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“Sem Deus, a vida não faz sentido!”
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Após a ordenação, neste Domingo, 1 de Julho, será o primeiro diácono da Comunidade Emanuel da Diocese de Lisboa. Fernando Santos tem 29 anos e queria ser um ‘rato de laboratório’. Deus trocou-lhe as voltas!

 

Fernando Santos nasceu a 10 de Agosto de 1982, em Oliveira de Frades, no distrito e diocese de Viseu. É oriundo de uma família que caracteriza como “católica, embora naquela época fosse mais praticante por tradição do que por convicção profunda”, refere ao Jornal VOZ DA VERDADE. Tinha, apenas, três meses quando foi baptizado e, “como toda a gente do interior, naquela altura”, frequentou a catequese e completou os sacramentos da iniciação cristã (Crisma e Eucaristia). Este Domingo, 1 de Julho, vai ser ordenado diácono com vista ao sacerdócio, integrado na Comunidade Emanuel e incardinado na Diocese de Lisboa. Mas a sua história não é assim tão breve, até porque, hoje, aos 29 anos, reconhece que nos anos de catequese ficou a saber “muita coisa de Deus, mas a ideia que d’Ele tinha era a de que, se Deus existisse seria alguma coisa muito longínqua, que não tinha muito a ver com a prática” da sua vida. “Ainda hoje aprecio, muito, tudo o que me transmitiram quando era pequeno mas a base não era das mais sólidas, o que fez com que no período da minha adolescência eu me fosse afastando gradualmente da Igreja”, reconhece.

 

A mão de Deus

Aos 18 anos, após o 12º ano, chega o momento de fazer as escolhas académicas e Coimbra virá a ser o seu destino. Inicia o curso de Bioquímica, licenciatura que frequentou por dois anos, ao mesmo tempo que foi desfrutando do ambiente académico característico daquela cidade universitária. “Enquanto estava em Coimbra, a vida que levava era a de ‘estudante de Coimbra’”, graceja. “No meu primeiro ano em Coimbra fiquei alucinado e um pouco deslumbrado com toda a liberdade que, de repente, tinha. Era o viver, finalmente, fora de casa e ter as noites livres, o que levava a que fizesse muitas noitadas! Tive algumas companhias que me começaram a levar por maus caminhos e, reconheço agora que se não fosse a mão de Deus a chamar-me naquele momento, não sei o que seria de mim! Foram experiências que me fizeram ver como, sem Deus a vida não faz sentido”, conta.

 

Surpresa de Deus

Foi quando reprovou num exame que Fernando começou a questionar -se sobre a vida que levava. “Comecei a pensar: ‘Mas por onde é que estou a ir?’ Ao mesmo tempo, não tinha forças para mudar. Estava na onda!”.

No início dos dois anos que viveu em Coimbra, o seu afastamento de Deus foi total mas, segundo testemunha, Deus não se afastou de Fernando. “Nesses dois anos, no início abandonei por completo a prática cristã, mas Deus faz-nos surpresas e apanha-nos nas curvas do caminho. Nessa altura, quando estava mais afastado, fui convidado por duas amigas a participar num Convívio Fraterno. É um fim-de-semana entre jovens, com o objectivo de ter um encontro consigo mesmo, com os outros e com Deus. Foram três dias que mudaram a minha vida! A ideia que tinha de um Deus longínquo e distante, caiu por completo porque me apercebi que Deus é alguém que me ama muito. E nada do que eu possa fazer me pode afastar do seu amor. Ao mesmo tempo é alguém que me ama tanto que para meu próprio bem me pede para mudar para melhor e para ser feliz. Por isso percebi que Deus me amava, mesmo nessa vida de borgas, mas pedia-me para mudar”, sublinha.

 

Deus connosco

Após este fim-de-semana de reencontro, o jovem Fernando Santos inicia uma mudança de vida. “Foi nessa altura que conheci a Comunidade Emanuel”, observa. “A Comunidade Emanuel tem uma casa próximo da Universidade de Coimbra que serve de centro académico. As mesmas amigas que me convidaram a ir ao Convívio Fraterno, convidaram-me, também, a ir ver este centro e eu fui”. Durante um ano lectivo, Fernando Santos frequentou, neste centro, encontros semanais de formação cristã que “serviram de âncora” para a fé que começa a redescobrir. “Ia ali, semanalmente, e lembrava-me que Deus existia. E pouco a pouco, esse serão semanal foi-se alastrando a toda a minha vida. Comecei a viver realmente esta experiência do Emanuel, Deus connosco, Deus comigo em todos os momentos da minha vida”.

 

Dom aos outros

Fernando Santos estava, então, no seu segundo ano académico em Coimbra (2001-2002). No final desse ano, é-lhe feita a proposta de participar numa Escola Internacional de Missão da Comunidade Emanuel, desafio que acaba por aceitar e que o leva até Fátima. “É um ano lectivo residencial, onde aprendemos a ser missionários, onde quer que estejamos. Isto era para leigos e eu acabei por aceitar. Durante esse ano ganhei uma relação muito mais profunda com Cristo, na oração e na Eucaristia quotidiana. Fui-me conhecendo, a mim próprio, e fui aprendendo a conhecer Deus, não só com a inteligência mas também com o coração”.

Na proximidade e intimidade com Deus, o jovem Fernando acabou por vir a descobrir outros desafios que o inquietaram. “Pouco a pouco começou a colocar-se a questão da vocação. No princípio, tinha medo! Tinha muitos obstáculos. Não queria abandonar os meus projectos de vida. Se fui para o curso de Bioquímica, foi porque queria ser um ‘rato de laboratório’ e ter o mínimo contacto possível com as pessoas. Mas, depois de ter descoberto Deus, comecei a querer fazer da minha vida um dom aos outros, e nesse sentido comecei a pensar fazer o curso de Medicina. Mas durante esse ano, fui apercebendo-me que Deus me chamava a fazer da minha vida um dom aos outros, embora de maneira diferente,” conta Fernando Santos ao Jornal VOZ DA VERDADE.

 

‘Senhor, eu quero fazer a Tua vontade’

“No final desse ano, estava sozinho a rezar na capela quando consegui dizer, não só com os meus lábios mas com o meu coração: ‘Senhor, eu quero fazer a Tua vontade, qualquer que ela seja!’. A partir desse momento, percebi que Deus me dizia no meu interior: ‘Eu quero-te padre!’. Senti uma paz e uma alegria como nunca antes tinha sentido”, testemunha.

Diante deste entusiasmo, Fernando confronta a sua questão vocacional com um sacerdote que o acompanhava e surge a proposta de iniciar o discernimento da sua vocação e realizar um ano propedêutico com a Comunidade Emanuel, na Bélgica. “Foi um ano de fundação da minha vocação. Passei de uma atracção para uma escolha consciente, tendo a noção das minhas fraquezas e das minhas limitações. Aprendi, nesse ano, a seguir Cristo, não por aquilo que eu consigo fazer mas porque Ele me chama”.

 

Conhecer melhor o mundo

Em 2004, Fernando Santos regressa da Bélgica e é-lhe feita a proposta de vir para a Diocese de Lisboa. “Os padres da Comunidade Emanuel estão sempre incardinados numa diocese”, explica. Começou, então, o tempo de seminário fazendo os primeiros anos de estudo na Bélgica, onde esteve durante três anos e regressa a Lisboa, para ingressar no Seminário dos Olivais. No entanto, antes de continuar sentiu a necessidade de fazer uma paragem para “conhecer melhor o mundo” que o rodeia. “Apercebi-me que a minha conversão tinha sido algo de muito rápido e que eu nunca tinha vivido no mundo como leigo cristão. Então, resolvi passar um ano a trabalhar”. Esteve no Centro Social Paroquial de Arroios, onde trabalhou durante um ano como motorista e como ajudante familiar, fazendo visitas ao domicílio. “Foi um ano em que cresci muito, percebendo as dificuldades das pessoas. Percebi que a vida de um leigo no mundo é mesmo uma vida de combate, onde Cristo tem de estar presente”.

 

Ser feliz

Em Setembro de 2007, ingressa no Seminário dos Olivais, continuando a sua formação na Universidade Católica Portuguesa. “Foram cinco anos para conhecer a diocese que não conhecia. Fui aprendendo a amar esta diocese, uma Igreja concreta, um bispo concreto, um presbitério concreto. Foi um percurso que custou, mas vejo agora que estes cinco anos permitiram-me amadurecer esta vida na diocese”.

Este Domingo, dia 1 de Julho, Fernando Santos vai ser ordenado diácono pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo. Passados alguns anos do tempo em que viveu em Coimbra, diz manter ainda “algumas amizades, alguns que não compreenderam no início” a sua vocação e outros que, “incrédulos e cépticos”, não pensavam que chegasse ao fim. “Mas o que mais ouvi foi: ‘O que importa é que sejas feliz’”, observa.

 

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Ser sinal de Deus para o mundo

Para Fernando Santos, a ordenação de diácono “significa uma entrega nas mãos de Deus”. Neste sentido, este futuro diácono vê “a promessa de celibato perpétuo como sinal e como meio para uma entrega a Deus com um coração indiviso”. “Para mim isso, é uma grande alegria: ser sinal para o mundo”, refere. Questionado sobre a pergunta que muitas vezes a sociedade coloca sobre se faz sentido o celibato dos padres nos dias de hoje, Fernando responde: “Sem dúvida alguma, faz todo o sentido continuar a haver pessoas celibatárias que se entregam a Deus no celibato, precisamente como sinal para o mundo, e de que só Deus basta para preencher o coração de uma pessoa. Por outro lado, faz sentido que os padres sejam celibatários para que, quando dizem no altar ‘Isto é o meu Corpo entregue por vós’ seja também o próprio corpo do padre que é oferecido no celibato para a salvação do mundo”.

 

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A Comunidade Emanuel

A Comunidade Emanuel é uma associação pública de fiéis, internacional. Surgiu nos anos 70, em França, e agrupa cristãos em diferentes estados de vida: solteiros, casados, padres, consagrados e consagradas no celibato. “Todos juntos, tentamos viver a graça do Emanuel, Deus connosco, ou seja viver no mundo sem ser do mundo”.

A espiritualidade desta comunidade tem a sua origem no movimento carismático mas, segundo explica Fernando Santos, que vai ser ordenado diácono para a Diocese de Lisboa, a Comunidade Emanuel “demarca-se particularmente pelo carisma da adoração. O fundador, Pierre Goursat é, sobretudo, um adorador no meio do mundo. Tinha o seu trabalho, era crítico de cinema, mas toda a sua espiritualidade se centrava na adoração eucarística. E isso está muito presente na Comunidade Emanuel”, salienta. “A fonte da nossa relação com Deus é a Eucaristia. Na celebração e na adoração. Nessa adoração surge a compaixão que é o olhar para o nosso mundo, as misérias materiais mas também as espirituais, de tanta gente afastada de Deus. E isso, quase como que naturalmente, nos leva à Evangelização, que é o terceiro grande pólo da Comunidade Emanuel”.

A Comunidade Emanuel conta com cerca de 11 mil membros em todo o mundo, espalhados pelos cinco continentes. Em Portugal, o movimento está presente desde 1991 e tem casas em Lisboa, Porto, Coimbra, Fátima e Évora. Conta com cerca de 100 membros, incluindo três padres incardinados na Diocese de Coimbra, um dos quais está em missão em Lisboa (padre Paulo Araújo, pároco de São Jorge de Arroios).

texto e fotos por Nuno Rosário Fernandes
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