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Pobreza
A Igreja está com aqueles que sofrem
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As primeiras palavras do Papa Francisco manifestando um olhar de maior proximidade para com os mais desfavorecidos e os pobres trouxeram alguns desafios para a própria Igreja. Na semana em que se celebra a Ressurreição de Cristo, que se fez pobre com os pobres, o Jornal VOZ DA VERDADE foi ouvir testemunhos de instituições da Igreja que se sentiram interpeladas pelo Papa.

 

Ainda antes de ser anunciado publicamente o nome do novo Papa, eleito na quarta-feira, 13 de março, já o escolhido de entre os cardeais tinha feito uma opção. Francisco seria o seu nome, recordando o santo dos mais pobres, Francisco de Assis. A opção surgiria depois de lhe ter sido soprado ao ouvido pelo Cardeal Hummes ‘Não te esqueças dos mais pobres’, contou o próprio Papa na audiência com os jornalistas. Por esta opção, surgiriam as primeiras palavras do Papa Francisco indicando, desde logo, uma preocupação que tem sido manifestada diretamente nos seus discursos e nos seus próprios gestos.

 

O problema maior da humanidade

“O Papa Francisco pegou naquilo que é hoje o problema maior da humanidade e da crise mundial que estamos a viver”, referiu ao Jornal VOZ DA VERDADE o responsável da Pastoral Social no Patriarcado de Lisboa, cónego Francisco Crespo. Para este sacerdote, é importante recordar que os cristãos e a Igreja devem dar “testemunho de uma Igreja que é pobre ao serviço dos pobres”. “Aí está a essência do próprio Evangelho”, alerta salientando que “Jesus veio para ser servido, não para servir. Veio para ir ao encontro dos mais carenciados e mais necessitados”. Neste sentido, sublinha o cónego Crespo, “isto não pode ser uma palavra vã, vazia, sobretudo numa altura concreta que estamos a viver como a da Páscoa, mas tem que se traduzir no verdadeiro sentido do lava-pés, de irmos ao encontro daqueles que a esta hora e neste momento precisam do nosso testemunho como cristãos”.

Segundo o cónego Crespo, o mundo inteiro está virado para a resolução do problema da crise mundial “procurando emprego, bens materiais, desenvolvimento material”. Porém, destaca o responsável pela Pastoral Social na Diocese de Lisboa, “talvez esteja a ir por caminhos errados daquele que deve ser procurado no testemunho do Evangelho”. “O Evangelho, para nós cristãos e Igreja, não é simplesmente angariar ou ter mais dinheiro porque se calhar até já existe o dinheiro suficiente, se ele for devidamente distribuído por aqueles que necessitam. Mas o que é necessário e fundamental é fazer aquilo que Jesus disse quando fez a multiplicação dos pães: ‘Dai-lhe vós mesmos de comer’. Cristo que deu de comer, mandou-nos dar de comer”, apontou. Nesta linha, este sacerdote, que é pároco no Bairro da Serafina, considera que o Papa Francisco com a sua forma de agir tem tocado em aspectos essenciais. “O Papa está a fazer este apelo com o seu testemunho e a sua palavra nas poucas intervenções que tem tido. Estas têm sido no sentido verdadeiro de atacar diretamente esta realidade”, frisou.

 

Desafios à mudança na Igreja de Lisboa

Olhando para o interior da Igreja e de modo particular para a Diocese de Lisboa, o cónego Crespo também sente que este apelo é muito direto e pede atitudes de mudança. “Penso que a nossa Igreja, e a nossa Igreja de Lisboa, de modo particular, precisa de se converter a esta ação concreta de nos virarmos para os pobres, para os carenciados e fazermos o que estiver ao nosso alcance para resolvermos esse problema. Não vale a pena fazermos muitas boas teorias sobre a pobreza, muito cálculos... temos de começar nós próprios a dar testemunho da realidade concreta no nosso pequeno mundo onde vivemos. Cada um na sua própria comunidade”, sublinha.  

 

Cooperação e junção de esforços

Neste sentido, o cónego Crespo apela à cooperação e junção de esforços, embora reconhecendo que há dificuldades. “Se cada um resolver os seus problemas na sua paróquia, o problema está resolvido. Se não o conseguir, vamo-nos juntar e dar as mãos uns aos outros e procurar que aquele que tem mais distribua para aquele que não tem. Parece uma coisa simples, mas é uma coisa difícil porque trata-se de uma questão de conversão”.

Segundo este responsável, esta conversão também passa pelos próprios padres. “Se calhar, a maior parte das pessoas e nós padres somos os primeiros a não dar este testemunho. Até agora temos estado um bocadinho adormecidos para o sentido social. Enquanto pensávamos que o social era simplesmente o ter equipamentos sociais, falta a realidade concreta de nós próprios irmos ao encontro dos nossos próprios paroquianos, e ajudarmo-los a resolver o seu problema, na medida das nossas possibilidades”, reconhece.

 

Despertar consciências

Diante deste panorama, o recém eleito Sucessor de Pedro tem despertado consciências. “Nestas intervenções, o Papa Francisco tem chamado a atenção para uma Igreja que precisa de se converter, de se virar para ela própria, e nos interpela e pergunta até que ponto estamos a dar este testemunho?” Neste sentido, para o cónego Francisco Crespo, os exemplos já dados pelo Papa marcam uma atitude que leva a um exame de consciência da própria Igreja. “Quando ele sai do Papamóvel e vai ao encontro do paraplégico e não tem medo de o abraçar e dar um beijo; quando sai ao encontro da prisão de jovens delinquentes, isto leva a que a Igreja se questione sobre o modo como está a celebrar e agir. Porque a realidade dos pobres está lá fora. Fora do espaço físico da Igreja”, acentua o cónego Crespo, reforçando a ideia de que “o Papa vai lá fora dar testemunho concreto”, e de que “a Igreja está lá dentro mas também está com aqueles que sofrem”.

 

Cáritas desafiada a pôr-se a caminho

No Patriarcado de Lisboa, também a Cáritas Diocesana desenvolve a sua missão junto dos mais desfavorecidos. Reconhecendo que “as pessoas estão a atravessar situações muito difíceis”, esta preocupação do Papa pela pobreza e pelos mais pobres tornou-se, para o presidente da Cáritas Diocesana, José Frias Gomes, “uma palavra fundamental”. “É uma palavra fundamental no sentido de nos virar para a missão, de nos pormos a caminho com mais intensidade e vigor, de nos pormos a caminho e irmos ao encontro daqueles que necessitam do nosso apoio”, destaca.

Para este responsável, “o Papa quis reavivar as propostas que a Igreja sempre fez, de alguma forma, e deve fazer permanentemente”. O que traz consigo um impacto. “Isto tem um impacto ao nível da maior disponibilidade para o serviço e para apoiar tudo o que tem a ver com o ajudar aqueles que neste momento passam por situações difíceis. Ele de alguma maneira quis dar um enfâse extraordinário aquilo que é essencial na Igreja, que é o cuidarmos uns dos outros. Isto na linha das encíclicas do Papa Bento XVI, mas aqui de uma forma vigorosa, muito fraterna, muito próxima, muito despojada. É a atitude que deve pautar no procedimento de um cristão para com os seus irmãos, sejam eles crentes ou não crentes. É dar a mão a quem necessita”, acrescenta o presidente da Cáritas de Lisboa.

 

Na ajuda ao outro, encontrar a própria conversão

Apesar de este “ir ao encontro” trazer mudanças aos que mais precisam, Frias Gomes considera que há outras transformações que acontecem e que levam a novos estilos de vida. “Neste caminho de encontro também encontramos a nossa própria conversão. Essa nossa conversão tem a ver com uma redescoberta ou uma mais intensa opção por estilos de vida mais simples, mais despojados, olhando mais para o essencial. A maneira de olhar para a vida ajudar-nos-á a olhar para tudo aquilo que é necessário fazer pelos nossos irmãos. Isto é uma conversão”, garante.

 

Comunidade Vida e Paz surpreendida

Para o presidente da Comunidade Vida e Paz, instituição que todos os dias vai ao encontro dos sem-abrigo, as primeiras palavras utilizadas pelo Papa Francisco foram surpreendentes. “Foi uma surpresa muito alegre e muito positiva o facto de duas das primeira palavras do Papa Francisco terem sido ‘fraternidade’ e ‘confiança’”, observou ao Jornal VOZ DA VERDADE. “A terceira palavra foi o virar-se para os mais pobres dos pobres e creio que isso vai ter um impacto muito positivo, porque vai colocar-nos desafios grandes”, salienta Henrique Joaquim.

 

Reencontrar a esperança

Para este responsável, estes desafios têm a ver com “a ausência de recursos porque as necessidades são crescentes”. E por outro lado com um centrar da missão quando há muito trabalho. “Nesse muito trabalho, arriscamo-nos a perder um bocadinho o sentido daquilo que fazemos e da maneira como fazemos, no cuidado ao outro que é o mais desfavorecido”, refere o presidente da Comunidade Vida e Paz.

Segundo este responsável, a forma e o modo como o Papa Francisco abordou esta temática trouxeram uma nova esperança. “A forma como o disse, o sorriso com que disse, a delicadeza do Papa, reencheu-me de esperança dizendo que estamos no caminho certo. Se calhar é o testemunho que o mundo hoje precisa”, observou Henrique Joaquim.

 

Olhar pascal de esperança

Nos dias de hoje e perante a atual situação económica e social que se vive no país, há dificuldades que se manifestam à ação da Comunidade Vida e Paz. “A pior coisa que estamos a viver, falando da ação social organizada, são as incertezas governativas e as incertezas das estruturas. Por isso é muito difícil viver aqui um princípio da Doutrina Social da Igreja que é o da subsidiariedade. Porque tão depressa as estruturas que nos são superiores estão a fazer aquilo que as organizações já fazem, como tão depressa nos deixam entregues a nós próprios. É muito difícil conciliar isto”, lamenta Henrique Joaquim, lembrando, ainda, que “estamos numa sociedade com dificuldade de recursos”.  No entanto, o presidente da Comunidade Vida e Paz, deixa um olhar pascal de esperança: “Apesar de tudo gostava de deixar uma palavra de esperança porque tem havido, e eu tenho sentido na prática, a partilha. As pessoas demonstram solidariedade e generosidade e acho que esta crise há-de fazer-nos mais fraternos”.

texto por Nuno Rosário Fernandes; fotos AgenSIR e arquivo
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