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Pe. Alexandre Palma
Vaticano II: estar à altura da herança
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Ser herdeiro tem tanto de graça quanto de fardo. Tem tanto de vantagem quanto de tarefa. Por um lado, ao herdeiro é entregue algo que não construiu, algo que não conquistou. De repente, ele vê-se proprietário e senhor de um património que gerações passadas foram reunindo. É-lhe pois, sem qualquer mérito da sua parte, dado gozar do tesouro que outros foram construindo. Mas por outro lado, o herdeiro é também alguém sobre quem repousa a expectativa de estar à altura do bem que recebe e, sobretudo, à altura da confiança de quem lho entrega. Ele sabe-o e, por isso, não poucas vezes a herança se transforma também em fardo. Não é apenas a pressão para não delapidar a herança. É ainda o natural desafio de aumentar e enriquecer o bem recebido. Porque um dia será ele a confiá-lo a outro.

A dinâmica da herança está inscrita no próprio código genético da fé cristã. «O Senhor é a minha herança» (cf. Sl 16 [15], 5), diz o salmista. E Jesus anuncia para os justos: «Recebei em herança o Reino que vos está preparado» (Mt 25, 34). A própria transmissão da fé é isso mesmo: legar o Evangelho como tesouro e herança a outros, a outras gerações.

Celebrar os 50 anos do Concílio Vaticano II é celebrar esta condição de sermos hoje seus herdeiros. De nos deixarmos confrontar com a questão: Que fazemos desta herança? Como a temos enriquecido? Como abraçamos o que o Vaticano II tem de graça e de tarefa? De modo bem sugestivo, G. Routhier (estudioso do Concílio) relia recentemente estes 50 anos à luz de cinco grandes modos de se ser herdeiro (in L’Osservatore Romano 18/1/2013, 5). Há, em primeiro lugar, aquele tipo de herdeiro que se apressa em esbanjar tudo quanto recebeu. Seja por ignorância da riqueza recebida, seja pelo embaraço que esta lhe possa causar, este desafazer-se da herança significa sempre um não lhe reconhecer o devido valor. Em segundo lugar, há aquele tipo de herdeiro que, talvez tomado pelo receio de não estar à altura dos seus antepassados, como que congela a herança, na ilusão de que desse modo lhe é mais fiel. Mas assim nunca chega a gozar do bem recebido e, mais grave ainda, não chega a dar-lhe vida. Em terceiro lugar, uma herança pode sempre ser recusada. Talvez o herdeiro não queira nada dos seus antepassados e, portanto, queira romper com esse laço que o liga aos seus antecessores, sem se dar conta que ele também será um dia antepassado de quantos se lhe seguirão. Em quarto lugar, há aqueles que enleiam a herança numa teia de discussões e contendas estéreis. Será de todos bem conhecido o poder destruidor das acirradas disputas entre herdeiros. É um outro modo de matar a herança, neste caso pelo seu intenso desmembramento. Tudo isto pode ser feito (e tem sido feito) também com o Vaticano II.

O quinto modo identificado por G. Routhier é aquele apontado na parábola evangélica: uma herança só é bem recebida se posta a render (cf. Mt 25, 14-30). É com este desafio que estamos hoje confrontados: fazer frutificar o tanto que do Vaticano II recebemos. Resistindo a todas as tentações de desvalorização, de fechamento, de recusa ou de fragmentação na recepção do Concílio. Por certo as atitudes mais fáceis. Como sempre, a estrada mais fecunda coincide com a mais exigente. Tomar a sério a herança conciliar. Assumi-la. Não apenas como uma riqueza que nos legou o passado. Sobretudo como um tesouro que nos enriquece o presente. Talvez só assim estaremos, de verdade, à altura da herança que nos legaram os Padres conciliares.