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P. Duarte da Cunha
Portugal na Ásia. Um desafio para hoje
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De 10 a 17 de Dezembro passado participei como delegado do Conselho das Conferências Episcopais da Europa na Assembleia Plenária do FABC (Federação das Conferências Episcopais da Ásia). Quase 100 bispos de quase toda a Ásia estiveram reunidos 5 dias perto de Ho chi Min (antiga Saigão) no Vietnam.

Um dos primeiros impactos foi a Igreja local. Apesar de ser ainda um país comunista, os cristãos têm uma relativa liberdade e a Igreja está florescente. Os católicos são cerca de 8% da população mas isso quer dizer mais de sete milhões de pessoas que vão regularmente à Missa! Os seminários está cheios. Tivemos a reunião num seminário onde havia mais de 400 seminaristas maiores, e este é apenas um dos 4 ou 5 seminários diocesanos do Vietnam e todos com números semelhantes. Mas não é de estranhar, se pensarmos na quantidade de pessoas que vão à Missa, e se lembramos que mais de 50% da população é jovem.

Mas houve outra questão que me comoveu e impressionou. Quando os bispos asiáticos souberam que estava ali um padre português vieram ter comigo a contar histórias das relações de Portugal com os seus países, e sobretudo a falar da importância das nossas missões. Se, por vezes, na Europa temos a sensação de que Portugal é tratado como um simples país periférico, ali, onde a Europa decadente moralmente, demograficamente e economicamente não parece interessar muito aos bispos como referência a imitar, Portugal é recordado com entusiasmo.

Faço um pequeno elenco de alguns dos ecos que ouvi. O bispo de Hanoi falou-me logo do Gaspar do Amaral, o primeiro europeu que ainda antes de 1650 escreveu um dicionário Português-Vietnamita. Do Bangladesh, como de outros países, é interessante que além da referência à evangelização feita no passado, ainda hoje os nomes dos bispos são quase todos de origem portuguesa (o nome Fernando como apelido é dos mais comuns entre os católicos). Acontece o mesmo no Sri Lanka, de onde me contaram que a certa altura quase toda a ilha era católica, mas quando os holandeses conquistaram a ilha em 1638 e trouxeram consigo as tristes guerras entre protestantes e católicos que se estavam a viver na Europa, muitos dos católicos locais preferiram voltar ao budismo para não entrarem nas querelas dos colonizadores. Esta é a razão porque os nomes portugueses mantiveram-se mesmo entre budistas. Um bispo do Myamar veio ter comigo só para me lembrar que fomos os primeiros a falar de Jesus naquela terra. O bispo do Cambodja contou-me que nas famílias católicas ainda há a tradição de em casa se chamar pai e mãe, em português, aos pais. Do Japão, já sabia que Nagasaki fora uma cidade quase toda católica e que muitas palavras do japonês lembram ainda hoje palavras portuguesas. Mas fiquei impressionado com a simpatia com que o bispo com quem estive mais me falou dos portugueses.

Acima de tudo, porém, é preciso falar da India. Aí, além do bispo de Goa que fala correntemente português, e do Cardeal Gracias, arcebispo de Bombaim, que também compreende o português, são muitos os sinais de apreço por Portugal. Bem sabemos que o Evangelho chegou à India já no tempo dos Apóstolos como testemunha a Tradição da Igreja Siro Malankar e Siro Malabar, mas é bom ver que a presença portuguesa, sobretudo eclesial é lembrada com carinho. Faltou ao encontro o bispo de Macau, mas estava o Senhor D. Norberto Araújo, bispo de Maliana em Timor Leste.

Na reunião foram debatidos importantes questões, pois são muitos os desafios asiáticos. É visível a diferença entre os nossos dois mundos e apesar da globalização fazer que todos usemos os mesmos telemóveis e computadores há questões próprias de um mundo jovem, com uma cultura que dá espaço e valor à religião e que ainda está aberto a ouvir falar de Jesus, e um mundo envelhecido que só pensa em dinheiro. Mas, foi sobretudo, a relação com Portugal que mexeu comigo e me fez pensar que talvez a solução para a crise em Portugal, agora como no século XVI, não seja só lamentar e procurar bodes expiatórios, mas será começar a sério uma epopeia missionária. Comecemos, porém, desta vezes no nosso próprio território. Talvez seja o mais necessitado, apesar do seu passado glorioso. Se nos empenharmos daqui a uns séculos ainda haverá nomes portugueses em Portugal como na Ásia.