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Monjas Concepcionistas
Um novo pulmão para a Diocese de Lisboa
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Disseram, um dia, o ‘sim’ definitivo à vida monástica, de silêncio e oração, deixando de lado um mundo cheio de problemas. Mas do lado de dentro dos muros do novo mosteiro das Monjas Concepcionistas, no Monte Estoril, o isolamento é apenas físico, porque o coração chega a toda a humanidade.

 

Chegaram à Diocese de Lisboa há muito pouco tempo. No início do mês de abril, as Monjas Carmelitas Descalças deixaram vago o Carmelo do Sagrado Coração de Jesus, no Monte Estoril, dando assim lugar a um novo mosteiro da Ordem da Imaculada Conceição – vulgarmente conhecidas por Monjas Concepcionistas –, fundada por uma ‘desconhecida’ santa portuguesa: Santa Beatriz da Silva.

Um dia antes da abertura oficial, este novo mosteiro abriu as portas ao Jornal VOZ DA VERDADE que testemunhou uma grande azáfama para que tudo estivesse pronto para o grande momento festivo e celebrativo, presidido pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, que iria decorrer na terça-feira, dia 30 de abril. “Tivemos de fazer algumas obras de adaptação”, frisou a abadessa deste novo mosteiro que é, por enquanto, uma filial do mosteiro de Viseu. “As irmãs carmelitas têm um estilo de vida diferente do nosso. Nós contactamos com o exterior também, embora não saíamos fora senão naquelas situações que estão previstas, como o tratar de assuntos administrativos, ir ao médico, votar... Por isso, precisámos de fazer algumas adaptações para podermos contactar com as pessoas sem sairmos lá fora. E para isso começámos pela igreja”, referiu a irmã Deolinda Tavares Alves, explicando que foram retiradas as grades que separavam a clausura do espaço celebrativo da igreja.

 

Vocações antecipam chegada

A chegada desta Ordem religiosa contemplativa à Diocese de Lisboa acontece por pedido do Cardeal-Patriarca, D. José Policarpo, que, assim se “une ao desejo” que esta ordem tinha de “fundar um terceiro mosteiro em Portugal”, depois dos de Campo Maior e Viseu.  Embora não se considerassem ainda preparadas para abrir mais um mosteiro no país,  o facto de terem surgido na Diocese de Lisboa diversas vocações de vida contemplativa para aquela Ordem, terá pesado na decisão de avançar. “Lançámo-nos nesta aventura confiando na Providência de Deus”, sublinha a irmã Deolinda, observando que tiveram, também, o acordo e o apoio do Bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, onde está sediado o mosteiro que agora fica ligado ao Monte Estoril.

Na comunidade de Viseu vivem dezasseis irmãs, das quais “cinco estão na formação inicial: três noviças e duas juniores,” releva a madre abadessa. Para esta nova comunidade contemplativa que na passada terça-feira, 30 de abril, abriu oficialmente no Monte Estoril, vêm quatro dessas irmãs de Viseu e outras duas que “ainda hão-de chegar do Equador”, refere a irmã Deolinda Alves. “Eu estarei aqui conforme as necessidades”, observa a abadessa salientando o facto de este mosteiro ser uma filial de Viseu.

 

Missão pela oração

Responder a uma vocação para vida contemplativa pode ser, para alguns, considerado como “o isolar-se do mundo”.  Mas numa dimensão mais profunda e segundo a irmã Deolinda Alves, “a vida contemplativa na Igreja é como um pulmão das zonas verdes das grandes cidades. Hoje em dia, anda tudo a correr, com uma vida muito agitada. As pessoas não têm tempo para coisa nenhuma e muito menos para rezar. Muitas pessoas não sabem, ainda, que toda a nossa vida pode ser uma oração. E sempre diante de Deus há alguém a interceder, a bendizer o Senhor, a louvar o Senhor, em nome de todos”, garante a abadessa do mosteiro do Monte Estoril. “Nós estamos aqui em nome de todos! Não estamos aqui fechadas por um egoísmo ou porque vamo-nos salvar desta forma....”, realça, explicando a dimensão universal da missão a que são chamadas. “Nós estamos na Igreja para a Igreja e a nossa missão é a oração”.

 

Rezar pelos problemas do mundo

Embora sujeitas à clausura, e por isso aparentemente fora do mundo, as Monjas Concepcionistas rezam por todas as intenções que chegam de várias partes do mundo, submetendo à oração os mais diversos problemas que a sociedade de hoje enfrenta. “Temos a experiência de que muitos missionários nos vêm pedir oração. Escrevem-nos de diversas partes do mundo a pedir oração dizendo-nos que ‘sem essa força’, não conseguiriam superar dificuldades. Está registado nas nossas constituições que as irmãs levem em seu coração, todos os homens, todas as necessidades, todos os problemas, anseios e esperanças da humanidade. E é isso que fazemos diante do Senhor. Estar ali em nome de todos, para bem de todos”, garante.

“As pessoas pensam, normalmente, que nós por estarmos aqui fechadas não sabemos nada do que se passa no mundo. Mas nós conhecemos os problemas do mundo porque eles vêm cá ter. Todos os dias nos pedem orações, trazem os seus desabafos. De todos os níveis e categorias sociais, acompanhamos os problemas da humanidade. É essa a nossa missão”, reforça a irmã Deolinda.

 

Vocações contemplativas de Lisboa

Nos últimos tempos têm entrado nesta Ordem religiosa de vida contemplativa diversas jovens oriundas da Diocese de Lisboa. “A última jovem a entrar na nossa Ordem é de Sintra. Uma outra é de Rio de Mouro e fez os primeiros votos em outubro passado. Outra, já com votos solenes, é da Lourinhã”, salienta a abadessa. No Patriarcado de Lisboa são diversos os sacerdotes que mantem proximidade com os mosteiros das Monjas Concepcionistas, e talvez por isso tenham surgido estas vocações no seio da diocese. “Conhecemos alguns padres desde que são seminaristas e têm mantido uma ligação muito forte connosco”, comenta a madre abadessa, explicando que algumas destas vocações surgiram de uma “simples visita” ao mosteiro com o intuito de o conhecer. “A vocação é dom de Deus e Nosso Senhor vai suscitando vocações”, garante.

 

O dia no mosteiro

O ritmo de uma vida contemplativa é exigente e marcado, sobretudo, pelo tempo dedicado à oração. No mosteiro das Monjas Concepcionistas, o dia começa pelas 6h da manhã, com o despertar, ao que se segue, cerca de meia hora mais tarde, a oração de Laudes, como primeiro tempo de oração. Ao terminar, por volta das 7h, segue-se uma hora de adoração. “Em Viseu temos a Missa às 8h15 pelo que rezamos a Hora Tércia antes da Missa”, refere a abadessa. A seguir à Missa é tempo de tomar o pequeno almoço, seguindo-se os trabalhos do dia. “Cada irmã está encarregada de um sector e os trabalhos domésticos são rotativos”. Para além dos trabalhos domésticos, as monjas trabalham em paramentaria, no caso do mosteiro de Viseu. Durante as horas de trabalho, a marca é o silêncio. “O dia é passado em silêncio. Falamos o necessário para os trabalhos que estamos a executar”, observa. Durante o tempo de trabalho, de manhã, têm quinze minutos de leitura espiritual e rezam “a Coroa das Sete Alegrias de Nossa Senhora”. Antes do almoço rezam a Hora de Sexta e às 12h45 é o almoço. Depois da refeição há tempo de recreio, que se prolonga até às 14h. “É um tempo onde falamos, nos expandimos e onde todas as irmãs procuram estar presentes”. Depois desse tempo de recreio as monjas têm uma hora de recolhimento maior, onde cada irmã recolhe à sua cela e pode ler, escrever e “se precisar”, descansar. Às 15h rezam a Hora de Noa e fazem a exposição do Santíssimo Sacramento, diante do qual permanecem em oração durante toda a tarde, em turnos distribuídos pelas irmãs. Durante a tarde também há tempo de trabalho, durante o qual fazem leitura formativa e rezam o Terço. Às 17h terminam o trabalho, merendam e das 17h30 às 18h30 têm uma hora de formação. Pelas 18h30 rezam a oração de Vésperas, a que se segue outra hora de adoração pessoal e o Terço em comum. Pelas 20h30 é recolhido o Santíssimo Sacramento e segue-se o jantar. “Depois do jantar há mais um tempo de recreio”. Por fim, reúnem-se para rezar “o  Oficio de Leitura antecipado”, as Completas e, pelas 23h, apagam-se as luzes. "Ao Domingo, de manhã, dormimos mais um bocadinho para descansar", destaca a abadessa.

Na comunidade têm acesso à internet, dispõem de correio electrónico, leem jornais e há televisão para ver, “de vez em quando” as notícias ou “algum acontecimento eclesial, ou outro, de maior relevância”. “Eu, como abadessa, tenho um rádio pequenino que quase todas as noites ouço, pelas 23h, para perceber o que se passa no mundo”, testemunha a irmã Deolinda Alves. “Poucas vezes vemos o telejornal porque coincide com as nossas horas de oração. Mas quando há uma noticia especial tentamos ver, ou gravamos para ver na altura do recreio. Ou então, participo eu às irmãs o acontecimento”, conta.

 

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“Fermento do mundo novo”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa pediu às Monjas Concepcionistas o seu “testemunho na diocese”, sublinhando que “a Igreja de Lisboa precisa de sentir que fazem parte dela grupos de pessoas que no recolhimento procuram dar cumprimento e tomar a sério a Palavra de Jesus”.

Na celebração eucarística a que presidiu, na passada terça-feira, dia 30 de abril, na igreja do mosteiro do Sagrado Coração de Jesus, agora comunidade monástica da Ordem da Imaculada Conceição, D. José Policarpo realçou que “só no amor de Jesus Cristo compreendemos o mundo em transformação e o mistério eterno de Deus”. Para o Patriarca de Lisboa, “mergulhar no amor de Deus só é possível em Jesus, se amarmos Jesus”. Nesse sentido, acentuou, que “toda a missão, todo o carisma, toda a procura deste mistério é da Igreja, tem a ver com a Igreja e é para a Igreja”. Por isso, deixa um apelo: “Temos de redescobrir, mais profundamente, que quem parte em missão ou luta neste mundo por ser um testemunho do mundo novo, e de quem se recolhe para descobrir o amor, não é só para si. É para edificar a Igreja que, na sua energia, há-de ser um fermento do mundo novo”.

 

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Uma Ordem com 524 anos

Aprovada pelo Papa Inocêncio VIII em 30 de abril de 1489, a Ordem da Imaculada Conceição foi fundada por Santa Beatriz da Silva, uma santa portuguesa “pouco conhecida” refere a irmã Deolinda Alves. Nascida em Campo Maior, no Alentejo, esta santa “pertencia à família real e foi muito nova para Espanha como dama daquela que foi a Rainha Isabel”. Porque era considerada de “grande beleza”, provocou o ciúme na rainha que a fechou num cofre por três dias. No entanto, não faleceu. “Beatriz ao ver-se ali fechada recorreu à Imaculada Conceição. Rezou pedindo a Nossa Senhora que lhe apareceu. Isto acontece 400 anos antes da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Nossa Senhora apareceu-lhe e disse: ‘Vou tirar-te deste cativeiro e irás fundar uma Ordem religiosa em honra da minha Imaculada Conceição. As tuas filhas vestirão como eu estou vestida’. Por isso temos o habito branco com a capa azul”, explicou ao Jornal VOZ DA VERDADE.

A Ordem da Imaculada Conceição está presente em diversos países do mundo, tendo cerca de 165 mosteiros na América Latina e em alguns países da Europa. El Salvador, Honduras e Índia são alguns dos lugares para onde as monjas estão agora "a avançar" com novas fundações, refere a irmã Deolinda.

texto e fotos por Nuno Rosário Fernandes
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