Entrevistas |
D. Manuel Monteiro de Castro, cardeal português no Vaticano
“Temos necessidade de formar bem os sacerdotes que confessam”
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Nomeado recentemente pelo Papa Bento XVI para a Penitenciaria Apostólica, D. Manuel Monteiro de Castro foi também eleito para o Colégio Cardinalício, tornando-se o terceiro cardeal português em funções. Em entrevista exclusiva ao Jornal VOZ DA VERDADE, o Penitenciário-Mor do Vaticano explica a sua missão e recorda que a confissão deve ser um sacramento frequente na vida do cristão.

 

O que é a Penitenciaria Apostólica?

A Penitenciaria é um tribunal e é apostólico. Isto é, como tribunal julga. Como todos os tribunais, dá uma pena. E como apostólico, deve ser uma pena que conduz à salvação eterna. Ou seja, a lei suprema da Igreja é a salvação das almas. Portanto, o nosso objectivo é a salvação das almas! Que os cristãos se realizem com tudo aquilo em que podemos ajudar para que tenham uma união com o Senhor, e se sintam felizes e bem realizados nesta vida e que tenham a glória no Céu. Portanto, esse é o objectivo da Penitenciaria Apostólica, que é um órgão que provém do século XIII. Actualmente as suas funções dividem-se: por um lado, dedica-se aos casos reservados à Santa Sé e, por outro, às indulgências.

 

Qual a função do Penitenciário Apostólico?

O trabalho principal do penitenciário também se divide. Para aquilo que é os casos reservados à Santa Sé, esses são estudados por um congresso que se reúne todos os dias, atribui a sua opinião e envia para mim, para que eu veja e possa dar, também, a minha opinião. Uma vez dada essa opinião, resolvemos o problema.

 

Que tipo de casos são esses a que se refere?

Vejamos, por exemplo, uma situação de violação do Santíssimo Sacramento. Uma pessoa que até era católica mas uniu-se a determinado movimento [não eclesial], e numa ida à igreja viola o Santíssimo Sacramento. Ou até mesmo numa situação em que a pessoa foi à Eucaristia, comungou mas violou o Santíssimo Sacramento. Esse é um pecado que tem excomunhão reservada à Santa Sé! Essa pessoa, com o passar do tempo, converteu-se e verificou que a sua atitude foi errada e foi confessar-se desse pecado... Nessa situação, o sacerdote não tem poder para a absolvição, excepto se em caso de morte do penitente. Por isso, deve perguntar ao penitente se está de acordo que contacte com a Penitenciaria Apostólica e exponha a situação, isto sem mencionar o seu nome! Uma vez entregue à Penitenciaria Apostólica, o caso é estudado e na resposta ao sacerdote atribuímos uma penitência ou uma pena.

 

Que pena pode ser atribuída nessas situações?

Se se trata da violação do Santíssimo Sacramento poderá ser o ter de fazer meia hora de adoração, uma vez por mês, ou por semana, durante um determinado período de tempo. Ou algo do género...

 

Dizia, há pouco, que outra das funções do Penitenciário-Mor está relacionada com as indulgências. O que são as indulgências e como se processam?

Quando a pessoa se confessa, se a confissão foi bem feita, houve o perdão da culpa e portanto a pessoa não vai, digamos assim, para o inferno. Mas fica sempre alguma coisa na pessoa que a leva a precisar de ajuda. É o que chamamos a pena que se realiza, ou no purgatório ou até mesmo na terra, por uma pena temporal. Mas essa pena temporal pode ser superada na terra, seja para nós, seja para os defuntos. E isso faz-se através das indulgências. Podemos comparar com um cofre onde temos muitos bens, e esses bens que temos são os sofrimentos e a morte de Jesus, o que fez Nossa Senhora, os santos... tudo isso dá-nos um tesouro muito rico. Esse tesouro foi confiado à Igreja quando Jesus disse a São Pedro: “Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu”. Assim, a Igreja, por meio do Papa enquanto sucessor de Pedro, tem este tesouro para dar a quem o pede. Através deste tesouro pode-se lucrar a indulgência plenária ou a parcial.

 

Quando se pode receber essa indulgência?

Pode ser atribuída quando há alguma festa importante. Por exemplo, por ocasião da ordenação de um sacerdote pode ser pedido para que as pessoas que participam na primeira Missa desse sacerdote possam lucrar dessa indulgência. Isso pode ser feito através do bispo ou por nós. Requer-se, no entanto, que a pessoa que recebe a indulgência plenária se confesse, comungue e reze pelo Papa.

 

Recorre-se muito à indulgência?

Em muitas partes do mundo sim. Outras menos, talvez porque seja pouco conhecida essa possibilidade. Desde que estou nestas funções praticamente todos os dias recebemos pedidos da Alemanha, França, Espanha e Itália. De Portugal, até agora, não recebi nenhum pedido. Pode ser que tenha havido no passado.

 

A propósito da reconciliação, o Santo Padre afirmou recentemente que a confissão "é meio de nova evangelização". Como é que a confissão pode ser este meio de anúncio?

É fundamental! Porque a pessoa deve estar bem preparada para seguir o Senhor. É certo que o Senhor morreu por nós para nos salvar mas nós temos de corresponder. Em breve teremos o Sínodo dos Bispos e certamente esse será um tema a estudar. A confissão deve ser frequente porque precisamos de alguém com quem nos possamos abrir. Um dos meus trabalhos mais complicados é o de preparar bem os confessores das quatro basílicas de Roma. São 58 os penitenciários menores, que têm uma preparação especial, e têm de fazer um exame no qual eu devo estar presente. Em cada mês reúno com eles para que estejam bem preparados. O que pretendemos é estar ao serviço das pessoas para que se sintam realizadas e amadas. Essa preparação de confessores também tem sido pedida por alguns países. A Alemanha tem pedido diversas vezes para ter um congresso sobre este Sacramento, pelo que enviamos daqui alguém para colaborar. Eu creio que temos necessidade de formar bem os sacerdotes que confessam. Todos os sacerdotes devem confessar e nós sacerdotes devemos estar preparados para tudo e nunca ter medo. Não devemos ter medo de defender o que temos de defender, com muita atenção às pessoas.

 

Os cristãos recorrem muito ao Sacramento da Penitência?

Das informações que tenho, terá diminuído muito a percentagem de pessoas que se confessam. Há na realidade, em toda a Europa, uma tendência para um cristianismo muito vago.

 

O que pode levar a esse desinteresse pela confissão?

É a falta de formação religiosa. Muitas vezes digo que a melhor formação é a que temos em casa. Se em casa temos alguém que está bem formado, prepara os outros. Em outros tempos, quando chegavam as grandes festas religiosas, os pais ou avós diziam aos filhos ou aos netos para se confessarem. Agora não creio que exista isso. Também em muitas igrejas foram retirados os confessionários. Por isso penso que devemos pensar, estudar esta situação e pedir aos sacerdotes que se formem bem para a confissão.

 

Nesta semana em que fazemos esta entrevista foi apresentado pela Conferência Episcopal Portuguesa um estudo que demonstra uma redução no número de católicos em Portugal. Que comentário faz a estes resultados?

Já hoje pela manhã ao ver as notícias publicadas sobre Portugal vi esses resultados. Não me parece ter sido uma redução muito grande mas sim, há redução. E por isso creio que necessitamos de trabalhar mais com as famílias porque elas são a base. Parece-me, também, que a entrada de pessoas de outros países e de outras religiões tem levado a essa redução. Por exemplo, creio que os islâmicos que estão em Portugal já começam a ser um certo número e parece-me serem pessoas que vêm do estrangeiro. Depois há outros grupos que vêm também de outros países e trazem as suas religiões.

 

Há determinadas pessoas que, por não se identificarem com a Igreja Católica fazem a apostasia da fé cristã (repúdio formal da fé cristã). O que pode levar a essa atitude e como se pode ajudar?

As pessoas que estão nesse caminho temos de as ajudar a reflectir e se não têm fé, temos de pedir ao Senhor para que um dia a tenham. Hoje há, sobretudo, o agnosticismo. Mas creio que as pessoas têm direitos e são livres. Deus mostrou-nos um caminho e uma luz para iluminar o caminho melhor para nós, mas deixou-nos livres. E nós podemos escolher esse caminho ou não. A Igreja não impõe esse caminho a ninguém mas faz ver que temos uma luz que nos foi dada pelo Redentor. Esse caminho a seguir não é o de negar Deus.

 

O Papa Bento XVI atribuiu-lhe novas funções na Santa Sé. Ainda espera regressar a Portugal?

Nunca tinha pensado sobre isso, mas claro que sim! O Papa nomeou-me por cinco anos nestas novas funções mas pode ser que daqui por algum tempo seja nomeado um outro penitenciário e eu fique mais livre. Se ficar mais livre, as funções de membro das Congregações dos Bispos e das Causas dos Santos posso desempenhá-las estando em Portugal e vindo a Roma quando necessário.

 

Onde gostava de terminar os seus dias?

Eu vou para Portugal assim que possa! Disso não tenho dúvidas. Estou ao serviço da Santa Sé, como sempre estive, mas assim que puder vou para a minha terra!

 

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A volta ao mundo de um diplomata da Santa Sé

Natural de Santa Eufémia de Prazins, Guimarães, onde nasceu a 29 de Março de 1938, D. Manuel Monteiro de Castro foi ordenado presbítero em 1961. Nesse mesmo ano, o jovem sacerdote deixa o país e parte para Roma, onde fica até ao ano 1967. Nessa altura acompanha a comitiva do Papa Paulo VI a Fátima.

Cursou Direito Canónico, forma-se na Academia Diplomática e em 1967 é nomeado para a Nunciatura Apostólica do Panamá, onde exerce funções até 1969. De 1969 a 1972 está na Nunciatura Apostólica de Guatemala, onde afirma ter vivido "momentos difíceis". De 1972 a 1975 a sua missão diplomática desenrola-se no Vietname e no Cambodja onde diz "ter procurado visitar todos os lugares da gente que sofria" e aí, como representante da Santa Sé, em conjunto com o futuro Cardeal Van Thuan, já falecido, “participa no salvamento de muitas pessoas a sul de Saigão”.

Em Abril de 1975 parte, então, para a Austrália onde é Delegado Apostólico. Naquele país, desloca-se de Sydney para Camberra onde constrói a sede da Nunciatura Apostólica, obra que será o próprio a inaugurar. "Foi uma grande honra que me foi dada pela Santa Sé", comenta. De Austrália é nomeado pelo Papa João Paulo I para Espanha, mas ao chegar ao Vaticano os caminhos alteram-se e parte, então, para o México. Uma permanência que vem a coincidir com a primeira visita do Papa João Paulo II àquele país sul-americano. "Desde essa altura fiquei com uma relação muito próxima do Santo Padre", acentua o Cardeal Manuel Monteiro de Castro.

Por altura do atentado ao Papa em Roma, regressa à cidade eterna onde está durante meio ano, até ser enviado para Bruxelas. Acompanha de perto a Comunidade Económica Europeia (CEE), e a NATO e em 1985, ano em que é ordenado bispo, é enviado como Núncio e Delegado Apostólico para as Caraíbas, até por volta do início dos anos 90. Nessa altura, é enviado para El Salvador e Honduras, onde vai permanecer durante sete anos e meio.

Da América Latina parte para a África do Sul, onde está cerca de dois anos e meio. "Aí começámos as relações diplomáticas com Nelson Mandela", destaca. Chega, então, à cidade espanhola de Madrid, onde vai ficar até 2009, ficando assim mais próximo de casa. "A minha mãe, desde sempre, rezava diariamente o Terço para que eu viesse para junto de Portugal, e não havia lugar mais próximo do que Espanha", diz, comovido, o Cardeal Monteiro de Castro.

De Madrid, "quando esperava regressar à terra", o Papa Bento XVI nomeia-o para a Congregação dos Bispos e como secretário do Colégio Cardinalício, concedendo "com uma certa surpresa" o lugar de Penitenciário-Mor da Penitenciaria Apostólica e, ao mesmo tempo, um lugar no Colégio Cardinalício, no último Consistório realizado em Fevereiro deste ano 2012.

Na semana em que realizamos esta entrevista é tornada pública a nomeação de D. Manuel Monteiro de Castro como membro das Congregações para os Bispos e para as Causas dos Santos, e assento no Conselho Pontifício para os Migrantes.

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