Domingo |
À procura da Palavra
As duas pescas

DOMINGO V COMUM Ano C

Faz-te ao largo

e lançai as redes para a pesca.

Lc 5, 4

  

Gostava de saber um pouco mais sobre os ritmos da pesca e do mar para entender melhor o Evangelho de hoje. Mas, mesmo sem ser especialista, vejo que há duas pescas que os primeiros apóstolos fazem. A primeira, como habitualmente, de noite, redes lançadas com esperança, e tanto trabalho para nada: regressaram de redes vazias. A segunda, em pleno dia, a convite de Jesus, talvez com a sensação de um trabalho inútil, e a surpresa: as redes encheram-se de peixe em abundância. Parece que quem percebe mesmo de pesca é Jesus!

Certamente São Lucas nos fala de pescas diferentes. E de modos diferentes de fazer aquilo que se torna uma rotina, da qual julgamos conhecer todos os segredos. E a grande diferença é a presença e a palavra de Jesus. Aquele que ensina a multidão (desta vez não lhe pedem milagres!), tem palavras que iluminam, e enchem de esperança e sentido os que O escutam. São palavras que interpelam, que convidam a uma mudança, mas também responsabilizam. Produzem o encontro com Jesus e este transforma a vida na realidade feliz e comprometida que Deus deseja para nós. E este será o segredo da nova pesca que Jesus nos propõe fazer. Será que encontramos aqui um apelo a rever o nosso existir de cristãos e de Igreja?

Com gestos repetidos ou estratégias inovadoras procuramos ir realizando a pesca que Jesus nos confiou. “Pescar”, nas palavras de Jesus, significa “salvar, libertar”. Mergulhados no mar da injustiça, do mal e da morte, não conseguimos respirar nem viver verdadeiramente. No passado talvez tenhamos exagerado a ânsia de “cristianizar” o mundo e “converter” multidões, independentemente da liberdade de cada pessoa, dominando com o medo do inferno ou o poder sobre as consciências, mas hoje sentimos a dificuldade de transmitir a fé aos mais novos e de oferecer o encontro feliz com Cristo. Não sei se andamos na noite como aqueles pescadores a lançar redes que nada trazem. Jesus propõe o mesmo gesto mas com uma nova estratégia: de dia, na claridade e transparência da vida, e “à sua palavra”. É o encontro com Jesus que muda tudo, é o seu evangelho que traz vida às pessoas. E que Jesus encontra quem nos vai conhecendo ou “bate à porta” da Igreja? E se é necessário “bater à porta” não será, talvez, porque, tantas vezes, ela está fechada?

“Pescar” pode induzir em erro a vida e a ação dos discípulos de Cristo. Pode criar expectativas de multidões passivas, ou de clubes de perfeitos. A substancial diferença não será a vida transformada e feliz no encontro com Jesus, que tudo incendeia com o fogo do seu amor, e faz reconhecer em cada outro, um próximo, um irmão? Talvez assim “pesquemos” alguém!

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