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Quaresma
Onde está o teu irmão?
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Já nas primeiras páginas da Bíblia somos confrontados com a interpelação que nos faz olhar para a nossa condição de seres solidários. A mensagem da narrativa de Caim e Abel é continuada ao longo das suas páginas e confirmada nas palavras de Jesus . Aquele ”onde está o teu irmão?” conduz-nos à avaliação feita na hora da verdade quando fica claro que “tudo o que fizestes ao mais pequeninos… foi a Mim que o fizestes”.


Nesta linha se entende a mensagem do Papa para a Quaresma: “Prestemos atenção uns aos outros”. Nela se integra a solicitude da Igreja portuguesa ao contemplar a difícil situação social e ao fazer um apelo  à incrementação dos serviços que possam coordenar e animar a acção social em todas as comunidades.

 

A situação a que chegámos

Uma coisa é falar do problema dos outros; bem diferente se torna quando ele nos bate à porta. Quando nos anos noventa se fez a tentativa de sensibilizar as pessoas para a chamada “dívida externa dos países pobres”  a reacção por parte de muita gente foi de estranheza perante o “exótico” ou então considerada como ingenuidade. Hoje vemos que o drama provocado pelo desemprego tem traços semelhantes. Pois a razão de fundo permanece: a primazia do lucro e a secundarização da pessoa; esta não passa de uma peça da máquina, que é utilizada enquanto é útil e lançada a seguir ao lixo. Quando o modelo económico se conduz por critérios exclusivamente técnicos, para produzir mais, consumir mais e lucrar mais, sem qualquer referência ética, só pode desembocar num reino vampiresco que provoca a devastação geral, desde a morte inaceitável de crianças e a vida curta e sem qualidade de imensas multidões  até à degradação do planeta que nos foi dado como casa comum. Neste reino os políticos, que se presume representarem o povo, pouco mais podem fazer do que serem figurantes numa tragicomédia conduzida pelo mundo da finança que se arroga o direito de governar o planeta e anseia tornar-nos “cúmplices infantilizados desta pornografia financeira”, como escreve o autor do livro “Falidos”.

 

O caminho a percorrer

Ancorados na esperança, há que confiar na capacidade de nos regenerarmos como pessoas e como povo. Primeiro há que mudar a mentalidade. Depois  descobrir que a felicidade se constrói e se mantém não com muitas coisas, mas antes com o aproveitamento daquilo que temos. Seguidamente restabelecer a rede vital que é dimensão solidária da pessoa humana para evitar o perigo do  desânimo ou do desespero. E continuar a aprender com Jesus que, mais do que realizar milagres de “multiplicação dos pães” manifestou a força e a beleza do milagre da “partilha dos pães”.

Com tal pano de fundo entendemos a mensagem do Papa para este tempo de conversão (que significa mudar de visão, de paradigma) e que apela a “prestar atenção ao outro”. A liturgia dos últimos dias nos lembrava o ensinamento do apóstolo Tiago segundo o qual “a religião pura e sem mancha consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo”. Este mundo quer significar aquele que nega Deus e a sua obra, a começar pelo seres “criados à sua imagem e semelhança”; aquele que “adora” não a fonte pela qual a pessoa anseia “como terra árida”, mas sim o “bezerro de ouro” por si criado e no qual deposita a confiança.

E porque o apóstolo nos relembrou que “a fé sem obras está completamente morta”, há que assumir a responsabilidade na luta pela superação das dificuldades, seja a nível individual, seja a nível comunitário. Nessa linha há que ter em conta as orientações que nos chegam através da Comissão Episcopal de Pastoral Social para que se incrementem, examinem e revejam os modelos de resposta às dificuldades de forma que em todas as comunidades cristãs exista o Serviço Paroquial de Acção Social. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber como o fazer. A propósito, para uma reflexão mais profunda, podemos aproveitar o documento do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre o “Acordo de Concertação  Social 2012” (www.areiadosdias.blogspot.com).

texto pelo P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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