Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Elogio do silêncio
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No meio do ruído que marca a existência contemporânea, eis que o Santo Padre Bento XVI, na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, tornada pública no passado dia 24, faz o elogio do silêncio. É uma mensagem que convido o leitor a ler, consagrando-lhe o tempo que ela merece, e que aqui não seria nunca capaz de resumir.

Não se trata simplesmente do facto de que apenas o silêncio permite a existência de palavras: sem ele, o som seria ininterrupto e incapaz de dizer qualquer coisa, por muito banal que fosse. Trata-se de perceber o silêncio interior, próprio do ser humano, única possibilidade que nos é concedida de deixarmos que o outro nos possa comunicar qualquer coisa, e que essa comunicação não se limite a um ruído que “entra por um ouvido e sai pelo outro”.

Sem o silêncio que percebe o outro como tu; sem a capacidade de perceber que o outro que me dirige a palavra não é uma coisa, uma máquina, um muro indiferente, ou um simples animal que, quando muito, obedece às minhas ordens, não sou capaz de o perceber em toda a sua dignidade. Pelo contrário, o silêncio leva-me a escutá-lo, a dar-lhe tempo e a dar-me tempo para o tentar compreender, nas suas dificuldades e nas suas qualidades. Sem o silêncio, não sou capaz de me dar conta de que não existo sozinho no mundo, e que tudo o resto gira à minha volta, mas antes que o outro e os outros, longe de me retirarem espaço e de serem um problema, são antes a única possibilidade que me é dada para me construir verdadeiramente como ser humano.

Mas isso significa, também, que sem o silêncio não sou capaz de ser eu próprio. Apenas o silêncio me impede de andar distraído com tudo o que me envolve, e me obriga a ser e a pensar quem sou, a assumir decisões inadiáveis, a tomar a existência nas minhas mãos e a exercer plenamente a liberdade que me caracteriza como ser humano. Só alguém que é capaz de fazer e de viver o silêncio pode, afinal, viver como ser humano em todas as suas dimensões e, assim, comunicar-se, dizer-se, dialogar, viver com os demais sem perder a sua identidade, participar na vida da sociedade. Ou seja: educar para o silêncio interior é uma das condições para a verdadeira comunicação e para a verdadeira maturidade.

Finalmente, sem viver o silêncio, ninguém é capaz de encontrar verdadeiramente a Deus. Alguém que vive o silêncio, pode encontrar-se no meio do ruído do quotidiano mas estar atento a Deus que lhe vem ao encontro no outro, na natureza e na própria criação técnica ou artística. Mas quem nunca fez silêncio dentro de si, também nunca será capaz de perceber a Palavra de Deus. Sem o silêncio, a Sagrada Escritura torna-se apenas em mais um livro de moralidade, igual a tantos outros; e o próprio testemunho dos santos uma realidade longínqua, estranha. E Deus será mais um fruto entre os muitos de uma imaginação fértil ou, simplesmente, Alguém cuja existência é posta, simplesmente, em causa.

Muito do que hoje se diz ser a falta de fé do mundo ocidental contemporâneo, estou certo disso, é apenas falta de silêncio verdadeiro, interior e profundo, o único capaz de nos proporcionar o encontro com Deus.

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