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Doutrina Social da Igreja
Uma estrela hoje
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É marcante o simbolismo da estrela na fé dos cristãos: ela é fonte de luz e de calor: iluminando dá segurança e alegria; aquecendo sugere conforto e felicidade. Por isso nas narrativas evangélicas do nascimento de Jesus aparece a estrela e os nossos presépios têm-na presente. Chegados a esta época – perturbada como há muito não acontecia – esse simbolismo contém uma força tremenda para quem por ela se deixar conduzir. No meio da crise, ela aponta para o importante, para o essencial, para o bocadinho de fermento que pode transformar a massa: orienta-nos para Jesus, para o seu “Natal” que é completamente diferente do “Natal de plástico” do consumismo, do imediato, do que não tem perspectivas; o seu aponta para a simplicidade, para a verdade do essencial da vida que nasce, é acolhida e assim abre a porta para o que de melhor pode accontecer.

Em fins do mês passado, dois acontecimentos mereceram por parte da comunicação social uma especial atenção e que constituiu como que uma lufada de ar quente no ambiente gélido do desconforto e da desconfiança que envolve a nossa sociedade. Tratava-se de mais uma campanha do Banco Alimentar contra a Fome e que, num fim-de-semana, conseguiu mobilizar grande parte da população para gestos de solidariedade para com os carenciados. Foram 2.950 toneladas de géneros alimentares recolhidos em 1.615 superfícies comerciais por 36.000 voluntários. Na mesma altura, em Bali, a UNESCO declarava o Fado como património cultural imaterial da humanidade. O primeiro manifestava a parte boa que existe no fundo da pessoa humana e que basta motivá-la para que o bem apareça. O segundo, porque fazendo parte da cultura e da tradição de um povo, assim consolida a sua identidade.

No entanto, ambos contêm em si uma possibilidade de risco, que exige reflexão e alguma cautela. Quanto à generosidade da população, como se explica que essa dimensão tão positiva tenha um impacto tão irrelevante na transformação de uma sociedade, que ao longo da sua história tem desperdiçado oportunidades para se consolidar como mais equilibrada, mais igualitária, com menos privilégios e mordomias e, assim, mais rica? Ou, seguindo as orientações operacionais da Comissão Episcopal de Pastoral Social, onde está a presença dos cristãos em “estruturas mais justas, transparentes, equitativas, livres e exigentes”? No momento é absolutamente necessário atender aos casos cada vez mais numerosos de carência material e não só; felizmente que há boas práticas – e o Banco Alimentar é disso exemplo – baseadas no profissionalismo, na eficiência e na dedicação. Mas cumpre-nos a todos nós fazer com que essas práticas estimulem a urgência por parte dos governantes e dos cidadãos em construir uma autonomia superadora da dependência; nem a boa vontade dos cidadãos pode constituir uma almofada para a inoperância dos governantes, por vezes mais apostados na discussão de projectos particulares e não na real solução dos problemas da comunidade.

Quanto ao Fado, existe também uma dimensão que pode tornar-se perversa: encarando-o como expressão da alma portuguesa, introvertida, saudosa, sonhadora com o passado, poderá ir cimentando uma visão fatalista da vida colectiva; nada mais perigoso do que isto, sobretudo em momentos de crise para um povo que precisa de abrir os olhos à realidade, despertar do sonho, e não se deixar levar em cantigas de embalar, esquecendo que o tempo perdido não volta atrás; há que acreditar que esta forma de viver não é o nosso “fado”, não é este o “destino” contra o qual não possamos lutar.

Por isso o regresso ao presépio da simplicidade, da verdade de Deus manifestada na criança de Belém, nos ajuda a olhar a realidade com outro olhar ainda que esse configure “escândalo para os judeus e loucura para os gregos”, mas que estamos convencidos constituir o pequeno fermento que consegue levedar toda a massa. Por isso a estrela do Natal no meio das trevas aponta para a insignificância e ao mesmo tempo para a grandeza do presépio. E constitui um apelo a que se rejeite a resignação e se estimulem os fracos a levantarem-se do pó e a afirmarem a dignidade actuante da pessoa humana, que encontra em Jesus o seu caminho. Temos contemplado poderosos, aparentemente intocáveis, que literalmente têm sido derrubados dos seus tronos e das suas prepotências; ao mesmo tempo contemplamos uma pobre criança que mais tarde vai ser, sem defesa, condenado à cruz como maldito, mas que nunca mais deixou de mexer e inquietar a humanidade.

P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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