Lisboa |
Fundação ‘Agir Hoje’
Vencer a crise de todos os D’s
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Divórcio, desemprego e doença são considerados os D’s do endividamento. Criada a 20 de Janeiro de 2009, a Fundação ‘Agir Hoje’ procura ajudar as pessoas em situação económica difícil a reequilibrarem a sua vida. O Jornal VOZ DA VERDADE foi conhecer esta instituição que atende gratuitamente cada pessoa.

 

As crises financeiras têm uma tendência curiosa e permanente: despertam, ou pelo menos tornam mais vincados nas pessoas, os dons do cuidado, da solidariedade e do altruísmo. Num Portugal particularmente afectado pela crise financeira que se faz sentir um pouco por todo o mundo, a Fundação ‘Agir Hoje’ procura, todos os dias, ajudar “as pessoas na sua globalidade”. Porque nem sempre o problema do sobreendividamento se limita a um desequilíbrio financeiro. Foi com essa convicção que a fundadora e actual presidente da Fundação ‘Agir Hoje’ – que recentemente garantiu o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) –, Marta Costa Reis, decidiu dedicar-se à ajuda individual de pessoas que atravessam uma fase mais difícil em termos financeiros, pessoais ou sociais.

Em casa, em conversa com o marido, tomou consciência de que “a questão financeira não é apenas financeira... as dívidas, as dificuldades de conseguir honrar os compromissos e ter uma vida financeira estabilizada não está apenas relacionado com a pessoa saber ou não fazer contas”, observou Marta Costa Reis em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE. “Muitas vezes tem a ver com questões muito mais fundamentais. Fala-se muito dos D’s do endividamento – o divórcio, o desemprego, a doença – e aquilo em que nós pensámos foi que se conseguíssemos colocar no centro do nosso trabalho, não a dívida ou a questão financeira, mas a pessoa na sua globalidade, talvez conseguíssemos ajudar essas pessoas a alcançar o equilíbrio pessoal. Um equilíbrio que depois contribuísse para essa pessoa atingir o equilíbrio financeiro de que necessita”, explicou. Ou seja, o que a ‘Agir Hoje’ pretende, acima de tudo, é trabalhar o ‘eu global’ de cada pessoa que bate à sua porta. “Procuramos centrar a nossa actividade nos valores. Portanto, o que tentamos fazer é centrarmo-nos nas pessoas endividadas, ou, como nós chamamos, nas pessoas que têm uma relação distorcida com o dinheiro. São aquelas pessoas que têm as prioridades invertidas – e eu não gosto muito de utilizar esta expressão –, ou seja, que têm dinheiro para o acessório mas não têm para o essencial”, prossegue a presidente da fundação. “E aí, através de um apoio mais individual, tentamos trabalhar com as pessoas os seus valores, tentando perceber o que elas querem para as suas vidas e para o seu futuro”, aponta Marta Costa Reis.

 

A importância da vida estabilizada

São actualmente cinco as pessoas que trabalham a tempo inteiro na ‘Agir Hoje’, entre assistentes sociais, psicólogas e assistentes da administração. Uma equipa (ainda) toda no feminino, que vai sendo complementada com a ajuda dos voluntários – “poucos, porque não é fácil encontrar pessoas que sejam boas tecnicamente e que ao mesmo tempo sejam atentas à questão comportamental” – e dos mediadores que coordenam os grupos de apoio.

Para a equipa da Fundação ‘Agir Hoje’, não há dúvidas em relação ao facto de que só com uma vida estabilizada em termos pessoais e sociais se consegue uma mais saudável relação com o dinheiro.

O que torna a ‘Agir Hoje’ diferente dos outros organismos que também se dedicam ao problema do sobreendividamento das famílias é sobretudo o acompanhamento muito próximo e prolongado no tempo, sem prazo para terminar. Marta Costa Reis sublinha que o acompanhamento prestado pela fundação “é muito individual”. Uma individualidade que se torna mais importante quando se fala de dinheiro, um tema ainda considerado tabu na sociedade portuguesa. “As pessoas ainda têm vergonha de assumir que não têm dinheiro para pagar as contas”, admitem as responsáveis.

“Quando as pessoas chegam são geralmente recebidas por mim ou pela outra assistente social”, explica Bárbara Noronha de Andrade, assistente social da ‘Agir Hoje’. Numa conversa individual e totalmente privada, a fundação procura “fazer um plano global de reestruturação da pessoa”. “Tentar resolver a parte financeira mas também a parte pessoal. Fazemos os mapas dos créditos, dos rendimentos e das despesas e tentamos perceber qual a alternativa, qual a solução para a pessoa”, refere.

 

Colaboração com as paróquias

Durante a conversa individual, a assistente social responsável por essa pessoa, define também “se é um caso que precisa de apoio psicológico ou de apoio social. Se for o caso, falamos com as assistentes sociais da zona”, que têm sido determinantes numa altura em que a solidariedade salta para o topo da pirâmide das necessidades: “Temos várias parcerias, com muitos Centros Sociais e Paroquiais, com a Santa Casa da Misericórdia, com diversas Juntas de Freguesia. Por exemplo, realizámos algumas actividades com a paróquia do Campo Grande, que é uma paróquia muito grande, e onde fizemos uma parceria com a valência do rendimento social de inserção e do apoio comunitário, e também especificamente para o grupo dos idosos”. No mesmo sentido, a ‘Agir Hoje’, cuja sede fica situada bem no centro da cidade, também se associou à paróquia de Arroios, em cujo centro social e paroquial já realizaram cerca de seis grupos de apoio. Grupos estes que reúnem em média oito pessoas e que têm uma duração de três meses e meio. “Durante esses encontros não se fala de casos particulares, mas faz-se perceber a cada um dos integrantes que não está sozinho no mundo. Que são muitos os que passam por dificuldades financeiras. E que muitas vezes a partilha é a chave para algumas soluções”.

Há quem tenha feito, nesses grupos, amigos que levou para a sua vida do dia-a-dia. “Houve um grupo de senhoras que se juntou para fazer exercício, todas as semanas”, recorda Bárbara Noronha de Andrade, realçando a importância da socialização no equilíbrio emocional de cada um dos que pede ajuda à fundação onde trabalha.

 

É impossível descurar as finanças pessoais

Contas feitas, a instituição que poucos meios de divulgação próprios utiliza já atendeu 190 pessoas, somente no Gabinete de Apoio Individual. “Quanto aos grupos, já realizámos cerca de 50. E também já realizámos 55 formações sendo que a média é de 15 pessoas por formação”. O Formações destinam-se a pessoas que “acompanham outras pessoas por via directa, como é o caso de estudantes e profissionais de psicologia ou de serviços sociais, que têm a parte comportamental bastante desenvolvida, mas a quem falta alguma formação nesta questão financeira”, explica a assistente social, lembrando que as Finanças Pessoais são, hoje em dia, “de uma importância impossível de descurar”.

Apesar do número considerável de pessoas que já foram em busca de auxílio à Fundação ‘Agir Hoje’, as responsáveis apontam que têm feito este caminho com naturalidade. “Andamos a tentar gerir este equilíbrio de não sermos muito conhecidos. Ou seja, queremos que as pessoas saibam que existimos e que se podem dirigir a nós, mas não queremos correr o risco de ficar tão cheios de situações que deixemos de conseguir dar resposta”, sintetiza Marta Costa Reis, reforçando que “as pessoas vêem também porque temos tempo para elas”. A aposta passa, por isso, por continuar a atender cada pessoa e cada caso individualmente. “Queremos continuar a ter para cada uma a oportunidade de terem um acompanhamento muito profundo. E, por isso mesmo, queremos ter um crescimento sustentável!”, conclui a presidente da instituição.

 

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Peça de Teatro ‘Less is More – Menos é Mais’

Porque combater a crise é também fomentar o debate e ir até perto das pessoas – que muitas vezes podem não ter o conhecimento ou a coragem suficientes para pedir ajuda – a Fundação ‘Agir Hoje’ tem também preparada uma peça de teatro intitulada ‘Less is More – Menos é Mais’. Actualmente em cena no teatro do Centro Cultural Malaposta, em Odivelas, esta iniciativa pretende trabalhar com o público sobretudo as questões relacionadas com o consumo, o endividamento e o crédito. Especialmente dirigida a instituições ou escolas, esta peça está aberta ao público em geral. “É uma peça composta por três cenas, que termina deixando no ar um conjunto de interrogações que são depois debatidas com o público”, explicou Marta Costa Reis, presidente da fundação.


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Dicas para poupar

“Guardo as contas de tudo e no fim do mês vejo o que gastei em cada coisa: gasolina, comida, sair, etc. Se gastar mais do que no mês anterior já sei que no mês seguinte vou ter de poupar.”

Rodrigo V., professor

 

“Nunca compro nada ‘à primeira’. Penso sempre se preciso mesmo e se assim for, volto à loja.”

Margarida S., jurista

 

“Sempre que possível, pago com dinheiro. Tenho um envelope para cada tipo de despesa e quando acabar, acabou.”

Cláudia, 40 anos

 

“Levo uma lista de compras para o supermercado e só compro o que está na lista, mas aproveito as promoções ao máximo e uso cartões de desconto.”

Alexandra B.

 

in www.agirhoje.org

texto por Margarida Vaqueiro Lopes; fotos por Fundação ‘Agir Hoje’ e NRF
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