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Nuno Cardoso Dias
Porque somos muitos queremos ser tratados como muitos
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A nova campanha da APFN (1) põe as famílias numerosas em discurso directo: cada família diz de si - o nome a idade, a profissão, que tem ou a que aspira, no caso dos filhos. A família Justino são seis, a família Mira são sete, a família Castro são sete lá em casa, mas no total cotam-se 13 filhos e vinte netos. Os Horgan são 10, os Martins Leite são cinco, os Baptista, também são cinco, com duas filhas gémeas.

As profissões são as mais variadas: de informáticos a motoristas, de secretárias a professores, de engenheiros a mecânicos, passando por assistentes comerciais, funcionários públicos e mesmo pessoas em situação de desemprego.

Todas afirmam: “Não somos ricos, não somos pobres. Queremos ser tratados com equidade e justiça”. E dão exemplos do que se consome nas suas casas: porque são muitos gastam muito. Não gastam mais do que os outros, gastam na medida do que são. Uns porque são 5, gastam, só para beber, mais de 80 litros de água por mês. Outros, porque são 7, pagam mensalmente à EDP 255 Eur, dos quais apenas 71 Eur correspondem a consumo de electricidade. Outros ainda, porque são 6, gastam entre 12 a 15Kg de maçãs por mês. Outra família, com dois bebés, gasta cerca de 360 fraldas por mês. Outros gastam 360 pães por mês. 200 iogurtes, 80 ¤ de legumes, 20 kg de carne e peixe, 12kg de massas alimentares.

Os números são avassaladores quando olhamos para eles em bruto. Quando dividimos pelo número de pessoas, o consumo não é diferente dos consumos quotidianos de qualquer família. A diferença é que nestas famílias são muitos e como são muitos, querem ser tratados como muitos.

Este apelo é tanto mais grave quanto é claro que as políticas públicas em Portugal sistematicamente ignoram o número de filhos de cada família quando determinam o seu rendimento, para efeitos contributivos ou distributivos. Ora, não é o mesmo ter uma família onde ganham dois e gastam dois ou outra onde ganham dois e gastam sete.

As famílias numerosas lembram ainda o seu importante papel social: hoje todos “contribuímos para o crescimento económico do país, amanhã os nossos filhos vão pagar as nossas reformas e ajudar a pagar as reformas de mais pessoas.”

Terminam com alguma mensagem de cada família. A família Martins Leite, por exemplo, diz: “Não tivemos os nossos filhos á espera da ajuda do Estado. Mas também não aceitamos ser prejudicados. Cá em casa o que ganhamos é para os cinco e não só para dois. Por isso todas as contas que envolvam rendimentos devem ser a dividir por cinco.”

 

Estereótipos e direitos fundamentais

Há 30 anos que as gerações não se renovam em Portugal. Há um discurso que enumera uma série de causas, todas boas: libertação da mulher, métodos anticoncepcionais, baixa mortalidade infantil, o progresso que nos distrai para outros objectivos.

Se as causas são boas, como pode ser mau o resultado? No mínimo é inevitável. Mas até há quem lhe pareça bem. Afinal mais bebés são mais pezinhos e mais pezinhos são mais pegadas, ecológicas, pois claro.

Assim, as famílias que persistem numerosas parecem saídas de um livro de Goscinny e Uderzo: uma pequena aldeia de Gauleses, resistindo por uma qualquer poção mágica. Uns estranhos e simpáticos loucos, como diz um postal do Peter.

Estes são, ainda, estereótipos positivos. Há outros piores, mais extremados: famílias muito pobres, incapazes de um planeamento familiar eficaz ou conscientemente tentando viver à custa de prestações sociais; ou muito ricas, com privilégios inacessíveis ao comum dos mortais.

Sem falar, claro, na questão religiosa. Que outra razão para uma família se dar aos incómodos de ter mais filhos, senão o mandato directo das Alturas: crescei e multiplicai-vos?

Este discurso recusa o direito de cidade aos filhos: eles são uma opção e um problema dos pais, não a nova geração do País. Por isso eles desaparecem cada vez mais no cálculo do rendimento das famílias.

A nova campanha da APFN dá rosto às famílias que este discurso caricaturou e mostra uma realidade bem mais normal, feita de empenho, coragem e de opções diárias, que renunciam ao que não é essencial, mesmo quando ter mais filhos foi algo inesperado.

Fica ainda uma realidade oculta, de que não falamos: a das famílias que gostariam de ter mais filhos mas não encontram condições para os ter, e de adiamento em adiamento renunciam a um dos direitos mais fundamentais - e mais necessários: o de constituir família.

 

(1) veja toda a campanha em www.alturl.com/6kqoo