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Natal com Bento XVI
O Nascimento de Jesus em Belém
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Neste número especial de Natal transcrevemos, aqui, em parceria com a Editora Princípia, algumas partes do texto do terceiro capítulo do livro de Joseph Ratzinger, ‘Jesus de Nazaré, A Infância de Jesus’, sobre ‘O Nascimento de Jesus em Belém’. Uma oportunidade para conhecer mais e esclarecer algumas dúvidas que possam ter sido levantadas por alguma imprensa sobre o conteúdo desta obra de Bento XVI.

 

«Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra» (Lc 2, 1). Com estas palavras, Lucas introduz a sua narrativa sobre o nascimento de Jesus e explica porque ele aconteceu em Belém: um recenseamento, com a finalidade de determinar e depois cobrar os impostos, é a razão pela qual José com Maria, sua esposa que está grávida, se deslocam de Nazaré até Belém. O nascimento de Jesus na cidade de David situa-se no quadro da grande história universal, embora o imperador nada saiba dessa gente simples que, por causa dele, tem de viajar num momento difícil, e assim, aparentemente por acaso, o Menino Jesus nascerá no lugar da promessa. (...)

 

(...)O dia de nascimento do deus foi para o mundo o início dos “evangelhos” com ele relacionados. A partir do seu nascimento, deve começar uma nova contagem do tempo» (cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, p. 74).

Com base num texto deste género, é claro que Augusto era visto não apenas como político, mas também como figura teológica, tendo em conta que a nossa separação entre política e religião, entre política e teologia não existia de modo algum no mundo antigo. (...)

 

(...)Jesus nasceu num período que se pode determinar com precisão. No início da atividade pública de Jesus, Lucas oferece mais uma vez uma datação detalhada e cuidadosa desse momento histórico: é o décimo quinto ano do governo de Tibério César; além disso, são mencionados o governador romano daquele ano e os tetrarcas da Galileia, da Itureia e da Traconítide, bem como de Abilene, e depois os sumos-sacerdotes (cf. Lc 3, 1-2).

Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido «uma vez» típico do mito; mas pertence a um tempo, que se pode datar com precisão, e a um ambiente geográfico exatamente definido: o universal e o concreto tocam-se mutuamente. N’Ele, o Logos, a Razão criadora de todas as coisas, entrou no mundo. O Logos eterno fez-Se homem, e a isto pertence o contexto de lugar e tempo. (...)

 

(...)O decreto de Augusto para o registo fiscal de todos os cidadãos da ecumene leva José, juntamente com a sua esposa Maria, a Belém, à cidade de David, e deste modo favorece o cumprimento da promessa do profeta Miqueias, segundo a qual o Pastor de Israel havia de nascer naquela cidade (cf. 5,1-3). (...)

(...)Categorizados representantes da exegese moderna são de opinião que a informação fornecida pelos dois evangelistas, Mateus e Lucas, de que Jesus nasceu em Belém seria uma afirmação teológica, e não histórica. Na realidade, Jesus teria nascido em Nazaré. Com as narrativas do nascimento de Jesus em Belém, a história teria sido teologicamente reelaborada de acordo com as promessas, para poderem assim – com base no local do nascimento – indicar Jesus como o Pastor esperado de Israel (cf. Mq 5, 1-3; Mt 2, 6).

Eu não vejo como se possa aduzir, em apoio de tal teoria, fontes verdadeiras. De facto, a propósito do nascimento de Jesus, não temos outras fontes além das narrativas da infância de Mateus e Lucas. Vê-se que os dois dependem de representantes de tradições muito diferentes; são influenciados por perspetivas teológicas diferentes, e inclusive as suas informações históricas divergem parcialmente.

Parece que Mateus desconhecia que tanto José como Maria habitavam inicialmente em Nazaré. Por isso, quando voltam do Egito, a intenção primeira de José é ir para Belém, e só a notícia de que na Judeia reina um filho de Herodes é que o induz a retirar-se para a Galileia. Ao passo que, para Lucas, é claro, desde o início, que a Sagrada Família, depois dos acontecimentos do nascimento, voltou para Nazaré. As duas linhas diversas de tradição concordam na informação de que o local do nascimento de Jesus era Belém. Se nos ativermos às fontes, fica claro que Jesus nasceu em Belém e cresceu em Nazaré.

 

 

2. O nascimento de Jesus

 

 (...) Desde o seu nascimento, Jesus não pertence àquele ambiente que, aos olhos do mundo, é importante e poderoso; e contudo é precisamente este homem irrelevante e sem poder que Se revela como o verdadeiramente Poderoso, como Aquele de quem, no fim de contas, tudo depende. Por conseguinte, faz parte do tornar-se cristão este sair do âmbito daquilo que todos pensam e querem, sair dos critérios predominantes, para entrar na luz da verdade sobre o nosso ser e, com esta luz, alcançar o justo caminho.

 

Maria colocou o Menino recém-nascido numa manjedoura (cf. Lc 2, 7). Daqui, com razão, se deduziu que Jesus nasceu num estábulo, num ambiente pouco confortável – vem-nos a tentação de dizer «indigno» –, que, todavia, proporcionava a discrição necessária para o acontecimento sagrado.

 

(...) Maria envolveu o Menino em panos. Sentimentalismos à parte, podemos imaginar o amor com que Maria aguardou a sua hora e terá preparado o nascimento do seu Filho. A tradição dos ícones, com base na teologia dos Padres, interpretou teologicamente também a manjedoura e os panos. O menino, rigidamente envolvido em panos, aparece como uma alusão antecipada à hora da sua morte: Jesus é desde o início o Imolado, como veremos de forma ainda mais detalhada ao refletir a propósito da palavra primogénito. Por isso, a manjedoura era representada como uma espécie de altar.

Agostinho interpretou o significado da manjedoura com um pensamento que pode, à primeira vista, parecer quase inconveniente, mas que, se examinado mais atentamente, encerra uma verdade profunda. A manjedoura é o lugar onde os animais encontram o seu alimento. Agora, porém, jaz na manjedoura Aquele que havia de apresentar-Se a Si mesmo como o verdadeiro pão descido do céu, como o verdadeiro alimento de que o homem necessita para ser pessoa humana. É o alimento que dá ao homem a vida verdadeira: a vida eterna. Desta forma, a manjedoura torna-se uma alusão à mesa de Deus, para a qual é convidado o homem a fim de receber o pão de Deus. (...)

(...)Como se disse, a manjedoura faz pensar nos animais que encontram nela o seu alimento. Aqui, no Evangelho, não se fala de animais; mas a meditação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testamentos correlacionados, não tardou a preencher esta lacuna, reportando-se a Isaías 1, 3: «O boi conhece o seu dono, e o jumento o estábulo do seu senhor; mas Israel, meu povo, nada entende».

(...) Assim a manjedoura tornar-se-ia, de certo modo, a Arca da Aliança, na qual Deus, misteriosamente guardado, está no meio dos homens e à vista da qual chegou, para «o boi e o burro», para a humanidade formada por judeus e gentios, a hora do conhecimento de Deus.

Portanto, na singular conexão entre Isaías 1, 3; Habacuc 3, 2; Êxodo 25, 18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento.(...)

 

(...)«Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2, 8-9). As primeiras testemunhas do grande acontecimento são pastores que estão de vigia. Muito se tem refletido sobre o significado que possa ter o facto de os primeiros a receber a mensagem terem sido precisamente pastores. Parece-me que não é necessária demasiada perspicácia para superar tal questão: Jesus nasceu fora da cidade, num ambiente circundado por todo o lado de pastagens para onde os pastores levavam os seus rebanhos. Por isso, era normal que os primeiros a serem chamados para ver o Menino na manjedoura fossem os pastores que estavam mais perto do acontecimento.

Naturalmente, pode-se levar mais longe o pensamento: talvez os pastores vivessem, não só externamente mas também interiormente, mais perto do acontecimento do que os habitantes da cidade, que dormiam tranquilamente. Também intimamente não estavam longe daquele Deus que Se fez menino. Coincide com isso o facto de pertencerem aos pobres, às almas simples, pelas quais Jesus havia de bendizer o Pai porque é sobretudo a elas que está reservado o acesso ao mistério de Deus (cf. Lc 10, 21-22). Os pastores representam os pobres de Israel, os pobres em geral – os destinatários privilegiados do amor de Deus. (...)

 

(...)Voltemos ao texto da narração do Natal. O anjo do Senhor aparece aos pastores e a glória do Senhor envolve-os de luz. «E tiveram muito medo» (Lc 2, 9). Mas o anjo dissipa o medo neles e anuncia-lhes «uma grande alegria, que o será para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 10-11). Como sinal – é-lhes dito –, hão de encontrar um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.

«De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens do seu agrado”» (Lc 2, 12-14). O evangelista afirma que os anjos «dizem», isto é, falam; mas, desde o início, para os cristãos era claro que este falar dos anjos é um cântico, no qual todo o esplendor da grande alegria por eles anunciada se torna sensivelmente presente. E assim, a partir daquele momento, nunca mais cessou o cântico de louvor dos anjos; continua, através dos séculos, sob formas sempre novas e, na celebração do Natal de Jesus, ressoa sempre de novo. (...)

 

(...)«Quando os anjos se afastaram deles […], os pastores disseram uns aos outros: “Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura» (Lc 2, 15-16). Os pastores foram apressadamente. De forma análoga, o evangelista narrara que Maria, depois da alusão do anjo à gravidez da sua parente Isabel, se dirigiu «à pressa» para a cidade de Judá, onde viviam Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 39). Os pastores foram apressadamente, movidos também pela curiosidade humana, ou seja, para verem o prodígio que lhes fora anunciado; mas seguramente sentiam-se também cheios de ardor devido à alegria neles gerada pelo facto de ter nascido verdadeiramente o Salvador, o Messias, o Senhor, de quem todos estavam à espera, e eles seriam os primeiros a poder vê-lo.

E quantos cristãos se apressam hoje quando se trata das coisas de Deus? No entanto, se há algo que mereça pressa – talvez o evangelista nos queira dizer tacitamente isso mesmo –, são precisamente as coisas de Deus! (...)

 

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Notas soltas...

“O próprio Deus é visto como a limitação da nossa liberdade, uma limitação que tem de ser eliminada para que o homem possa ser completamente ele mesmo. Deus, com a sua verdade, opõe-Se à múltipla mentira do homem, ao seu egoísmo e à sua soberba”.

 

“Deus é amor. Mas o amor também pode ser odiado, quando exige do homem que saia de si próprio para ir além de si mesmo”.

 

“O amor não é um sentimento romântico de bem-estar. Redenção não é bem-estar, um mergulho na autocomplacência, mas libertação do autofechamento no próprio eu. Essa libertação tem como preço o sofrimento da Cruz. A profecia sobre a luz e a afirmação acerca da Cruz caminham juntas.”

texto por Joseph Ratzinger em ‘Jesus de Nazaré – A infância de Jesus’
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