Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Utopia impossível?
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Muitas vezes, olhamos para o Evangelho como para uma utopia irrealizável. Apenas Jesus, porque era Deus, o pôde colocar em prática, e a Virgem Maria, concebida sem pecado, por graça de Deus. A nós, simples mortais, resta-nos ir fazendo algum esforço para, nuns momentos passageiros, nos aproximarmos da vontade do Senhor e da grandeza e altura dos mandamentos de Jesus.

O facto é que o Evangelho não uma utopia – pelo menos no sentido de realidade impossível de viver. Pelo contrário. Se é verdade que somos “vasos de barro”, quebradiços e frágeis, nem por isso deixamos de transportar connosco o Evangelho de Deus. Isso mesmo o mostra a vida de tantos mártires, de tantos santos, de tantos cristãos que, em cada dia que passa, se esquecem de si para que neles resplandeça a glória de Deus. E mesmo como comunidade, como Igreja.

É certo que muitos dos manuais escolares estão cheios de velhas ideias luteranas, que olham para a Igreja como a Babilónia cheia de dinheiro e de vícios, que nada tem a ver com a pureza do Evangelho de Jesus; é certo que muita comunicação social, incapaz de ir além daquilo que aprendeu na escola, continua a repetir até à exaustão essas ideias. E também é certo que, não raras vezes, o nosso olhar é mais dirigido para os pecados dos cristãos (a fragilidade do barro) que para a santidade de Deus que resplandece na Igreja e por ela no mundo, como nos recordava o Concílio.

Mas aquilo a que assistimos na recente visita do Santo Padre Bento XVI a Cuba foi bem diferente. Raros foram os regimes que perseguiram tanto a Igreja como instituição e os cristãos como pessoas, que o regime comunista de Cuba. Muitos foram os mártires que ali pagaram com o seu sangue a fidelidade à verdade do Evangelho.

Há 14 anos, num momento em que o regime cubano agonizava em isolamento internacional, o Beato João Paulo II teve a coragem de visitar a ilha e de convidar o mundo a abrir-se a Cuba e esta ao resto do mundo, estendendo a mão ao perseguidor. Agora, há apenas alguns dias, foi o Papa Beto XVI que repetiu o gesto, sem nunca deixar de proclamar a importância de maior liberdade e abertura, e tendo bem em mente todos os dramas dos perseguidos do regime.

O perdão dos inimigos está longe de ser impossível. Se virmos bem, o gesto de Jesus na cruz, longe de ser único, tem sido repetido, ano após ano, dia após dia por muitos cristãos.

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