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Nuno Cardoso Dias
O defeito do Príncipe e a Princesa desencantada
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Todos nós crescemos rodeados de histórias infantis, cheias de príncipes e princesas que se encontravam finalmente, depois de muitos cansaços e alguns feitiços que conseguiam quebrar.

Invariavelmente as histórias acabam no primeiro encontro ou, quanto muito, no segundo, depois de o fascínio do primeiro encontro fazer com que o Príncipe corra o mundo inteiro à procura da sua princesa. Então a história termina com a fórmula sacramental “viveram felizes para sempre”, em alguns casos refere-se “casaram e viveram felizes para sempre”, noutros “casaram, tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre”. Não vou agora explorar isto, mas é óbvio que as expressões não se equivalem e que há umas mais completas do que outras.

Reparem que nas histórias infantis a felicidade não é conquistada dentro da relação: quando o príncipe encontra a princesa (ou vice-versa) a felicidade é automática.

Claro que toda a gente acha que as histórias são fantasia e que não têm nada a ver com a realidade. Mas a realidade é outra: nas nossas relações tendemos a procurar “a pessoa certa”, que acaba por não ser muito diferente do príncipe ou princesa da nossa fantasia - se uma relação nos faz felizes achamos que podemos ter encontrado “a pessoa certa” mas se não nos faz (ou se deixa de fazer), se começa a haver problemas, é porque nos enganámos e afinal não era aquela “a pessoa certa”. A mesma razão que justificava que eu mantivesse uma relação com quem eu pensava que era “a pessoa certa” é a mesma razão que me justifica terminar uma relação com alguém que eu descobri que não é “a pessoa certa”.

Esta forma de ver as coisas conduz-nos a relações muitíssimo superficiais e, obviamente, instáveis. Construímos, pois, a nossa casa sobre a areia, onde a primeira onda, o primeiro vento, a destruirá.

Como podemos evitar isto?

Primeiro temos que ter presente o nosso projecto de vida. Um projecto de vida não é um desenho rígido e intransigente de mim mesmo: está sempre em construção, está sempre disponível. Mas um projecto de vida cristão tem um fundamento que é sempre o mesmo e que lhe dá solidez e estrutura: a Palavra de Cristo (v. Mt 7, 24 - 29).

Depois, devemos ter consciência de que o amor não é só um sentimento (talvez nem seja um sentimento) é uma atitude de serviço e partilha (v. João 15, 13) que procura sempre o melhor para o outro, o seu crescimento e a sua plenitude. É fácil amarmos aqueles de quem gostamos... mas isso não chega para construir uma intimidade. Lembro-me de uma rapariga que tinha receio de dizer ao namorado que os seus olhos azuis eram efeito das lentes de contacto... o namorado gostava tanto dos seus olhos azuis! Reparem: ele nunca tivera a oportunidade de a ver verdadeiramente e ela nunca se sentira verdadeiramente aceite ou amada por ele.

Finalmente, devemos saber que o namoro não é um espaço de diversão (embora o namoro possa ser divertido!) nem um espaço de faz-de-conta (não é a mesma coisa namorar ou estar casado: os pais dos namorados não são sogros, os irmãos não são cunhados e cada coisa tem o seu tempo).

O namoro é um espaço de construção pessoal e comunitário onde trabalhamos o nosso projecto de vida e aprendemos a descobrir o outro e a relacionar-nos com ele. 

Vivido desta maneira o namoro torna-se um importantíssimo espaço vocacional, porque quando construímos o nosso projecto de vida partindo de uma base cristã nunca podemos deixar de perguntar a Deus “O que queres de mim?”

 

 

Nota:

Este é um texto que tem dez anos. Quando o escrevi fazia parte de uma equipa de pastoral vocacional e foi neste domínio que ele foi pensado. Uma equipa orientada por um padre extraordinário, com um entendimento muito abrangente da vocação e das vocações. O tema continua hoje tão actual como antes. Cada vez mais somos bombardeados com ideias pronto-a-vestir. A diversão, como valor, opõe-se naturalmente à concentração. É muito fácil os namoros caírem numa coisa docinha, olhos nos olhos, onde se sente muito e se prepara pouco. Mas o namoro pode ser muito mais e ser óptimo, muito melhor assim.