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P. Duarte da Cunha
A Vocação de S. Mateus de Caravaggio: afinal quem é o Mateus?
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A Vocação de São Mateus pintada por Caravaggio no final do século XVI é dos quadros mais impressionantes para descrever o drama da pessoa que se apercebe de uma vocação especial.

Trata-se de um quadro exposto na Igreja de São Luís dos franceses em Roma na última capela do lado esquerdo. Nessa mesma capela estão outros dois quadros do pintor e também sobre São Mateus. Um retrata a inspiração de São Mateus como Evangelista e o terceiro retrata o martírio do Apóstolo. Três dimensões da vocação: o chamamento, a missão e a oferta total. Todas estas dimensões da vocação estão ligadas, porque ninguém é chamado senão para uma missão e o centro de qualquer missão na Igreja é o dom total de si ao Pai, tal como Jesus realizou levando a sua cruz até ao fim. A missão não é o que se faz, mas o que se deixa Deus fazer quando uma pessoa se abre totalmente ao seu amor!

Voltemos ao quadro mais famoso destes três que estão na capela Contarelli da Igreja de S. Luís: o chamado quadro da vocação de Mateus. Tudo estaria bem claro sobre quem é quem nesse quadro, não fosse há poucos meses ter aparecido por mão de Sara Magister a proposta de uma nova interpretação que leva a perguntar se afinal o Mateus é mesmo quem se julgava que era. Verdade seja dita que não é a primeira a fazer esta pergunta, mas talvez seja a primeira a conseguir gerar um debate sobre o tema.

A interpretação tradicional diz que Mateus é a figura central com barba que olha para Jesus e que parece apontar para si como que dizendo “eu, Senhor? Não me sinto digno, mas se Tu me chamas, vou!”. Na realidade o quadro é todo ele marcado por um dio esquecer o olhar de Jesus e da Igreja que comunicam ntinuamente descoberto e respondido. Isso passa por nstos e disse-lhe seguálogo: chamamento e resposta. Temos Jesus que aponta chamando e que está como que de saída dando lugar a Pedro, simbolizando a Igreja que continua a presença de Cristo, e que repete o gesto de Jesus chamando também ele outros a seguirem Jesus. Jesus e Pedro sobrepõem-se, porque a Igreja é Cristo presente! Neste diálogo, o chamamento apresenta-se com dois sinais. Temos, por um lado a mão de Jesus – e a de Pedro – que aponta para uma pessoa concreta indicando que o chamamento é pessoal, mas, por outro lado, também há o olhar de Jesus – e de Pedro – que cruzando o olhar do que é chamado desperta uma atracção. Mateus não se levanta apenas porque tem de ser ou porque segue uma ordem, mas porque se sente atraído, porque vê no olhar de Jesus um amor que corresponde ao mais profundo desejo do seu coração, o desejo de ver a Deus.

A resposta, porém, não é sempre a mesma. Há quem se levante e siga, e há quem fique sem se levantar e recuse o olhar de Jesus e da Igreja.  No Evangelho de São Mateus o chamamento e a resposta são descritas sem grandes complicações: “Jesus viu um homem chamado Mateus sentado no posto de cobrança dos impostos e disse-lhe ‘segue-Me’. Ele levantou-se e seguiu Jesus” (Mt 9, 9)

Sabemos, porém, que na história da Igreja, como hoje, nem todos respondem. Há quem fique a olhar para o dinheiro e não se consiga libertar das coisas deste mundo. Lembremos o jovem rico. E há quem não se sinta capaz de seguir e não acredita que Deus permite a quem ele chama de realizar o que está para além das suas forças. Também o quadro retrata estas pessoas no jovem que não larga o olhar do dinheiro e no homem idoso que se agarra aos seus óculos.

O quadro permite ainda antever que o diálogo vocacional é sempre dramático e não se resolve de um dia para outro. É como que um continuo chamamento que precisa de ser continuamente descoberto e respondido. Isso passa por uma vida de oração para não esquecer o olhar de Jesus e da Igreja que atraem e comunicam uma paz e uma certeza maior do que se poderia imaginar.

A historiadora Sara Magister tem tentado, no entanto, dizer que o verdadeiro Mateus segundo a intenção de Caravaggio é o jovem na ponta da mesa, o tal que continua a olhar para o dinheiro. Pretende que é isso que indicam as linhas que seguem o dedo de Jesus. E que é isso que corresponde à psicologia de Caravaggio que era, tudo somado, um homem de fé mas profundamente rebelde em contínuos conflitos e que, segundo ela, quereria com este quadro dizer que a vocação é muito difícil de ser respondida.

Parece-me, porém que, além dessa interpretação não corresponder ao relato evangélico, ela esquece um outro aspecto do quadro que julgo ser fundamental: a luz que ilumina o rosto de Mateus. O pintor, com a luz, de que ele é um mestre ímpar em pintar, pretende sempre indicar algo de importante e central. Neste quadro, a luz, paradoxalmente, não vem da janela, ainda que esta esteja bem presente, mas vem de cima. Porque não é uma luz natural, mas sobrenatural, é a luz do Espírito Santo. E esta luz ilumina o rosto do mesmo homem que se levanta e que aponta espantado para si. Esse é o Mateus.

o esquecer o olhar de Jesus e da Igreja que comunicam ntinuamente descoberto e respondido. Isso passa por nstos e disse-lhe seguálogo: chamamento e resposta. Temos Jesus que aponta chamando e que está como que de saída dando lugar a Pedro, simbolizando a Igreja que continua a presença de Cristo, e que repete o gesto de Jesus chamando também ele outros a seguirem Jesus. Jesus e Pedro sobrepõem-se, porque a Igreja é Cristo presente! Neste diálogo, o chamamento apresenta-se com dois sinais. Temos, por um lado a mão de Jesus – e a de Pedro – que aponta para uma pessoa concreta indicando que o chamamento é pessoal, mas, por outro lado, também há o olhar de Jesus – e de Pedro – que cruzando o olhar do que é chamado desperta uma atracção. Mateus não se levanta apenas porque tem de ser ou porque segue uma ordem, mas porque se sente atraído, porque vê no olhar de Jesus um amor que corresponde ao mais profundo desejo do seu coração, o desejo de ver a Deus. A resposta, porém, não é sempre a mesma. Há quem se levante e siga, e há quem fique sem se levantar e recuse o olhar de Jesus e da Igreja.  No Evangelho de São Mateus o chamamento e a resposta são descritas sem grandes complicações: “Jesus viu um homem chamado Mateus sentado no posto de cobrança dos impostos e disse-lhe ‘segue-Me’. Ele levantou-se e seguiu Jesus” (Mt 9, 9) Sabemos, porém, que na história da Igreja, como hoje, nem todos respondem. Há quem fique a olhar para o dinheiro e não se consiga libertar das coisas deste mundo. Lembremos o jovem rico. E há quem não se sinta capaz de seguir e não acredita que Deus permite a quem ele chama de realizar o que está para além das suas forças. Também o quadro retrata estas pessoas no jovem que não larga o olhar do dinheiro e no homem idoso que se agarra aos seus óculos. O quadro permite ainda antever que o diálogo vocacional é sempre dramático e não se resolve de um dia para outro. É como que um continuo chamamento que precisa de ser continuamente descoberto e respondido. Isso passa por uma vida de oração para não esquecer o olhar de Jesus e da Igreja que atraem e comunicam uma paz e uma certeza maior do que se poderia imaginar. A historiadora Sara Magister tem tentado, no entanto, dizer que o verdadeiro Mateus segundo a intenção de Caravaggio é o jovem na ponta da mesa, o tal que continua a olhar para o dinheiro. Pretende que é isso que indicam as linhas que seguem o dedo de Jesus. E que é isso que corresponde à psicologia de Caravaggio que era, tudo somado, um homem de fé mas profundamente rebelde em contínuos conflitos e que, segundo ela, quereria com este quadro dizer que a vocação é muito difícil de ser respondida. Parece-me, porém que, além dessa interpretação não corresponder ao relato evangélico, ela esquece um outro aspecto do quadro que julgo ser fundamental: a luz que ilumina o rosto de Mateus. O pintor, com a luz, de que ele é um mestre ímpar em pintar, pretende sempre indicar algo de importante e central. Neste quadro, a luz, paradoxalmente, não vem da janela, ainda que esta esteja bem presente, mas vem de cima. Porque não é uma luz natural, mas sobrenatural, é a luz do Espírito Santo. E esta luz ilumina o rosto do mesmo homem que se levanta e que aponta espantado para si. Esse é o Mateus.