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A. Pereira Caldas
Uma história sem fim
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O presidente da Cáritas Portuguesa disse, há dias, que é cada vez maior o número de pessoas e famílias que pede auxílio àquela instituição. Não se trata propriamente de uma novidade, antes é a confirmação de um facto que, de há tempos para cá, vem ganhando foros de triste certeza: a maioria dos portugueses caminha, indefesa, para uma situação dramática, algures entre a pobreza envergonhada e a indigência, numa luta quotidiana pela capacidade de sobreviver.

É – nem vale a pena dizê-lo – o resultado de uma política de “salve-se quem puder” em nome da “salvação” do défice, uma política que faz de cada pessoa um mealheiro que se vai esvaziando inexoravelmente, o seu conteúdo sugado por um bem aproveitado conceito de “interesse nacional”, alfobre de muitos outros interesses mais ou menos inconfessáveis e poderosos.

«É a crise europeia, claro! A culpa é da crise e, por causa da crise, também da “troika”!...» – garantem, lá do alto, os eleitos pelo povo dirigindo-se ao mesmo povo agora estarrecido.

Será. Será da crise, será da “troika”, mas só em parte. A verdade é que a “troika” não caiu aqui de pára-quedas, por obra e graça de uma qualquer força oculta. Não. Veio porque lhe pediram, já como último recurso, para arrancar o país do fundo de um enorme buraco financeiro cavado, à sombra da crise, pela incompetência e pela ambição política de sucessivos “desgovernos” institucionalizados.

E com a “troika” chegou – já se sabia – a austeridade. Para ficar e engordar. Cega e surda, subordinada a um “doa a quem doer”, estranhamente assestado a quem já sofria de mais dores… Os do costume, como não podia deixar de ser.

Passou mais de um ano. Muitos sacrifícios fizeram os portugueses, muitos sonhos e expectativas se reduziram a pó. Sobre centenas de milhar de pessoas se abateu o desemprego. E afinal, apesar disso, apesar da dureza das medidas impostas, o país vai de mal a pior. Nem o limite exigido para o défice, que tudo justificava, foi atingido. Muito longe disso.

E às críticas e queixas, a resposta do Governo é sempre igual: um rotundo e seco “não há alternativa”…

De súbito, porém, veio uma contra-resposta. Na sequência de uma inesperada comunicação do Primeiro-ministro, a anunciar um novo pacote de duríssimas medidas, uma gigantesca manifestação quase espontânea inundou o país com o povo a dizer sem tibiezas que mais austeridade, não. E, quase ao mesmo tempo, uma escaramuça entre os partidos da coligação deixou no ar a hipótese da queda do Governo.

Era, por assim dizer, a crise a entrar em crise…

Acabou, no entanto, por imperar uma dose generalizada de bom senso e, pelo menos momentaneamente, entre reuniões, declarações e recuos, a crise da crise parece ultrapassada. Ainda que com uma única e espantosa certeza em pano de fundo: a austeridade vai crescer em 2013…

E voltamos ao princípio desta crónica: como disse o presidente da Cáritas Portuguesa, é cada vez maior o número de pessoas e famílias que pede auxilio àquela instituição. Tem de ser…

Por onde andará, afinal, a sensibilidade social e o sentido do valor da dignidade humana que deve ser apanágio de qualquer governo consciente da enorme responsabilidade que carrega?