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Arcebispo anglicano Desmond Tutu visitou Lisboa
Onde encontramos o Reino de Deus?
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“O Reino de Deus não é uma questão de comida ou bebida, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rom 14,17)

 

Não é uma questão de comida ou bebida; mas não as exclui: aliás, comer e beber constitui o suporte da vida das pessoas. Quando inacessíveis surge a degradação ou a morte. E se hoje temos uma minoria detentora da maioria dos bens da terra, isso significa que o destino universal desses bens está impedido de se realizar. Este é um dos pontos fulcrais da doutrina social da Igreja: todos têm direito à propriedade; mas essa está onerada por uma função social: “a terra que Deus deu a todo o género humano deve sustentar todos os seus membros sem excluir nem privilegiar ninguém”, diz a Encíclica Centesimus Annus. Na origem do escandaloso e indefensável desequilíbrio no acesso aos bens essenciais não está o plano de Deus, mas pelo contrário as injustiças que provocam a instabilidade e os conflitos e que tiram a alegria de viver aos indivíduos e à sociedade em geral.


Quando o torto parece direito
Interrogando-nos sobre as tremendas desigualdades, tanto a nível local como global, chegamos à conclusão de que o Evangelho e as exigências que dele advêm ainda não ocuparam o lugar de primazia na vida e nas opções dos que levam consigo o nome de Jesus. O nosso país é um caso típico: com uma grande maioria cristã e católica sempre tem mantido elevados níveis de desigualdade e de injustiça. E o pior é que isso é assumido como normal.
As dificuldades do momento só têm vindo a acentuar o mal que já estava presente, mas que agora se revela com toda a crueza: uma sociedade marcada pelos privilégios de alguns e pela fragilidade de muitos. E o pior é que não é fácil identificar as razões desse desequilíbrio; essas facilmente são escamoteadas ou justificadas pelo poder do dinheiro, da influência, do poder corporativo que tem armas para se defender e meios para atacar. Em fins de Junho passou por Lisboa o arcebispo anglicano Desmond Tutu, Prémio Nobel da Paz em 1984 e uma figura marcante na luta contra o injustificável apartheid, que nos recordou uma verdade que dá nome ao seu livro “Feitos para a bondade”: foi para a bondade que nascemos e só caminhando nessa linha poderemos realizar os nossos anseios, ameaçados constantemente por diversos perigos. Os privilégios são um deles. A propósito escreve: “Cada privilégio adoptado sem objecção fazia com que o privilégio seguinte parecesse ainda mais um direito adquirido. A cada nova medida consentida, o instinto para o bem era mais corroído. A cada nova medida consentida, o hábito de escolher o mal era aprendido e interiorizado”.


É preciso educar para a bondade
Com salários cada vez mais reduzidos, com bens de primeira necessidade mais caros, com cuidados de saúde mais inacessíveis, com um sistema de ensino mais enfraquecido estamos numa rota de empobrecimento crescente. Por outro lado as remunerações escandalosas de uns poucos e a justificação da fuga aos sacrifícios coletivos por parte de uns tantos, acompanhado por um debate político em que a conquista do poder sobressai e ofusca a prossecução do bem comum, deixam-nos perante um desafio à lucidez, ao bom senso, mas também à manifestação de repúdio pela falta de respeito pelo cidadão, transformado em peão de jogo e não em sujeito de atenção para que ele possa também responsavelmente participar na construção do bem comum. Esta situação reflete a ausência do valor fundamental para a humanidade e que está na base de toda a religião: a educação para a bondade. Escreve Desmond Tutu: “Somos feitos para a bondade. O mal e o crime são aberrações. A norma é a bondade”. E o exemplo da sua vida envolvida nas lutas contra o mal, seja ele institucionalizado, seja aquele que se aninha no coração humano, dão-lhe uma autoridade que leva a acreditar na humanidade ainda que sentimentos impulsivos de tantos o pareçam negar. Só com esta lucidez e esta força é que se compreende a sua posição na Comissão Verdade e Reconciliação, que conduziu a evitar o que frequentemente acontece: transformar um risco de banho de sangue e de destruição num momento de reconhecimento da verdade, de humildade e de compaixão, muito de acordo com a sabedoria Ubuntu, da qual ele, Nelson Mandela e Luther King são luminares. Para nós europeus, desorientados e desentendidos, só nos poderia ajudar esse olhar de sabedoria, que se identifica com o coração do Evangelho.


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Conferências de São Vicente de Paulo: “Ajudar Portugal para que não haja nenhuma convulsão social”

O presidente da assembleia-geral das Conferências de São Vicente de Paulo garantiu esta semana que a que a acção da instituição tem procurado conter eventuais revoltas populares causadas pela pobreza. “Queremos ajudar Portugal para que não haja nenhuma convulsão social. Mas temos algum receio. Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar que isso aconteça”, referiu Manuel Guedes.   As pessoas “com uma vida digna e organizada” que “perderam os empregos e não têm outra possibilidade de receber dinheiro estão fechadas em casa. Estes são os novos pobres, que ainda não desceram à rua”, sublinhou o responsável, que não sabe até quando será possível “aguentar” o “sufoco financeiro” dessas famílias. As equipas das Conferências de São Vicente de Paulo implementadas nas paróquias estão “sobrecarregados com solicitações” mas encontram-se “claramente descapitalizados”, pelo que “têm menos possibilidade de ajudar”, apontou o responsável, à Agência Ecclesia, à margem da inauguração de um lar residencial em São João de Ver, Distrito de Aveiro e Diocese do Porto.. Sobre a realidade local, Manuel Guedes referiu que o financiamento dos Vicentinos conta com os donativos recolhidos pelo Fundo Social Solidário, criado em 2010 pela Conferência Episcopal Portuguesa, e pela estrutura similar existente na Diocese do Porto desde 2008. Os cerca de 900 grupos Vicentinos espalhados em Portugal, onde colaboram cerca de 15 mil voluntários, actuam em função da sua proximidade às populações, com a “preocupação de não enxovalhar as pessoas, porque aos pobres basta-lhes a pobreza”, observou o presidente da assembleia-geral das Conferências de São Vicente de Paulo. A Sociedade de São Vicente de Paulo, de que derivam as Conferências Vicentinas, é inspirada no santo francês com o mesmo nome, que viveu entre 1581 e 1660, tendo sido fundada em Paris por um grupo de estudantes liderado pelo Beato Fréderic Ozanam. A sua presença em Portugal remonta a 1859, quando foi estabelecida a primeira Conferência, em Lisboa.

texto pelo P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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