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A. Pereira Caldas
Uma Páscoa diferente
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Domingo de Páscoa. Páscoa, a “ponte”…

Cristo ressuscitou – e a Sua ressurreição indicou e ofereceu aos homens o caminho da salvação. A passagem redentora, construída na Fé, da vida terrena para a eternidade.

Mas a caminhada é dura e difícil. São muitos os obstáculos que é preciso vencer, muitas as travessias que é preciso enfrentar antes de se atingir a última ponte, a passagem final. O momento em que o corpo liberta a alma para a outra vida, a vida junto de Deus contra a qual a morte nada pode.

Cada Páscoa plenamente vivida no seu significado é, por isso, para cada homem, a oportunidade de deixar par trás os pedaços velhos de vida carregados de pecado e encontrar, por entre as vicissitudes e solicitações friamente materialistas do dia-a-dia, a travessia inevitavelmente estreita para uma existência nova, enraizada nos valores evangélicos e construída por um homem novo que procure a dignidade da sua condição de ser criado à imagem e semelhança de Deus.

É este um desafio crucial lançado a todos os homens, com os cristãos na primeira linha. Fosse ele aceite e por ele se lutasse – e radicalmente diferente seria o mundo. Nunca a paz e a justiça estariam condenadas a ser apenas uma utopia, nunca a liberdade seria usada ao sabor de todos os interesses, nunca as desigualdades existiriam, cavando um fosso de vergonha entre ricos e pobres, nunca o poder se transformaria em opressão e exploração.

Bastaria, afinal, que a Páscoa fosse sentida e vivida tal como é. Como a ponte para a redenção da humanidade.

Quer dizer que celebrar e viver a Páscoa deve conduzir a uma mudança que poderá ser mais ou menos profunda, mas que terá sempre como horizonte a prática do Bem e do Amor – que são os pilares da construção de um mundo melhor, seja o que for esse mundo: um indivíduo, uma comunidade, um país. Ou a terra inteira…

Foi, assim, uma extraordinária coincidência, cheia de simbolismo, acontecer em plena quadra pascal a histórica e corajosa resignação de Bento XVI e a eleição de um novo Papa, Francisco I.

Sinais de mudança, sem dúvida.

Tanto a decisão de Bento XVI, que não tem paralelo há centenas de anos, como a escolha do seu sucessor vêm imbuídas de uma brisa de mudança que parece querer sacudir a Igreja, num momento particularmente importante do mundo a nível económico, político e social, com destaque para a crise que assola a Europa.

É um momento em que a Igreja precisa de reforçar a sua atenção e a sua capacidade de intervir, com a influência da sua voz e pelo seu exemplo, na defesa dos pobres e injustiçados, na denúncia dos atropelos aos direitos humanos, na luta contra a fome e a miséria. E o Papa Francisco já afirmou, várias vezes, com a serenidade que torna mais convictas as palavras e as atitudes, que esse será prioritariamente o seu caminho como Bispo de Roma.

Foram, apenas uma mudança de estilo e uma maior proximidade que cativaram os milhões de fiéis que o seguiram e ouviram. Isso chegou, porém, para criar uma clara expectativa sobre a nova dinâmica que o Papa Francisco conseguirá imprimir à acção da Igreja no mundo e à resolução dos problemas internos do Vaticano.

Não há dúvida: esta Páscoa foi, verdadeiramente, a… Páscoa.