Lisboa |
4ª Catequese Quaresmal
Não se pode desistir de amar, mesmo nas situações mais difíceis
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“Só quando nos sentimos amados e nos deixamos amar ganhamos uma força nova para amar os outros”, salientou o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, na 4ª Catequese Quaresmal proferida no passado dia 18 de Março, na Sé Patriarcal.


Dirigindo-se aos “obreiros da caridade e da solidariedade”, D. José Policarpo dedicou a 4ª Catequese Quaresmal deste ano ao tema da caridade que definiu como “o cume e a plenitude da expressão da salvação na vida de cada um de nós”. “O fruto do Espírito é a caridade, a alegria, a paz, a longanimidade, o gosto de servir, a bondade, a confiança nos outros, a doçura, o domínio de si”, salientou ao explicar o título atribuído à catequese: ‘A caridade é luz para a fé: «um coração que vê»’.

Recordando palavras do Papa Bento XVI na Encíclica ‘A Caridade na Verdade’, D. José Policarpo refere que a expressão utilizada pelo Papa ‘a caridade é um coração que vê’ significa “ver com o coração e isso supõe aquela realidade central da redenção cristã: um coração novo, a renovação do coração e portanto a renovação da capacidade de amar”.

Diante de uma assembleia onde estavam presentes religiosos e leigos que no dia-a-dia se empenham na missão caritativa, o Cardeal-Patriarca de Lisboa explicou que “ao meditar sobre a caridade vamos ao encontro do desígnio primeiro de Deus acerca do homem”. Apontando para o Evangelista São João, D. José Policarpo salientou que “Deus é amor e por isso mesmo Ele só podia criar o homem para que ele participasse do amor”. “É esse o significado da expressão que se encontra no livro do Génesis quando se diz 'Deus criou-o à sua imagem e semelhança'. Isto é, para ser amado, e ao sentir-se amar aprender a amar”, referiu.

Neste sentido, garantiu que “só quando nos sentimos amados e nos deixamos amar ganhamos uma força nova para amar os outros. Amar os outros é sempre um dinamismo que brota da experiência de ser amado e sobretudo de ser amado por Deus. A nossa relação fundamental com o Senhor em termos de fé e de aliança tem de ser essa! Sentir que Ele nos ama. Acreditar que Ele nos ama e abandonarmo-nos a esse amor”.

 

Amor

Fazendo uma abordagem histórica, D. José Policarpo refere que já desde o Antigo Testamento “é pedido ao Povo da Aliança para que acredite que Deus o ama e se sinta amado e depois ame a Deus louvando-o, cumprindo a sua Palavra e que ame o próximo como a si mesmo”. E sublinha: “O Amor de Deus e o amor do próximo são uma unidade inquebrável que nunca se podem separar porque quem se sente amado por Deus e consegue fazer a experiência de amar a Deus é inevitável que se sinta atraído pelo amor dos seus irmãos, pelo amor do próximo”.

Neste exercício do amor, o Cardeal-Patriarca frisou ainda nesta 4ª Catequese Quaresmal que “em Jesus Cristo este mistério do amor vai revelar-se” e é o próprio Jesus quem “ousa dizer aos discípulos, ‘amai-vos como eu vos amei’”. Por isso, concretiza: “Amar os nossos irmãos é amá-lo a Ele! Se Ele nos ama, Ele espera que aqueles que se abriram ao seu amor amem os outros Homens com o amor d’Ele”. Desta forma, o Patriarca de Lisboa assume que "há, assim, uma relação entre a fé em Jesus Cristo e a caridade". “A caridade é a flor da fé! Imaginemos um botão de rosa que floresce e desabrocha. A fé se não desabrocha da caridade é porque há qualquer coisa que não está certo. É estéril! Qualquer coisa está mal na nossa fé se espontaneamente ela não desabrocha do amor que a caridade é para com Deus e para com o nosso próximo. Só conta a fé que se exprime na caridade”, assinala D. José Policarpo citando o Apóstolo São Paulo aos Gálatas. “Se ela não se exprime na caridade tem qualquer coisa que lhe tira a sua verdade plena e a sua autenticidade. Foi por isso que o Papa Bento XVI escolheu para a sua carta encíclica o título 'A Caridade na Verdade'”, explicou.

 

Fé desabrocha na caridade

Retomando os textos de São Paulo, D. José Policarpo salienta que o Apóstolo define a caridade “como a luz da fé” que por vezes encontra dificuldades. “Às vezes a fé é dura. Não é fácil e há momentos em que é preciso mesmo uma firmeza de alma para continuar a acreditar. Mas porque a fé desabrocha na caridade, a caridade traz à fé alegria, bondade, doçura”, testemunha. “A caridade ensina-nos que a fé é sempre um acto de amor e isso, às vezes, nós não o percebemos! Quando dizemos, sinceramente, do fundo do nosso coração 'Jesus eu creio em Ti' estamos a dizer-lhe 'eu amo-Te, eu quero amar-Te, eu quero abrir-me ao Teu amor'”, assumiu.

Recordando que a relação entre a fé e a caridade acompanhou toda a história da salvação, D. José Policarpo refere que ao longo desses longos anos a caridade afirmou-se como “a verdadeira novidade da fé”, levando a algumas hesitações na linguagem usada. “Para os homens do Antigo Testamento, da parte de Deus esta caridade e este amor infinito de Deus pelo seu Povo, no contexto da aliança, chama-se umas vezes fidelidade, outras vezes misericórdia”. “A misericórdia pode ser também o nome da caridade cristã porque quando nós não somos capazes de perdoar estamos a reduzir a nossa experiência de amor às situações fáceis da vida”, sublinhou. “Outras vezes os autores sagrados chamam-lhe ternura, porque a ternura é a bondade”.

 

Caridade: a alegria de ser amado

Segundo D. José Policarpo “nos últimos tempos do Antigo Testamento e durante o primeiro e segundo século a cultura do Ocidente está muito marcada pela cultura helénica, e a palavra que na linguagem corrente significa o amor, 'eros' estava demasiadamente marcada pelo amor sensual”, explicou. “Era muito difícil os cristãos, ao traduzirem a Bíblia, exprimirem esta novidade formidável do que é amar com a força de Deus, a ponto de os nossos irmãos ao serem amados por nós se sentirem amados por Deus. Era muito difícil exprimirem isto com a palavra vulgar do amor”.

Foi por isso que surgiram outras palavras no vocabulário dos cristãos distinguindo-se, então, os seus significados. “Inventaram uma palavra que significa comunhão, a alegria de estar em conjunto no amor: Ágape, a partilha. A partilha de quem sente alegria em convidar o seu irmão, sobretudo os mais pobres e os mais desprotegidos, para partilharem consigo o Pão da Vida”. Segundo explicou D. José Policarpo, é nesta perspectiva que surge a Eucaristia celebrada pelos cristãos: “A própria Eucaristia que celebramos surgiu muito motivada por este modelo e por esta palavra inventada para significar esta novidade cristã do amor, que é comunhão e alegria do convívio, e bondade de quem se dá para que o outro sinta a alegria de ser amado. Quando se traduziu a Bíblia para latim esta palavra foi traduzida por caridade (caritas) que tem a sua raiz na mesma palavra grega que significa o dom de Deus, a graça do Senhor”.

 

Caridade versus amor

No entanto a palavra caridade tem perdido o seu significado, mesmo dentro da própria Igreja. “Faz-me muita pena quando vejo, mesmo dentro da Igreja e por ventura até por sacerdotes, que a palavra caridade saiu de moda. Acham que significa apenas o estar e fazer bem ao próximo. Alguns ousaram chamar-lhe 'a caridadezinha'. Começaram a traduzir a palavra caridade por ‘amor’. Mas não é a mesma coisa porque, como no tempo de Jesus a palavra ‘amor’, no nosso tempo, está profundamente marcada pelas experiências em que as pessoas mais do que amarem os outros, de se darem, se amam a si mesmas”, lamentou.

Outra palavra que foi entrando do léxico corrente é ‘solidariedade’ que, mesmo reconhecendo-a como “uma palavra bonita” é, segundo D. José Policarpo, uma palavra “usada para definir as grandes experiências da caridade”. No entanto a palavra caridade tem outra dimensão: “A caridade é uma forma sublime de solidariedade, porque ela é feita e praticada não apenas com a força que vem da natureza humana mas com a força que nos vem de Deus, porque Ele nos deu o seu Espírito”, salientou.

Segundo o Cardeal-Patriarca de Lisboa, hoje vive-se “um ambiente cultural em que este discurso não é fácil, porque todo ele é marcado pela dimensão horizontal, humana, das capacidades que o homem tem”. “Só com a graça de Deus, no silêncio do amor e da oração, podemos descobrir que em Jesus Cristo a nossa solidariedade para com os irmãos tem outro nome. Chama-se koinonia, ágape. Chama-se estar em comunhão porque estamos em comunhão com Pai, com o Filho e com o Espírito Santo”.

 

Redescobrir o amor de Cristo

Recordando que o Concilio Vaticano II define a Igreja como "um Povo que busca a força da sua unidade no amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, D. José Policarpo garante aos cristãos que “se não vivermos isto em que acreditamos, ou até mesmo se não acreditarmos nesta originalidade sobrenatural da nossa existência cristã, já nos damos por muito contentes se formos bons uns para os outros, e praticarmos a solidariedade”.

Ao dirigir-se àqueles que considera serem “no dia-a-dia o rosto da Igreja no amor pelos mais pobres, pelos que sofrem, pelos doentes e pelas pessoas de idade”, o Patriarca de Lisboa alertou para o facto de ser importante “que esses nossos irmãos quando se sentem amados por nós se sintam amados por Deus”. Nesse sentido deixa um apelo: “Precisamos de redescobrir no dia-a-dia da nossa prática de convívio fraterno a relação entre aquilo que fazemos pelos irmãos e aquele que é o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo por nós. O grande acto de amor, a fonte de todo o amor. Só assim o nosso amor é universal e não exclui ninguém”, refere citando São Paulo. “É um amor de que não se pode desistir porque mesmo nas alturas mais difíceis sou chamado a perdoar. É este amor caridade que acaba por dar sabor e sentido a toda a nossa vida. A caridade tende a unificar a nossa personalidade interior, a nossa liberdade”, afirmou D. José Policarpo, sublinhando que “só esse amor dá a alegria de construir dia a dia a Igreja como corpo do Senhor”.

 

Deixar-se amar

Para a concretização deste amor caridade o Cardeal-Patriarca deixa a solução: “Para isto basta ser santo e não é muito difícil porque não somos nós que fazemos, é Deus. É Ele que nos dá a força ao amarmos. Por isso, basta estar atento às manifestações do amor de Deus na nossa vida e deixarmo-nos amar. A primeira atitude de quem reza é deixar-se amar. Sentir que Deus o ama e abandonar-se. É desse abandono ao amor de Deus que nascem todas as outras pétalas de uma mesma flor que tem a sua raiz na fé mas que há-de perfumar o dia a dia da nossa vida”, finalizou.


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texto e fotos por Nuno Rosário Fernandes
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