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Isilda Pegado
Usar e deitar fora… na crise
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1. Vivemos um tempo de crise económica, social e de valores que seguramente não foi construído nos últimos 4 ou 5 anos, mas que resulta, em larga medida, da ideologia dominante e dos hábitos e modos de vida das três últimas décadas. Das quais, por certo, não nos orgulharemos no futuro. Podemos chamar-lhe os “loucos anos” do final do século XX, mas não mais do que isso…

2. Aprendemos que tudo era descartável – “o usa e deita fora” – é moderno e dá (falsa) liberdade. Por isso consumimos desregradamente. A satisfação individual é medida pela capacidade de consumo.

3. Horas e horas passadas num centro comercial é um tipo de vida para vastos milhares de pessoas. O centro comercial destina-se ao comércio, à venda. Por isso, aqueles que o frequentam vivem numa permanente insatisfação.

4. As casas que o urbanismo das últimas décadas ditou não são feitas para as famílias – na sua grande maioria – as casas são exíguos dormitórios que atiram os seus ocupantes para o espaço público – leia-se centro comercial. Os pais não falam com os filhos, e nem aqueles ou estes falam entre si. O individualismo instala-se tão facilmente…

5. Fazem-se prédios de 3 andares com elevador de custos incomportáveis, constroem-se ginásios (autarquias) com grandes paredes em vidro, mas sem janelas e ventiladas com ar condicionado, 365 dias por ano …

Tudo isto numa época em que é preciso ser ecológico e poupar energia.

6. A nossa relação com as coisas, os bens que adquirimos com o suado produto do nosso trabalho tornou-se efémera. A roupa das crianças não passa para os irmãos ou para os primos – “usa e deita fora”. A roupa de adulto é estruturalmente destinada a ser inutilizada no final do Verão ou do Inverno.

7. A superabundância na alimentação ditou exageros na legislação que obriga a inutilizar milhares de quilos de produtos alimentares para os caixotes do lixo. Nunca como hoje os lixos domésticos tiveram tantas toneladas diárias. Basta pensarmos no exagero da embalagem de cartão que envolve 375 gramas de “chocapic” e onde caberia 1000 gramas do mesmo produto.

8. Também as pessoas nalguma medida se tornaram “descartáveis”. O casamento do “dá enquanto dá” ou do “já não dá mais” tornou-se um padrão das relações humanas com danos humanos, pessoais e civilizacionais devastadores. Quantas e quantos não se sentiram na pele do “usa e deita fora” ao fim de anos de uma vida em comum.

9. Esta forma de pensar, que foi levada à letra da Lei (Nova Lei do Divórcio aprovada em 2008, entre muitas outras) criou uma nova forma de relações entre homem e mulher – “não vale a pena casar”. Muitos são os rapazes e raparigas que, em idade de casar, e perante esse desejo dizem “vamo-nos juntar”, “vamos viver juntos”. Já nem arriscam o casamento. Isto é, a relação entre um homem e uma mulher cimentada no casamento, deixou de ser apetecível porque tudo é volátil.

10. Num tempo em que tanto se fala da crise da Natalidade, é fácil perceber porque razão as mulheres não têm filhos. Sem a companhia de um marido, um pai dos seus filhos, não é possível criar e educar 3 ou 4 crianças.

11. Vivemos a ilusão de uma sociedade de superabundância. Não sabemos se será possível continuar por esse caminho. Mas também não sabemos se será bom para cada um de nós, ver o mundo através desta falsa liberdade (do ter, do usar, do deitar fora) a troco da real escravatura dos custos e encargos (impostos).

12. Não há Estado Social que possa acudir a tanta destruição nas famílias, com doenças mentais derivadas de comportamentos, crianças em risco, insuficiência demográfica, custos energéticos elevadíssimos, encargos de gestão que levam à falência de empresas e ao desemprego de homens e mulheres.

Se repensarmos o uso que fazemos dos bens e a nossa relação com os que estão ao nosso lado, talvez a crise seja para usar… e deitar fora…