Entrevistas |
Renascença
Um olhar católico há 75 anos
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Entre os diversos meios de comunicação, a rádio continua a ser, para muitos, a preferência. Por ser companhia, por ser imediata, por criar relação, por estar sempre presente na vida de cada um. Para marcar a diferença, há 75 anos, monsenhor Lopes da Cruz concretizava um sonho de rádio da Igreja que queria sair ‘fora do adro’. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o presidente do Conselho de Gerência do Grupo R/COM, cónego João Aguiar Campos, fala de uma rádio com um olhar diferente.


A Rádio Renascença (RR) surge de uma ideia de monsenhor Lopes da Cruz na década de 30. Podemos dizer que este homem foi um visionário?

Um extraordinário visionário! E tanto mais visionário quanto ele não sonhou apenas a rádio. Já havia a imprensa [revista Renascença] e tem a ideia da rádio e da televisão. Digamos que já pensava num grupo multimédia. A própria Renascença está ligada ao nascimento e à organização da RTP em Portugal. Mas é visionário também por uma espécie de um mandato, não apenas por intuição pessoal. Quando o Cardeal Cerejeira é confrontado com este sonho de uma emissora católica, é da opinião que o projecto tivesse grande dimensão. E vai ser tal a grandeza que monsenhor Lopes da Cruz chega a dizer ‘a nossa rádio não é uma rádio de adro, pequenina, paroquial mas uma rádio como as outras, fazendo o que as outras fazem, sem conteúdos avariados, como por aí se vai vendo...’. Por isto, penso que as três palavras, emissora, católica e portuguesa, explicam o sonho e depois a realização que vai ser conseguida: 'emissora' porque é um projecto profissional; 'católica' pela sua identidade; e 'portuguesa' porque é no contexto deste povo e desta Igreja que ela vai desenvolver a sua actividade.

 

Como é que no meio de um rol tão grande de rádios que há no país, a Rádio Renascença consegue ser uma rádio católica?

Em primeiro lugar consegue ser um projecto profissional de qualidade. Se não fosse um projecto profissional com qualidade, a própria dimensão de catolicidade estaria, à partida, prejudicada. Por isso, em primeiro lugar está a dimensão profissional. Depois há uma dimensão profissional que se vive com olhos cristãos, católicos sobre os acontecimentos. O que na minha perspectiva deve caracterizar a Rádio Renascença é precisamente este olhar sobre as pessoas e sobre os acontecimentos. Os acontecimentos estão aí e a interpretação que se faça deles é que pode ser mais ou menos positiva ou mais ou menos construtiva. Por exemplo, podemos ter perante a crise um discurso de catástrofe ou de desresponsabilização, ou podemos olhar para a crise e perguntar que dose de responsabilidade temos nesta crise, e que dose de contributo nós vamos dar para a saída dela. A crise obriga o católico ao discernimento, por isso não podemos prescindir desta identidade.

 

A Rádio Renascença foi durante muitos anos líder de audiências em Portugal...

O grupo Renascença continua a liderar as audiências, e uma das rádios do grupo (RFM) substituiu a outra (RR) na liderança. Isto reporta-nos para a evolução dos gostos. Hoje estamos a atravessar um tempo em que o gosto pela rádio se diversificou para a música. Hoje os projectos informativos são projectos com relevância ao nível da intervenção, mas com audiências menores. Não quer dizer que seja assim, mas quanto mais se investe na informação mais se desinveste nas audiências. Ao mesmo tempo há a opção pela música indo ao encontro das escolhas mais frequentes das pessoas e até dos próprios hábitos de escuta e locais de escuta. Hoje ouve-se mais rádio no carro e menos em casa. Por outro lado já é, também, significativa a preferência do ouvinte por ouvir rádio no trabalho como 'ambiente musical'. Por outro lado, a crise económica empurra para uma rádio musical porque é uma rádio mais barata que uma rádio de informação.

 

Sendo uma rádio católica, como é que a Renascença vai ao encontro da sua missão evangelizadora?

Vai de duas formas... a forma mais comum é precisamente o olhar sobre as coisas e a interpretação e explicação ou o comentário que faz sobre os acontecimentos. O outro modo de o fazer é pela transmissão de acontecimentos religiosos ou programas especificamente religiosos indo, mais uma vez, ao encontro do que dizia o fundador que considerava que havendo transmissões de acontecimentos ou de actos religiosos, não se esgotaria aí a identidade católica da rádio. Até porque, se a rádio fosse apenas um repositório dessas transmissões seria uma rádio apenas para os mesmos. Isto é, para os que frequentam a Igreja e já são praticantes. Deixaria de ser, assim, uma rádio de alguma forma provocatória dizendo para fora da Igreja: 'nós lemos a vida assim'; e perguntando a quem está fora da Igreja: 'esta leitura não lhe diz nada? Não quer mudar de orientação? Não quer ver isto sobre outro ângulo?’. Isto é difícil! Seria muito mais fácil fazer uma rádio católica com apenas transmissões religiosas, mas estar no terreno e 'sujar as mãos', como disse o Cardeal Ravasi em Fátima, é absolutamente fundamental.

 

Embora sendo uma Rádio mais musical, não deixa de procurar gerar proximidade…

Há um autor que refere que 'a rádio acontece entre as músicas!'. As rádios como musicais poderiam ser todas iguais. Todas podem fazer as mesmas escolhas musicais e trabalhar para o mesmo público-alvo. O que faz com que uma tenha mais êxito do que outra é precisamente a comunicação e a própria credibilidade da marca. A RFM ganhou, durante dois anos seguidos, o prémio da marca mais credível. O grupo Renascença, através das suas rádios, foi ganhando uma credibilidade que provoca uma receptividade maior. Por outro lado, fazemos rádio não para nós mas indo ao encontro dos interesses do ouvinte e dos problemas das pessoas. Não se trata de confortar os seus gostos, mas percebendo que perguntas as pessoas fazem acerca de qualquer acontecimento e ajudar, assim, a iluminar o acontecimento. Aqui está presente a atenção, a proximidade e o afecto, mesmo querendo saber quem está do outro lado, como reage e o que se diz. Também aqui se é católico! O próprio Jesus Cristo, longe de doutrinar, provocou o feedback, levando à reacção do outro lado. Esta interacção é a atenção que se dedica ao outro.

 

O que significa celebrar 75 anos?

Em primeiro lugar significa uma enorme gratidão em relação a quem fez este caminho dos 75 anos até agora. Quem teve o sonho, quem o alimentou, quem sofreu alguns momentos difíceis no sonho. Significa revisitar a alma do projecto e questionar sobre a missão de hoje e do futuro. Por isso, significa também olhar para a frente! Porque amar o passado e construir o presente é amá-los tanto que se lhes queira garantir o futuro.

 

Que desafios se colocam neste momento à RR?

Há dois desafios. Um, apesar de ser economicamente caro é dos mais fáceis. Trata-se do desafio tecnológico de inovação permanente. Não sabemos como vai ser o amanhã, mas a rádio tem esta capacidade ‘camaleónica’ e vai continuar a viver e sobreviver e a progredir, sejam quais forem as plataformas. O outro desafio, que é o maior e o que me faz mais ‘medo’, é o desafio editorial. Porque, para cumprir o tecnológico chega ter dinheiro mas para responder ao desafio editorial é preciso ter cabeças, alma e coração. Hoje, ao olharmos à nossa volta, verificamos que não abundam tanto os leitores capazes de fazer esta leitura cristã dos acontecimentos. Se não tivermos cuidado numa afirmação permanente e numa formação permanente acontecerá a deformação. Acontecerão os conteúdos ‘avariados’ que monsenhor Lopes da Cruz queria evitar. Isto significa que do lado da rádio ou seja, do lado da Igreja em Portugal, tem que haver uma séria, constante e profunda formação para a comunicação social, percebendo que comunicar é evangelizar.

 

Com o aparecimento da internet surgiram receios em relação ao futuro da rádio. No entanto, há estudos que apontam a rádio como o meio que melhor se adaptou à internet....

Penso que foi o que melhor se adaptou à internet e lucrou muito com a internet porque a rádio tinha a limitação das frequências. O espectro rádio eléctrico é limitado. Mas a limitação das frequências foi ultrapassada pela internet. Por outro lado, a rádio estava limitada à memória, ao instante de quem a ouve e à memória de quem a ouviu. A internet veio possibilitar a permanência de um determinado programa para posterior audição [o podcast]. Além disso, a rádio estava limitada na sua expansão mas a internet fez com que uma rádio local, hoje, possa ser uma rádio global que pode ser ouvida em qualquer lugar do mundo. A internet permite, ainda, que determinados conteúdos, que a rádio não teve tempo de pôr no ar, possam ser desenvolvidos, vistos e ouvidos online. Isto possibilitou que se passasse do que um autor afirma ‘da radiodifusão para a rádio visão’. Hoje, a rádio é também algo que pode ser visto. Por isso, o que parecia uma ameaça foi uma enorme oportunidade. Outras oportunidades que venham têm de ser aproveitadas com inteligência.

 

Isso significa que a rádio tem futuro?

Sim, a rádio tem futuro! O importante é perceber que desafio novo eu vou encontrando e de que forma aproveito as circunstâncias. O homem de hoje está envolvido nesta cultura digital e quer tudo na plataforma agora, e na plataforma que tem e lhe é mais acessível. É evidente que isto coloca-nos o desafio do conteúdo, da gestão das emoções e da razão que não pode ser desprezada, mas isso já é a formação que cada um seja capaz de ter para a formação que seja capaz de dar.

 

Na mensagem deste ano para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja assinala este Domingo, 20 de Maio, o Papa Bento XVI fala do silêncio e da palavra. Onde é que o silêncio entra na rádio?

Entra nas pausas, nas dúvidas… eu sei que o silêncio na rádio é um drama. O silêncio... [pausa de silêncio]... este silêncio que agora fiz, significa a busca da palavra, a dúvida, mas significa também o respeito que se tem pelo ritmo de descodificação do outro, ou a oportunidade que se dá ao outro de nos interromper. É sempre um silêncio de enorme escuta. Escuta interior e escuta exterior. O Papa chama a atenção para o silêncio e a palavra como dois elementos da comunicação. Uma palavra sem o tempo de gestação que o silêncio implica facilmente será mero palavreado. Como um silêncio que nunca seja rompido, até para dizer um olá, algumas vezes pode ser desprezo do outro. Por isso, tem de ter este tempo exacto de escuta e de maturação. O silêncio que o comunicador crente deve fazer é o de ouvir a Palavra porque, para falar de uma Pessoa exige-se, mais uma vez, o silêncio que nos permitiu conhecê-la.

 

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Informação na Renascença: o critério da procura da verdade com esperança

“Fazer informação numa rádio católica é fazer informação tentando que não se traia o espírito da leitura cristã dos acontecimentos”, refere a directora de Informação da Rádio Renascença, Graça Franco, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Segundo explica, na redacção da Renascença, que é composta por jornalistas profissionais, “há uma forma diferente de fazer jornalismo” e o ser crente não é condição para o trabalho que se desenvolve. Há uma “linha editorial que procura seguir a leitura cristã”, explica Graça Franco, apontando que “na redacção há jornalistas cristãos e outros não cristãos, mas a linha editorial pretende ser, tanto quanto possível, fiel ao espírito cristão”. Reconhecendo que essa meta “se cumpre umas vezes melhor do que outras”, Graça Franco sublinha que “qualquer cristão, em qualquer meio de comunicação, tem essa forma diferente de fazer jornalismo”.

O contexto sócio-cultural nem sempre facilita a missão de quem quer fazer informação com um olhar cristão. Segundo a responsável da informação da rádio da Igreja Católica em Portugal, “a busca da verdade, que é sempre a meta a alcançar, nem sempre é compatível com a presença da esperança”. Uma dificuldade para qual aponta uma justificação: “Na busca da verdade, somos muitas vezes confrontados com perspectivas negativas que contrariam aquilo que é uma das nossas opções editoriais de base, que é no fundo, em tudo lermos os acontecimentos numa perspectiva de esperança. Há momentos em que a nossa rádio se diferencia muito das outras, porque procuramos, como os outros, a mesma verdade dando-lhe o tom positivo que qualquer cristão tem de ver nos acontecimentos”, salienta.

Tal como qualquer outro meio de comunicação, a Renascença, que se caracteriza por “um jornalismo de referência”, também procura as notícias em primeira mão, denominadas por ‘furo jornalístico’ ou ‘cacha’. No entanto há algumas diferenças. E para Graça Franco, isso “distingue-se da busca de sensacionalismo ou seja, a notícia em primeira mão vista como uma coisa sensacional. Na Renascença, uma ‘cacha’ é sempre muito bem-vinda, mas tenta não seguir uma linha sensacionalista”, adverte. Neste contexto, a directora de Informação da Renascença reconhece “haver outros meios de comunicação, não confessionais, que praticam este tipo de jornalismo de referência”.

 

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O lugar ao silêncio na informação

Confrontada com a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, subordinada ao tema ‘Silêncio e palavra: caminho de evangelização’, Graça Franco confessa ver “o silêncio na informação como uma preocupação”. “Mais do que o silêncio expresso na comunicação percebi, ao ler a mensagem do Papa, que o mais importante era o silêncio interior. O silêncio que temos de fazer para escutar o outro, sem o preconceito, sem quebrar a palavra, sem tentar que alguém nos diga aquilo que nós esperamos. Mas mais importante seria criar condições para o silêncio de reflexão”, assinala.

A azáfama do ritmo do jornalista da Rádio Renascença, que hoje em dia trabalha sobre várias plataformas (rádio, internet e vídeo), pode ter os seus riscos neste cuidado com o espaço para o silêncio. “Cada jornalista é muito mais solicitado porque a rádio está em diversas plataformas e o risco pode ser o de ter pouco tempo para pensar”. “Desde o jornalista aos responsáveis”, sublinha Graça Franco, “não estamos imunes a essa voragem da sociedade, mas devíamos criar um antivírus”. “Precisamos de tempo para reflectir, e cada vez temos menos tempo”, lamenta reconhecendo que essa falta “prejudica o trabalho”. Para esta responsável, “o Papa é desafiante porque diz aos comunicadores que parem para pensar. Toca na ferida que está muito aberta e é importante curá-la”.

 

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Grupo Renascença

Nascida de uma vontade de ser uma rádio católica, e por isso mesmo universal, a Rádio Renascença foi conseguindo chegar a um público muito vasto e variado, tendo sido considerada por especialistas internacionais, um ‘fenómeno comunicacional’, dado o perfil da emissora.

Se há 75 anos nascia um canal de rádio derivado de uma revista com o mesmo nome, ‘Renascença’, hoje o canal que foi crescendo transformou-se num grupo de comunicação, a par de muitos outros que existem em Portugal. O Grupo R/COM procura ir ao encontro de um escalão etário diversificado, o que para o cónego João Aguiar Campos é "uma exigência do ser católico". "Católico significa ser universal e por isso somos para todas as idades, todas as condições e em todas as plataformas onde as pessoas procuram opinião e informação”, refere.

As rádios ‘Renascença’, ‘RFM’, ‘Mega Hits’ e ‘SIM’, o site na internet (http://rr.sapo.pt) o jornal online 'Página 1', publicado de segunda a sexta-feira e que, segundo o presidente do Conselho de Gerência, “é enviado para mais de 75 mil endereços de e-mail”, quatro web-rádios, e o mais recente canal de vídeo, ‘V+’ são os meios de comunicação do actual Grupo R/COM, que teve origem no sonho de um visionário, monsenhor Lopes da Cruz.

texto e fotos por Nuno Rosário Fernandes
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