Lisboa |
Servas de Maria Ministras dos Enfermos
A luz brilhante no meio da escuridão da noite
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Dizem que não há mais nenhuma congregação na Igreja que tenha uma missão como a delas. Acompanham os doentes durante a madrugada, em suas casas, gratuitamente, e fazem da noite dia e do dia noite. Falamos das Servas de Maria Ministras dos Enfermos que assinalaram, neste mês de Outubro, o 125º aniversário da morte da fundadora, Santa Maria Soledad.

 

São agora 21 horas. Enquanto a maioria dos portugueses termina o seu jantar e se prepara para o descanso, cinco religiosas das Servas de Maria Ministras dos Enfermos colocam-se a caminho para a sua missão: acompanhar os doentes, em suas casas, ao longo de toda a noite. Na Casa Provincial, situada na Rua do Forno do Tijolo, entre os Anjos e a Graça, em Lisboa, as irmãs desta congregação aprontam-se para irem ao encontro dos que estão sozinhos, isolados, doentes. “A nossa missão continua a ser a assistência ao domicílio. Essa é uma verdade que não passa desde 1851! É uma necessidade muito grande, e temos sempre mais solicitações do que irmãs”, garante ao Jornal VOZ DA VERDADE a superiora desta comunidade, irmã Laura García Vélez. Segundo esta religiosa, natural do México e que está em Portugal há três anos, “há cada vez mais solidão e velhice na cidade de Lisboa”. “Há noites que são muito duras para serem passadas sozinhas quando as pessoas estão doentes ou têm muita idade. Por isso, continuamos a fazer esta assistência, porque as Servas de Maria, em qualquer lugar, junto dos enfermos, são portadoras do amor efectivo e sublime com que Deus ama os homens”, acrescenta a irmã Laura, apontando que durante a noite as religiosas oferecem a Deus o sofrimento dos doentes.

 

Basta chamar

Em plena cidade de Lisboa, estas religiosas acompanham actualmente 12 famílias. “Vamos a todo o lado! Sobretudo em Lisboa, mas acompanhamos também doentes em Algés, Miraflores, Odivelas. Onde haja transporte, nós vamos lá!”, garante a superiora da comunidade de Lisboa, sublinhando que as Servas de Maria não fazem diferença “da condição social, raça ou credo”. “Qualquer pessoa que tenha necessidade e que nós possamos atender, atendemos”, frisa a irmã Laura.

O ‘dia’ das religiosas começa às 21 horas, quando as irmãs se põem a caminho das casas dos doentes. De hábito vestido, as deslocações diárias a partir da Casa Provincial são feitas de transportes públicos. Seja a que horas do dia for. Os comentários, durante as viagens, são variados. “Há dias, houve um senhor que me questionou com um ar estupefacto: ‘Oh irmã, onde é que vai a esta hora da noite?!?’.”, conta a irmã Claudia Rincón, também mexicana, a exemplo da superiora da comunidade, e que é a mais nova entre as oito religiosas da casa. Professou em 2001, está em Portugal há dois anos, após ter estado em Espanha durante 19 anos.

A irmã Manuela Afonso Lince é da Galiza. “Dizem-me que sou portuguesa, mas não sou, porque nasci da parte de lá”, brinca esta religiosa, que fez a primeira profissão em 1954 e apenas esteve seis anos em terras espanholas. “De resto, estive sempre em Portugal! Onze anos na casa que tivemos em Coimbra e depois sempre em Lisboa”, refere, de sorriso no rosto. A irmã Carmen é de Zamora e tem mais de cinquenta anos de profissão religiosa. Já esteve em Portugal, depois foi para Espanha e agora está novamente em Lisboa há três anos. A irmã Cândida é de Segóvia, Espanha, professou também há mais de meio século e está na capital portuguesa há menos de um ano. Da região espanhola Mancha chegou a irmã Ascensão, que está em Lisboa há muitas décadas e que no ano passado assinalou 60 anos de profissão religiosa. O clã espanhol das Servas de Maria em Lisboa é completado pela irmã Aura, também da Galiza e que professou igualmente há mais de cinquenta anos.

Entre as oito religiosas da Casa Provincial das Servas de Maria, em Lisboa, duas são mexicanas e cinco espanholas. Resta a irmã Ana Adelaide, que é a única portuguesa da comunidade. “Sou de Oliveira de Azeméis. Entrei na congregação em 1955 e fiz a primeira profissão em 1957. Estive cinco anos em Espanha, depois 23 em Lisboa, a seguir enviaram-me para Granada onde fiquei mais 20 anos e agora em Abril faço nove anos que estou novamente aqui na casa de Lisboa”.

 

Vida activa e contemplativa

O dia-a-dia na Casa Provincial de Lisboa das Servas de Maria Ministras dos Enfermos tem diferentes ritmos. “Somos irmãs de vida activa, porque saímos à rua para fazer a nossa missão, mas levamos também uma vida contemplativa, com muita oração em comum”, explica a superiora.

Para as três irmãs que ficam em casa, o despertar acontece às 6 horas da manhã e meia hora mais tarde há oração comunitária. Entretanto, as outras cinco religiosas, que saíram às 21 horas do dia anterior para irem para a casa dos doentes, regressam à casa provincial apenas às 7 horas da manhã e integram-se no horário da comunidade. “Às 7h30, já com todas as irmãs em casa, rezamos Laudes e às 8 horas da manhã, todos os dias, temos Eucaristia, celebrada pelos padres Claretianos”, explica a irmã Laura. O pequeno almoço é tomado depois da Missa e após a celebração as irmãs que estiveram com os doentes durante a noite fazem trinta minutos de oração em comum. “As que ficam em casa, fazem esse tempo de oração durante a tarde, mas as outras irmãs nesse período têm de descansar porque há doentes que precisam de ajuda, de cuidados e vigilância durante toda a noite!”, salienta. Diariamente, estas religiosas fazem também leitura espiritual. Às 11h40, vão à capela rezar e o almoço é servido ao meio-dia. Depois da refeição, as irmãs que estão em casa têm um tempo de recreio e as restantes vão descansar. Às 15h30, rezam o Terço, às 19h Vésperas e o jantar é tomado meia hora mais tarde. Às 21 horas é chegado o momento de as religiosas partirem rumo aos ‘seus’ doentes, enquanto as irmãs que ficam em casa rezam Completas, até às 22 horas, altura em que recolhem aos quartos. A irmã Claudia, a mais nova do grupo, enaltece a dedicação das religiosas. “É de valorar o esforço das irmãs! É um sacrifício que fazem, mas fazem-no sempre com muito gosto!”.

 

Abandonar-se a Deus

No passado dia 11 de Outubro, a Congregação das Servas de Maria Ministras dos Enfermos celebrou os 125 anos da morte da sua fundadora. Manuela Torres Acosta, ou Santa Maria Soledad, nasceu em Madrid, Espanha, no dia 2 de Dezembro de 1826. “Era uma mulher que vinha de uma família simples, trabalhadora. Desde menina que era muito sensível às necessidades dos outros e também à espiritualidade. Tinha muita devoção a Nossa Senhora, que lhe foi transmitida por sua mãe. Durante a juventude, sentiu inclinação pela vocação religiosa e conheceu o convento de clausura das Irmãs Dominicanas, em Madrid. Devido às muitas vocações que havia na época, não conseguiu entrar. Nas Irmãs da Caridade disseram-lhe também que tinha de esperar um tempo porque não estavam a admitir ninguém. Santa Maria Soledad abandonou-se então a Deus, perguntando-Lhe se, de facto, Ele a queria como consagrada”, salienta a irmã Laura. Durante o tempo de espera, a jovem Manuela Torres Acosta ouve dizer que um sacerdote diocesano de Madrid – o padre Miguel Martinez, do bairro de Chamberì – ia criar uma fundação para cuidar de doentes. “O objectivo era acompanhar os enfermos em suas casas. Foi assim que nasceu a ideia de criar uma congregação que se dedicasse a cuidar dos doentes nos seus lares”, acrescenta esta religiosa. Manuela vai então falar com o sacerdote espanhol para ser admitida, mas a sua aparência frágil levou a que o padre Miguel Martinez adiasse a resposta. “Este sacerdote queria ter sete religiosas e fundar a congregação no dia 15 de Agosto [Festa da Assunção de Nossa Senhora] e portanto acabou por aceitar Manuela Torres Acosta. Fizeram uma procissão pelo bairro e quando chegaram à casa onde iniciaram a congregação fizeram os votos. Foi tudo muito simples, as irmãs não tiveram sequer formação”, sublinha a actual superiora da Casa Provincial de Lisboa.

 

Fortaleza interior

As pessoas de Madrid começaram então a chamar as religiosas Servas de Maria para cuidarem dos seus doentes. “As dificuldades eram muitas, porque este era um serviço gratuito. Ao mesmo tempo, as religiosas não eram ainda muito conhecidas e portanto não tinham donativos”. Perante a dureza da realidade, duas religiosas acabam por abandonar e outras duas adoecem. Após cinco anos, o padre Miguel Martinez, pensando que a congregação não teria futuro, abandona Madrid e a obra e vai para as missões, levando consigo três religiosas. Madre Soledad, que era a única das sete iniciadoras da congregação que ainda permanecia, ficou então como superiora geral. “É por isso que consideramos Manuela Torres Acosta como nossa fundadora! Porque, de facto, o padre Miguel abandonou a obra. Aos 30 anos, Madre Soledad não tinha muita saúde, mas tinha uma grande fortaleza interior!”, assegura a irmã Laura García Vélez.

Na época, Madre Soledad teve a ajuda do padre Gabino Sanchez Cortés, que pertencia à congregação dos Agostinhos Recoletos, e começa a pedir ajuda. Fala com a rainha Isabel II e a obra começa a desenvolver-se. Os donativos e os benfeitores começam a aumentar e a congregação internacionaliza-se, indo para Cuba, que foi o primeiro país fora de Espanha a receber as Servas de Maria, devido ao apoio do Bispo de Havana. “Ao mesmo tempo, várias pessoas de diversas cidades espanholas começam a pedir a abertura de casas das irmãs de modo a acompanharem os doentes, uma vez que não havia religiosas de nenhuma congregação que se deslocassem  aos seus domicílios!”, conta a irmã Laura, sublinhando que a madre fundadora “esteve presente nos momentos mais difíceis e penosos da história espanhola, como na epidemia de cólera de 1885”. Aquando da morte de Santa Maria Soledad, no dia 11 de Outubro de 1887, havia 41 casas das Servas de Maria em Espanha, além de 300 irmãs.

 

‘Estive doente e vieste visitar-me’

A chegada a Portugal acontece em 1936. O ano passado, a congregação das Servas de Maria Ministras dos Enfermos assinalou os 75 anos de presença ao nosso país. Na época, as religiosas abriram uma casa em Lisboa e outra no Porto. Anos mais tarde, em 1953, abriram uma terceira casa, em Coimbra, que entretanto fechou.

Hoje, as Servas de Maria, fiéis ao carisma da sua fundadora, continuam a viver no mundo a recomendação de Jesus no Evangelho: ‘Estive doente e vieste visitar-me’.

 

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Congregação presente em quatro continentes

As Servas de Maria estão presentes no mundo com 115 casas, repartidas em 22 países, de quatro continentes. Na Europa, a congregação possui 40 casas em Espanha, 5 em França, 4 em Itália, 2 em Portugal e 1 em Inglaterra. O continente americano é aquele onde a congregação está presente em mais países (15, no total): 9 casas no México, 7 na Bolívia, 6 nos Estados Unidos e Porto Rico, 5 na Argentina, 4 em Cuba, na Colômbia e na República Dominicana, 3 no Equador, 2 no Brasil, Peru e Uruguai e 1 no Haiti, Costa Rica e Panamá. Em África, as Servas de Maria Ministras do Enfermos têm 3 casas nos Camarões, e na Ásia contam também com 3 casas nas Filipinas.

A congregação tem actualmente 1600 irmãs, sobretudo espanholas e sul americanas. Uma religiosa portuguesa partiu, em 2001, rumo às Filipinas para abrir uma casa das Servas de Maria neste país asiático.

 

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Primeira religiosa da congregação beatificada o ano passado

A irmã María Catalina Irigoyen Echegaray (Pamplona, 1848 - Madrid, 1918) foi beatificada em 2011, tornando-se na primeira religiosa das Servas de Maria Ministras dos Enfermos a ser beata.

A 14 de fevereiro de 1962, durante o pontificado de João XXIII, teve início o processo sobre a santidade da sua vida. A 30 de Março de 1981, João Paulo II promulgou o decreto de heroicidade das suas virtudes, e a 2 de Abril de 2011, o Papa Bento XVI aprovou o decreto de reconhecimento de milagre, que permitiu a beatificação da religiosa espanhola.

A celebração de beatificação da primeira religiosa das Servas de Maria realizou-se na Catedral de Madrid, no dia 29 de Outubro do ano passado, e foi presidida pelo prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato. “A beata Catalina vivia no amor a missão da congregação, que exige sacrifício constante, devoção à Eucaristia e amor incondicional a Nossa Senhora”, destacou o cardeal italiano, na sua homilia.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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