Lisboa |
Leigos para o Desenvolvimento
Projectos que moldam vidas
<<
1/
>>
Imagem

Partem com o objectivo de mudar o destino de quem vão ajudar; mas acabam por regressar com um olhar diferente sobre o mundo. Há mais de 25 anos que os voluntários missionários dos Leigos para o Desenvolvimento abraçam projectos que moldam vidas.

 

Estava a acabar o curso de Direito, mas algo dentro dela impulsionava-a a partir. Margarida Vieira, então com cerca de 20 anos, não sabia o que era. Apenas sentia que tinha de partir em missão. “Parece que estamos sempre a adiar a nossa felicidade e a verdade é que eu não podia estar mais à espera para ser feliz! E o ser feliz era ter uma experiência de missão!”, conta Margarida, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Na sua cabeça, pairava ainda uma história de quando era pequena. “Quando eu tinha 10-12 anos, estava num colégio não católico e uma pessoa dos Leigos para o Desenvolvimento – que anos mais tarde vim a saber que era Maria João Archer – foi lá falar, juntamente com os três filhos, sobre uma experiência de missão em Moçambique”. Desde esse dia, em que conheceu a ONDG (Organização Não-Governamental de Cooperação para o Desenvolvimento) Leigos para o Desenvolvimento, que Margarida tinha dentro dela o ‘bichinho’ da missão.

Foi já em espírito académico, na Universidade Clássica, que esta jovem da paróquia de São Francisco Xavier é novamente confrontada com os projectos dos Leigos para o Desenvolvimento (LD), quando um amigo lhe diz que, ao acabar o curso, queria partir em missão. Estávamos então em 2008 e Margarida, surpreendida e interpelada pelo desejo do colega, responde desde logo: “Quando fores à sessão de apresentação, diz-me qualquer coisa que eu também quero ir!”. Margarida estava mesmo decidida e o 5º ano do curso de Direito foi ‘complementado’ com a formação dos LD. “Quando começamos a formação, temos uma ideia completamente romanceada do que é ir em missão. Por isso, ao longo do ano vamos constatando se o nosso sonho e o nosso projecto se cruzam, de alguma forma, com o sonho dos Leigos”. No final da formação, os candidatos a partir em missão fazem sete dias de exercícios espirituais. “Os LD pedem que nos ponhamos disponíveis para partir, ou não, em missão! Os que no final dos exercícios estiverem disponíveis, são encaminhados pela organização, de acordo com a necessidade de cada missão”, refere.

 

Simplicidade e pobreza

Margarida partiu. Partiu em Setembro de 2009, rumo a São Tomé e Príncipe. Por decisão dos Leigos, iria acompanhada de José Vaz Pinto, o tal amigo da universidade, e de Mónica e Milé. “Fomos para a ‘Missão da Madre Deus’ e o projecto em que fui colocada era a cozinha social Água Izé. Era um projecto assistencialista, que saia um pouco do âmbito dos Leigos. A missão era trabalhar com os velhinhos da roça de Água Izé! Encontrámos uma realidade muito complicada, segregada, em que eles eram tratados como feiticeiros”, começa por recordar. “No fundo, esta cozinha social funcionava como um centro de dia: dávamos duas refeições diárias, prestávamos cuidados de saúde e trabalhávamos com as famílias”, acrescenta.

Margarida e os três colegas de missão moravam na cidade mas tinham projectos distintos: Mónica e Milé davam aulas no colégio da diocese, enquanto José ensinava numa escola pública. Por isso, Margarida tinha de ir diariamente, sozinha, para a roça, uma espécie de fazenda que com o passar dos anos se tornou num bairro de lata. “É uma realidade complicada, um sítio onde há muita pobreza, sem casas-de-banho, onde a água é muito pouca e a energia funciona apenas algumas horas por dia”. O despojamento total dos bens materiais tinha de ser um princípio. “A proposta que nos é feita pelos Leigos é de partirmos em missão num espírito de simplicidade e pobreza. Há um chamamento a fazermo-nos próximos daqueles que vamos servir. Havia um sentimento de que, ao sairmos de casa, precisávamos apenas de roupa, chinelos, uma mochila, um chapéu e uma água”.

Um telemóvel para os quatro. Um carro para os quatro. Mas por vezes, era preciso poupar na gasolina. “Nesses dias, andávamos de ‘iace’, ou seja, aquelas Toyota Hiace, de porta de correr, que levam 9 pessoas. Em São Tomé, o meu recorde foram 19 pessoas, já contando comigo!”.

 

A diferença

Numa fase inicial do ‘seu’ projecto em São Tomé, Margarida Vieira contou com uma ajuda preciosa. “Quando se chega, o primeiro em embate é: ‘Oh meu Deus, o que é que eu vou fazer aqui?’. No entanto, os Leigos têm a preocupação de deixar alguém da comunidade anterior para fazer a passagem. Além de facilitar a integração, estes projectos que têm continuidade fazem com que nós sejamos mais um ‘tijolo’ naquele ‘muro’. Ou seja, eu não fui fazer um projecto, eu continuei um projecto que já vinha de há 22 anos atrás! Desta forma, tornamo-nos mais um elo nesta cadeia dos Leigos para o Desenvolvimento!”.

Além do projecto na cozinha social Água Izé, que era apoiado pela Cooperação Portuguesa, Margarida realizava trabalho pastoral. “Como somos missionários, desenvolvemos também trabalho de pastoral para ajudar a diocese. No meu caso, dava catequese, numa outra roça no norte do país!”.

O regresso a Portugal aconteceu em Outubro de 2010. “O que é mais marcante é a vida em comunidade! Nós os quatro, enquanto família que ali se cria, o nosso trabalho, o cansaço de todos os dias, o que vamos partilhando é muito marcante. Por outro lado, toca-nos a realidade do país, a forma de viver, a oportunidade de vivermos de uma forma completamente diferente do que se vive cá em Portugal”. Foi uma ‘nova’ Margarida aquela que aterrou em Lisboa: “Eu sou uma pessoa muito impaciente, muito exigente, mas a experiência de missão em São Tomé moldou-me e fez a diferença na minha vida!”.

 

Promover o desenvolvimento

Nos Leigos para o Desenvolvimento, quem esteve em missão passa a ser apelidado de ‘ancião’. É o caso da actual directora executiva desta organização católica, Carmo Fernandes, que esteve em missão durante três anos. “Conheci os Leigos em 1994, porque queria fazer uma experiência de voluntariado missionário! Um ano depois parti para São Tomé e Príncipe e quando regressei, em 1998, passei a ser ‘anciã’, ou seja, a ter a missão de partilhar com os outros a experiência vivida”, conta esta responsável ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Formada em Farmacêutica, Carmo assumiu em 2010 a direcção executiva dos Leigos para o Desenvolvimento. Uma ONGD que tem como missão “a promoção do desenvolvimento em comunidades fragilizadas dos países de expressão portuguesa” e que é cumprida “através de voluntários qualificados missionários, em missões de longa duração”.

Actualmente, os LD têm projectos em Moçambique (Cuamba), Angola (Benguela e Uíge), São Tomé e Príncipe (Porto Alegre e cidade de São Tomé) e Timor Leste (Díli). São seis projectos a cargo de 19 voluntários. No terreno, os parceiros dos Leigos são as dioceses, que apresentam projectos a esta ONGD. “Quando nos fazem o pedido, as dioceses fazem-no com duas perspectivas: a dimensão social, ajudando a Igreja local a desenvolver trabalhos de natureza social, e a evangelização, com trabalho pastoral ao nível da catequese, formação de catequistas, presença nas comissões pastorais ou nos grupos de jovens”. Antes da partida para terras de missão, a preparação realizada ao longo de um ano procura focar estas duas etapas, garante Carmo Fernandes: “Os nossos voluntários sabem que não são apenas voluntários e são também missionários! Temos a espiritualidade inaciana, porque quem apoia o nosso projecto é a Companhia de Jesus [Jesuítas]”. Para quem vai partir, a relação com os Leigos resulta muitas vezes “num aproximar à Igreja, num redescobrir Deus de outra maneira”.

Em tempos de crise, os apoios escasseiam. Mas para a directora executiva dos Leigos para o Desenvolvimento não é possível desistir, porque há ainda muitas necessidades básicas a atender. “Mobilizar apoios para projectos que se concretizam a muitos quilómetros de distância é muito mais difícil. Até pela situação que vivemos actualmente. Mas é importante que as pessoas em Portugal não se fechem aos problemas ‘de fora’ e por isso continuamos a mostrar que ‘lá fora’ há problemas que continuam a ser muito piores do que os nossos, porque são problemas básicos”. Além dos financiamentos, públicos e privados, os Leigos para o Desenvolvimento recebem também donativos de particulares, que conhecem esta ONGD ou que tiveram familiares que partiram em missão.

 

Ao serviço, em comunidade

ZeZé está ainda em missão! Encontra-se actualmente na ‘Missão Porto Alegre’, em São Tomé e Príncipe, e conversa com o Jornal VOZ DA VERDADE via Skype, um programa informático que permite efectuar ligações de voz (e vídeo) pela internet de forma gratuita. “Queria sobretudo colocar-me ao serviço daqueles que precisam que venham pessoas de fora ajudá-las”, refere José Maria Souto Moura, de 24 anos, a partir do seu computador. Desde pequeno que ouvia falar nos LD. A ‘culpa’ é da família. “Uns tios meus foram voluntários missionários e levaram os meus primos um ano para Moçambique! As histórias deles são algo que sempre me marcaram”. O desejo de estar à disposição dos Leigos para o Desenvolvimento e ir para África foi crescendo neste jovem da paróquia de São Sebastião da Pedreira: “Quando acabei o curso de Arquitectura, e depois também o curso de Ilustração, comecei a pensar que esta era a oportunidade para vir em missão!”. Após a formação de um ano, ZeZé partiu com mais três jovens, em Setembro de 2011, rumo a uma missão totalmente nova nos LD: a ‘Missão Porto Alegre’. “Esta é uma missão com várias vertentes: os projectos na escola – com trabalho de capacitação de professores, implementação de um centro de recursos educativos (com biblioteca e computadores) ou actividades de enriquecimento curricular com jovens – e o trabalho pastoral, no meu caso com jovens, onde procuro transmitir valores e discutir temas, mostrando a nossa fé em Jesus Cristo”. Como é que um jovem católico europeu vive a fé em África? Nesta transmissão de voz via internet, José Maria foca a importância da comunidade. “O nosso grande suporte é a ‘Comunidade LD’. Temos oração comunitária todos os dias e Missa comunitária todas as semanas. A comunidade é um suporte para eu viver a minha fé!”, assegura ZeZé, em plena missão em São Tomé e Príncipe.

 

_______________


Valorizar a história, olhando o futuro

Fundados a 11 de Abril de 1986, os Leigos para o Desenvolvimento assinalaram, ao longo do último ano, os seus 25 anos. Uma data que abre a perspectiva de mais missão, segundo a directora executiva desta organização católica: “Os 25 anos dos Leigos para o Desenvolvimento foram para nós uma oportunidade para celebrar e agradecer, de uma forma aberta e participada”. Um seminário de reflexão sobre questões de lusofonia, um estudo sobre o impacto da experiência de voluntariado no voluntário e a publicação do livro ‘Estamos juntos: 25 anos, 25 contos’ foram algumas das iniciativas que marcam o aniversário. “Foram momentos fortes, de refortalecimento e valorização da nossa história, perspectivando o futuro”, aponta Carmo Fernandes.

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por Leigos para o Desenvolvimento
A OPINIÃO DE
Pe. Alexandre Palma
Não aprecio o género. Não só por isso, mas também por isso, nem sequer sou conhecedor da matéria. Mas,...
ver [+]

Pedro Vaz Patto
A comunicação social vem acompanhando com todo o interesse, quase como se de uma novela se tratasse,...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES