, maior envolvimento da sociedade. E isso deve-se muito aos voluntários e à vontade que havia por parte do próprios voluntários em serem reconhecidos. Penso que se tratava um pouco mal os voluntários, ou então havia uma série de estereótipos que estavam associados ao voluntariado e que não eram os mais positivos. Por isso, considero que este ano contribuiu para mostrar que voluntariado é uma palavra 'fixe'. Nesse sentido, é curioso que a Porto Editora todos os anos escolhe a ‘palavra do ano' e a palavra 'voluntariado' está no top 5, entre as palavras austeridade, fado, troika e esperança. Portanto está muito bem classificada!

 

Afirmou há pouco tempo que este foi "um ano de conquistas". Quais foram essas conquistas?

Eu senti acima de tudo que este foi um ano de conquistas na perspectiva de um reconhecimento do voluntariado. Penso que, todas as pessoas com quem falei ao longo do ano exibiam um sorriso e um olhar de orgulho quando se fazia alguma sensibilização em torno do voluntariado, e partilhávamos e deixávamos que as pessoas partilhassem as suas histórias. O único desafio que a Comissão Europeia nos deixou no início do ano era que fizéssemos uma acção, como uma exposição ou feira de voluntariado, onde os voluntários partilhassem experiências uns com os outros. Isso seria só em Lisboa, mas nós decidimos alargar para o país todo e fizemos mais de duas dezenas de acções, um pouco por todo lado. Onde quer que chegássemos, o desafio era pôr voluntários a falar com outros voluntários, a desafiar para a partilha de experiências e outras pessoas, que ainda não fossem voluntárias, para experimentar. Tinha um efeito um pouco contaminante, mas num sentido muito positivo. Depois, também conquistámos outras coisas, que vamos ter de esperar para terem aplicabilidade prática, porque tem a ver com a lei e enquadramentos legais, nomeadamente no que se refere à eventual descida da idade legal dos voluntários, dos 18 para os 16 anos. O enquadramento do voluntariado empresarial também não estava contemplado e a criação do Plano Nacional de Voluntariado que parece fundamental.

Portanto, acho que valeu a pena porque não foi apenas um ano de celebração e de festa. Mas, para mim, a maior conquista foi eu ter-me comprometido com a comissão de acompanhamento que o ano não ia ser só de festejos, mas iríamos ter resultados práticos, com alterações em algumas matérias. E isso vai acontecer, o que é muito positivo!

 

Daquelas que eram as perspectivas iniciais, o que ficou por realizar?

Fizemos mais do que estava previsto e a celebração em Portugal fez-se sentir e notar. Esta é uma percepção pessoal e de todos os envolvidos no Ano Europeu. Nós invadimos cidades com as t-shirts do Ano Europeu a dizer 'Eu sou voluntário. Faço a diferença!'. E isso não estava previsto. Eu sabia que as pessoas queriam muito aderir mas nunca pensei que a adesão fosse tão grande. Sabia que poderíamos chegar a muita gente, mas nunca pensei que chegássemos a tantas. Se me perguntar se eu fazia mais? Sim! Mas o meu horário em toda a participação do Ano Europeu foi em regime de voluntariado. Eu nunca poderia escamotear o meu horário profissional, o meu horário enquanto mãe, e de outras obrigações que também tenho perante outras instituições com quem trabalho. Portanto, se tivesse mais tempo garanto que, eu e toda a equipa, teríamos feito ainda mais.

 

Temos falado muito em voluntariado, mas o que é ser voluntário?

Bem… se calhar é uma estranha forma de vida, já que estamos no património imaterial. Mas penso que ser voluntário é, como o diz o próprio lema do ano, 'Fazer a diferença'. Sobre isto gostava de abrir um parêntesis para dizer que no início do ano um jornalista perguntou-me qual o meu verbo preferido e eu disse que era 'ajudar'. Agora, no fim do ano, mudei de verbo porque o meu verbo preferido é 'servir'. Por isso, acho que um voluntário é aquele que serve. Que serve alguém ou algum propósito. E é uma pessoa que sabe que serve para alguma coisa. E isso faz a diferença na vida. Na nossa e na dos outros! Porque sabemos que servimos para alguma coisa e encontramos uma utilidade na nossa existência, para além do óbvio, para além daquilo que a sociedade nos diz que tem de ser a nossa existência por cá. No que se refere ao servir alguém, pode ser alguém que estava a precisar ou, mesmo que não precisasse, percebeu que a nossa presença tornou o seu dia melhor. Por isso, um voluntário é quem serve.

 

A Igreja Católica será, certamente, das instituições com maior expressão no voluntariado. Que relação existiu ao longo deste Ano Europeu do Voluntariado com a Igreja?

Eu não aprecio muito os números porque pode ser perigoso generalizar. Penso que existirá um meio-termo. A Igreja tem mais história, mas a sociedade civil (e refiro-me a organizações não ligadas à Igreja ou às Igrejas) levantou-se nos últimos anos. Mas a base do voluntariado parte de um sentido moral, de um sentido de cidadania. E é claro que isso é indissociável quando falamos no papel da Igreja. Foi curioso que a primeira vez que vi o símbolo do Ano Europeu do Voluntariado foi num folheto de uma paróquia, que estava a ser distribuído. Ainda não estávamos, sequer, em Dezembro de 2010, e essa paróquia já falava do AEV. Durante este ano, percebemos que desde o movimento dos Escuteiros, às Guias, às paróquias, aos catequistas, todos são voluntários!

Acredito que, eventualmente, houve durante muito tempo a ideia de que só fazia voluntariado quem estava com uma Igreja, mas felizmente as portas abriram-se, porque há tanto para fazer. E a Igreja tem vindo a renovar-se e a abrir as suas portas aos outros. Até mesmo na partilha de credos. Foi curioso quando percebi que havia, em algumas acções, voluntários de várias profissões de fé, porque o que interessa é ajudar o outro, e isso é a base cristã. Por outro lado, acho que a base cristã está por detrás de tudo aquilo que se faz em voluntariado. A revista Visão perguntou-me se eu tinha algum voluntário inspirador e eu respondi: Jesus Cristo. Porque se houvesse um rótulo de voluntário na época, acho que Ele tinha sido um dos voluntários do ano.

 

Sente que este Ano Europeu do Voluntariado gerou maior comunhão?

Sim, gerou muita comunhão espiritual. As pessoas acreditaram que podem fazer a diferença. Infelizmente foi um ano em que só se falou da perspectiva económica. Fomos massacrados com notícias da troika, do FMI, da austeridade, da crise… Mas, para mim, pior que a crise económica é a crise de valores. É quando podemos não ter dinheiro mas também não temos ética, não temos compaixão, não temos sequer o sentido de olhar para o outro e perguntar se ele precisa de ajuda. Ajudar não é dar dinheiro. Raramente é isso. É claro que o dinheiro é necessário, mas por vezes um sorriso faz mais a diferença do que um cheque. Eu também sou voluntária e não há cheque nenhum que possa substituir o que sinto quando faço voluntariado.

 

Parece-lhe que a crise que temos estado a viver acentuou, de alguma forma, o voluntariado no nosso país?

Eu acho que sim, e por vezes pelas piores razoes. Há muita gente que está a usar o voluntariado assumindo-o apenas como ‘mão-de-obra grátis’. Eu não concordo! Eu acho que quem dá, quer dar. E por isso um voluntário também sabe até onde pode ir e qual a sua função enquanto voluntário. Não pode estar a exercer uma função para além daquilo que lhe é solicitado. Caso contrário pode estar a pôr em causa lugares de trabalho. As pessoas têm de perceber que, como dizia Kennedy, não podemos estar sempre à espera e a perguntar o que o nosso país pode fazer nós, mas o que nós podemos fazer pelo nosso país. E isso deve ser depois aplicado a uma escala mais reduzida ou seja, pela minha cidade, freguesia, bairro, prédio e até pela minha casa. Preocupa-me o estarmos sempre à espera dos outros. Se calhar esta crise que rebentou com a escala monetária, fez com que as pessoas olhassem para as outras soluções que não passam pelo dinheiro. E isso acho que é, infelizmente, um crescimento espiritual forçado que pode ter consequências dramáticas para quem não estava preparado. Mas, para quem já tinha este princípio na sua vivência de que não é pelo dinheiro que fazemos os outros felizes mas sim pelas nossas acções, pelos nossos sorrisos, acho que estas pessoas, que são normalmente voluntárias, facilmente conseguem dizer aos outros: 'vem também ajudar’.

 

Outra das afirmações que fez ao longo deste ano foi que é necessário fazer “voluntariado com qualidade". O que isto significa?

 O voluntariado com qualidade é no sentido de não sermos só voluntariosos. Por vezes temos muita vontade de ajudar mas se não tivermos a formação devida podemos fazer pior. Costumo dizer que há um tipo de voluntariado informal que qualquer um de nós pode fazer, que é colocar em prol da comunidade, gratuitamente, as nossas mais-valias. Por exemplo, um advogado, um contabilista, um engenheiro ou arquitecto pode fazer, uma vez por mês, ou mais, uma acção ligada à sua profissão, em prol da sua comunidade. Mas, depois, há um voluntariado formal muito específico: por exemplo, no domínio da saúde que, se não tivermos formação, pode ser muito perigoso.

 

Acredita que ficaram lançadas as bases para a continuidade do voluntariado?

Sim, sobretudo porque o ministro acabou de assumir no encerramento do ano que vai ser lançado o Plano Nacional de Voluntariado. E isso parece-me fundamental. Espero que seja mais do que um plano que fique no papel.

 

O voluntariado pode correr o risco de se tornar numa ‘moda’?

Eu tenho medo que sim, porque as modas passam! Prefiro que não seja uma moda mas uma tendência. Porque é o que fica. As modas têm altos e baixos e isso preocupa-me muito. Por isso prefiro que, em vez de ser uma moda, seja um modo de vida.

 

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“Cristo foi uma pessoa muito inspiradora”

 

Dizia há pouco que o seu inspirador era Jesus Cristo. Identifica-se como cristã?

Sim. E é muito curioso porque foi há pouco tempo. Foi um reencontro muito bom. Passei por um momento da vida que acho que acontece com muitos, quando nos revoltamos com tudo o que nos impuseram quando somos mais pequeninos. Damos uma volta ao mundo em procura de, não sei bem o quê… mas andamos à procura, e isso é bom! E eu reencontrei há cerca de dois anos. Mas, independentemente de estarmos numa igreja ou à beira rio, a nossa comunhão espiritual tem de acontecer, acho eu, a certa altura da nossa vida, ao mais alto nível. Temos de ser muito honestos, e essa honestidade passa por sabermos escolher os nossos exemplos de vida. Eu acho que Cristo foi uma pessoa muito inspiradora. Por isso, tenho de me identificar como cristã!

 

Enquanto cristã, e no fim deste Ano Europeu do Voluntariado, o que mudou em si?

Como também sou jornalista, tenho esta característica ‘terrível’ de ter de lidar com todos os lados, todos os factos. E o que me preocupou mais foi, no início do ano, por causa da crise e da austeridade, comecei a desacreditar muito que as pessoas estavam realmente preocupadas com os outros. Até seria legítimo que estivessem mais preocupadas consigo próprias, do que com os outros. Mas ainda bem que aconteceu este ano europeu, porque acreditei que há pessoas que continuam a trabalhar em prol dos outros sem esperar nada em troca.

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