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Hermínio Rico, sj
Natal é pôr-se no lugar do outro
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“Ele, que é de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens.” É assim que o hino da Carta aos Filipenses nos alerta para a dimensão do movimento da Encarnação. Impelido pelo desejo de salvar a humanidade perdida nos seus caminhos, Deus adopta uma metodologia assombrosa: assume o lugar, a sorte, a experiência completa da vida humana. Não dá apenas indicações de fora, exemplifica e guia por dentro. Não se satisfaz com a disponibilidade para orientar, a oferta de um plano eficaz e a avaliação constante por critérios de justiça certeiros que servem para monitorizar os resultados do processo. O Filho, Jesus, envolve-se mesmo e envolve-se completamente – não visita, nem aparece, nem vem conhecer em primeira mão para depois levar os dados num relatório. Faz-se homem definitivamente, assumindo todas as consequências. Desloca-se, torna-se Emanuel, Deus connosco, não só faz a sua morada no meio de nós como adopta a nossa condição. E sem provisórios ou temporários: não apenas experimenta pôr-se no nosso lugar, troca mesmo o seu lugar pelo nosso.

Mais ainda. Se o objectivo é construir o Reino de Deus, acabar com a miséria, a injustiça, a exclusão, Jesus aproxima-se e partilha a sorte precisamente dos que sentem a maior urgência do Reino, daqueles para quem a nova ordem das coisas é mais desesperadamente necessária. Se o objectivo é promover uma sociedade justa e inclusiva, começa por se colocar na circunstância dos mais excluídos. É daí que olha, experimenta, sente, julga e age. Exerce, de facto, uma opção preferencial pelos mais pobres, não só indicando-os como beneficiários prioritários duma estratégia que promete sucesso no longo prazo. Não é só nos fins, é no princípio, nos meios e no caminho inteiro que os mais desfavorecidos são o ponto a partir do qual avalia e actua.

O exemplo de Jesus é um desafio. Antes de mais, desafio para qualquer intento de trabalhar pela justiça. Não chega fazer apelos a teorias e programas. Há um teste mínimo que se torna obrigatório: considerar a perspectiva daqueles que mais negativamente estão a ser ou vão ser afectados pela situação vigente ou a alteração considerada.

Este desafio é também um alerta. Alerta para não nos escondermos por trás de modelos teóricos e programas abstractos que tornam pessoas em números e anseios e sofrimentos de gente com nome, história e sentimentos em indicadores estatísticos. Tanto mais que este distanciamento tolera e pode até disfarçar a intrusão de interesses próprios ou corporativos que, de facto, viciam as análises e os raciocínios e se sobrepõem ao benefício do bem comum e às preocupações de equidade perfunctoriamente proclamadas.

Pôr-se no lugar do outro, quando se trata de defender ou promover a justiça, significará sempre não tomar como ponto de partida e, muito menos, como único valor, a defesa de direitos, sobretudo de direitos adquiridos em contextos diferentes que agora se revelam insustentáveis. A reivindicação apenas da parte que me caberia da distribuição equitativa numa situação idealmente justa torna-se desprezo pela justiça, se não é testada pelo critério da consideração dos efeitos sobre os que mais longe estão de poder ter acesso ao mesmo.

Por exemplo. A procura de benefícios por parte de quem está empregado não pode deixar de considerar – pôr-se no lugar – a situação (e as consequências que sobre eles recairão) dos que não conseguem arranjar trabalho. A defesa da intocabilidade das expectativas/direitos respeitantes a reformas adquiridas tem também, pelo menos, que confrontar-se com o sentir de (in)justiça do dever imposto aos trabalhadores activos que as pagam e que nunca terão acesso a semelhantes benefícios, por mais justos que, abstractamente, eles sejam.