Domingo |
À procura da Palavra
O buraco da agulha

DOMINGO XXVIII COMUM Ano B

"É mais fácil passar um camelo…”

Mc 10, 25

 

É certamente uma anedota a história do rico industrial alemão (curioso, mas deve ser coincidência!) que mandou fazer, numa das suas fábricas, uma agulha com um buraco suficientemente grande, para passar por ele o dito camelo das palavras de Jesus no evangelho! Mas é concerteza desse tamanho o buraco que se cria nas consciências de nós, cristãos, quando, em lugares onde possamos ganhar exageradamente (ou até indignamente, se olhássemos bem em volta!), juntamos a fé e o dinheiro numa aliança admirável! A honestidade do homem rico do evangelho, que percebeu não poder seguir Jesus e continuar a adorar os seus bens, ao menos, é autêntica.

 

Na perspectiva da Bíblia as riquezas são uma bênção de Deus. Atrevo-me a dizer que o desejo de Deus é que todos sejamos ricos. Mas ricos de quê? Simplesmente de coisas que se acumulam e guardam, que precisam de cofres e guardas, e encerram em gaiolas douradas os seus donos? Grande é a embriaguez do possuir, que parece transformar em semi-deuses quem é tão de carne como o mais desventurado dos homens! Como se transforma o dono em escravo de bens e caprichos, prazeres e luxos, seus e dos que parasitam à sua volta? Como se adaptam os valores mais nobres da justiça e do bem comum, e até crenças ou ritos religiosos, a vidas de compromissos dúbios, de esquemas e corrupções para se ganhar mais? As riquezas são dom de Deus, mas os ricos, voltados para si e para a desmesura dos seus apetites, são objecto da indignação dos profetas. Como entrar no reino de Deus se nenhuma “tralha” podemos levar connosco?

A relação justa com os bens é um exercício de sabedoria. A Bíblia aponta a imagem do administrador, do colaborador de Deus na criação, como aquela que melhor serve ao homem. Sábio é quem põe os dons a render, mas encontra maior alegria em colocá-los de novo nas mãos de Deus do que em possuí-los. Em tempo de escassez de bens como o nosso (e, infelizmente, de um abissal distanciamento de ricos e pobres, de direitos e regalias inqualificáveis), a sabedoria é cada vez mais urgente. Sabedoria para escolher o essencial, para promover a inteligência no uso das coisas, para evitar o desperdício, para valorizar o trabalho, para não ceder à tentação do “salve-se quem puder”.    

Entrámos no Ano da Fé e este domingo podemos perguntar: como colocamos Jesus no meio da nossa crise. Quem adoramos? Em que investimos as nossas forças e os nossos bens? Como refreamos a nossa ânsia de consumir e revemos a partilha e a entreajuda? Poderemos fazer gestos insignificantes para a economia mundial. Mas serão certamente um sinal. Porque seguir Jesus agarrado aos bens e continuando a “passar camelos” pelo buraco largo da consciência, pode dar um ar de “bons cristãos”, mas é, certamente, uma grande ilusão!

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