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António Bagão Félix
Esperança
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É difícil expressar, em completude, a ideia da esperança. Mesmo assim, arriscaria citar a definição de Jean Guitton: “a esperança é a predisposição do espírito que leva a acreditar na realização do que se deseja”. Na essência, um valor humano. E, muitas vezes, uma virtude no sentido aristotélico. Que não se confunde com uma previsão ou uma premonição.

Esperar é um verbo que, nos dias que correm, é muitas vezes desesperante. O tempo transformou-se numa métrica do instante.

A esperança é uma expressão de sabedoria. Que bem sei, não se ensina suficientemente nas escolas, e se dilui na correnteza de vidas sem tempo de família.

A esperança é optimista, mas não se confunde com o optimismo. Não é apenas esperar pelo melhor e ver as coisas pelo lado bom enquanto predisposição natural, antes exige, em cada momento, o esforço e o labor de acreditar. Às vezes chega-se mais depressa à esperança pela rota do pessimismo do que pela senda do optimismo. Ou seja pela exigência. Ou superando, com heroicidade interior, o desespero.

Por vezes, a esperança é a razão do coração. Outras vezes é o coração da razão.

O milagre da esperança não é a esperança no milagre. Porque a esperança tem que se agarrar a um qualquer nexo de causalidade. Dentro de nós para nós e para o que nos é exterior. A esperança é generosa, mas não acomodada. Não se dá com a demissão, a indiferença, o destino. Alimenta-se da busca, da inquietude, do inconformismo. Do combate. Do ânimo. Afinal, lutamos porque temos … esperança!

No plano da fé, a esperança é uma das três virtudes teologais do catolicismo. Aquela que espera, sem desesperar. Pela bondade divina e pela vida para além da falta dela. A Esperança na salvação e na vida eterna pela quais os fiéis pedem a Deus que Venha a nós o Vosso Reino assim na Terra como no Céu. A Esperança na justiça com alma entre os homens, na paz com autenticidade entre os povos, na harmonia com alegria entre as gerações, na dignidade inalienável da pessoa humana. Esperança que o Senhor expressou no Sermão da Montanha ao terminar as bem-aventuranças: Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus (Mt 5,12). Que Bento XVI, na sua segunda Encíclica (Spe Salvi) precisamente sobre esta virtude teológica, define de um modo serenamente inquieto, como “iluminadora e encorajadora mas a mais misteriosa”. Ou noutra parte do seu texto, “o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança”. Por isso esta Esperança é teologal, centrada em Deus.

O antónimo de esperança é o desespero. “O desespero consiste em imaginar que a vida não tem sentido”, escreveu magistralmente Chesterton. No princípio é a vida, a esperança. Se esta aliança falha, a morte pode acontecer em vida. “Onde houver desespero, que eu leve a esperança” pode-se ler na chamada oração de São Francisco ou da Paz.

Esperança que – e regresso a Jean Guitton – se pode definir sincronicamente ao longo de uma vida: “O recém-nascido é esperança. A criança começa a vida por um sorriso para a sua mãe. Um sorriso de esperança. Depois é a esperança da juventude, o impulso para o futuro. Mas quando este impulso cessa e a esperança falha, então o presente recai na melancolia. A esperança é a maior e a mais difícil vitória que uma pessoa pode ter sobre a sua alma”. Seja a alma de uma criança, de um pai ou mãe.

A esperança precisa do outro. Às vezes porque reside no outro a fonte da esperança. Outras vezes porque é o outro que nos dá o ânimo para a esperança que só está dentro de nós. Por isso, a esperança tanto pode ser a de uma pessoa, como de uma família, de uma instituição ou de um país.

A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade” resumiu magistralmente Joseph Joubert.