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Entrevista ao jornalista vaticanista Andrea Tornielli
“Toca-me o modo como o Papa Francisco está com as pessoas”
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O vaticanista Andrea Tornielli assume que se sente marcado pela disponibilidade do Papa para estar com as pessoas. Em entrevista à jornalista da Rádio Renascença Aura Miguel, também ela vaticanista, Tornielli considera que existe continuidade nas mensagens dos últimos Papas. O jornalista vaticanista esteve esta semana em Portugal para apresentar o seu novo livro com a biografia do novo Pontífice, intitulado ‘Francisco, O Papa de Todos Nós’.

 

Quando conheceu o Cardeal Bergoglio?

Conheço-o desde há quase dez anos. Conheci-o em Roma, através de dois grandes amigos, meus vizinhos que, porque o conheciam, recebiam a sua visita em casa. Por isso, foi um conhecimento mais de amizade, que profissional.

 

No entanto, entrevistou o Cardeal Bergoglio poucos meses antes de ser eleito Papa?

Sim, aconteceu logo a seguir ao Consistório de fevereiro de 2012. Estávamos num momento em que muito se falava do tema ‘Vatileaks’ e fiz-lhe uma entrevista muito longa sobre esses temas e, também, sobre a vida interna da Igreja.

 

Entre tantos outros cardeais, porque escolheu o Cardeal Bergoglio para entrevistar?

Em todos estes anos que o conheci, nunca lhe tinha feito uma entrevista, por um motivo muito simples: nestes encontros e nos contactos que íamos estabelecendo não tinha vontade de fazer de jornalista. Gostava de o ouvir, quase como um filho espiritual. Tocava-me a sua espiritualidade, a sua pessoa e o seu olhar sobre a Igreja. No entanto, quando estávamos em época de ‘Vatileaks’ e tudo aquilo que ia emergindo, perguntei-lhe se estava disposto a conceder-me uma entrevista, e ele respondeu que sim.

 

Como define o Cardeal Bergoglio enquanto homem de Igreja?

Parece-me ser uma pessoa que tem toda a espiritualidade de Santo Inácio de Loyola, dos Jesuítas. É profundamente latino-americano e tem uma visão da Igreja que coloca em conjunto dois elementos: em primeiro lugar, uma grande ligação à devoção popular e à tradição popular. Pensamos na devoção aos santos, São José e Santa Teresa do Menino Jesus, à oração do Terço... Quantas vezes nos falou já de Maria! Portanto, está presente toda esta devoção e tradição popular muito tradicional. Ao mesmo tempo, tem uma grande visão muito aberta ao futuro, muito aberta do ponto de vista social com a ideia, que me parece fundamental, de que neste momento e neste tempo, sobretudo, a Igreja deve facilitar a fé das pessoas antes de a regular. Esta sua ideia parece-me muito bela, mas por isso mesmo ele foi criticado; por conceder os sacramentos depois de catequeses muito rápidas e por batizar muita gente, o que fazia durante as peregrinações. Este é o primado da graça que age mais do que a preparação que existe.

 

O facto de ser Jesuíta, mas ter escolhido o nome Francisco – que tem uma grande sensibilidade pela pobreza, os problemas sociais e, ao mesmo tempo, a grande solidez no seu discurso –, é sinal de alguém que se sente independente?

Sim, concordo. Mas parece-me que quando fala dos pobres não é ideológico mas evangélico. Há quem fale em pauperismo e demagogia, mas a palavra pauperismo inventou-a quem não conhece os pobres. Ele conhece os pobres e estão no Evangelho. No entanto, nunca fala de modo ideológico. É também muito interessante que nas ‘vilas misérias’ ele superou uma certa aproximação da Igreja nos anos 70. Era uma aproximação ideológica que colocava o pobre em destaque e considerava-o destinatário de uma pastoral especial. A sua grandeza foi aquela de fazer sentir as ‘vilas misérias’ como uma parte normal da diocese. Enviando padres para esses lugares, fundando paróquias... mas sem os considerar como 'os pobrezinhos'. Por isso, existem missionários que partem dessas vilas para ir fazer evangelização nos bairros mais ricos. Esta parece-me ser uma característica sua, a de não ser ideológico quando fala de pobreza.

 

Como podemos entender o facto de o Papa Francisco não ter querido usar os sapatos vermelhos, de ter adotado um estilo totalmente diferente que é para alguns considerado demagógico e popular?

É preciso distinguir as coisas. Tinham sido preparados 45 pares de sapatos vermelhos para quem quer que fosse eleito Papa. Mas o Cardeal Bergoglio tem um problema nos pés que faz com que tenha de usar sapatos ortopédicos, que são um pouco grandes. Com os sapatos vermelhos tornar-se-ia algo ridículo. Por isso, mesmo usa sapatos pretos. É verdade que simplificou um pouco as coisas mas essa é a sua característica, o seu carácter. A mitra que leva consigo é sempre a mesma, mas isso faz parte da sua maneira de ser. No entanto, toca-me o facto de que ele, porém, não mudou a liturgia, em relação a Bento XVI. Introduziu alguns elementos de maior simplicidade. Não canta, porque não consegue cantar. É de loucos pensar que a continuidade do Papado está nos sapatos vermelhos. O próprio Papa João Paulo II usava sapatos pretos, vermelhos e castanhos. Ratzinger usou um pastoral de Pio IX diferente do que usava Paulo VI. Agora o Papa Francisco pegou no pastoral de Paulo VI. O problema é a mensagem, porque todos os Papas foram diferentes. Na mensagem, porém, encontro uma grande continuidade, porque ambos os Papas, Bento XVI e Francisco, mostram uma grande humildade e fazem ver nos seus gestos, atos e palavras que mostram que quem conduz a Igreja não é o Papa mas o Senhor. Eles são os vigários, e não são assim tão importantes ou tão protagonistas! Isto é o que importa, mais do que os sapatos!

 

O que mais o marcou nestes três meses de Pontificado do Papa Francisco?

Marcou-me, acima de tudo, a sua aproximação às pessoas. Este é, de facto, um carisma seu, que lhe deriva, certamente, do facto de ser latino-americano, mas também por ter sido bispo durante vinte anos. Toca-me, sobretudo, o modo como ele está com as pessoas. Nas audiências de quarta-feira, o Papa passa cerca de hora e meia, entre o antes e o depois da audiência, junto das pessoas. Qualquer um que o veja, pode pensar que não tem nada melhor para fazer, mas na realidade, para ele, não há nada melhor para fazer do que ser assim com as pessoas. Estar com os doentes, abraçar os doentes... este é o grande aspeto que me marca. O outro aspeto é a capacidade de dizer palavras profundas sobre o Evangelho, mas muito compreensíveis. As homilias em Santa Marta são um grande dom. Todos pensam que ele fala de improviso mas aquelas homilias são o fruto de duas horas de oração de meditação matutina, porque o Papa levanta-se às 4h30 da manhã e reza durante duas horas diante do Santíssimo, sobre as leituras do dia. Portanto, quando fala e diz coisas que meditou profundamente, sinto-me muito marcado. Por outro lado, a síntese mais importante e que me toca ainda mais, é a grande mensagem da misericórdia, como a mensagem maior de Deus e, em particular, de Jesus. O facto de que Deus nunca se cansa de nos perdoar é um grande chamamento ao regresso à Igreja, a aproximar-se, seja qual for a nossa condição e situação de vida. Neste âmbito, ao fazer entrevistas, interpelou-me muito ver que houve muita gente que, ouvindo estas palavras, voltou a aproximar-se da confissão. Portanto, também aqui, se vê que existe uma coragem no gesto de Bento XVI ao renunciar e no facto de os cardeais elegerem um Papa que consegue dizer, agora, estas palavras e criar esta grande corrente de simpatia popular.

 

O que espera deste grupo de oito cardeais que o Papa nomeou?

Espero que seja feita uma reforma na Cúria romana, e neste sentido é uma coisa muito coral porque, para além dos oito cardeais, todos os cardeais durante o pré-conclave falaram da reforma da Cúria. Portanto, o Papa simplesmente colocou em andamento uma coisa que todos tinham falado. Na minha opinião, espero que a Cúria seja, não um órgão central de governo da Igreja mas, simplesmente, um instrumento ao serviço da missão do Papa.

 

Tendo em conta tudo o que se tem dito, acredita que Francisco será capaz de ‘limpar’ a casa?

Antes de vir para o Conclave, o Cardeal Bergoglio, respondendo a perguntas de um grupo do Movimento de Schoenstat, em Buenos Aires, traçou o perfil do novo Papa e disse que deveria ser alguém que conseguisse ‘limpar’ a Cúria romana. Parece-me, por isso, ser um homem que decide e toma decisões, não se deixa governar, e saberá tudo da situação interna e fará grandes mudanças.

 

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Perfil

Andrea Tornielli, vaticanista, jornalista do diário La Stampa e do site Vatican Insider, colabora com várias revistas italianas e internacionais. São numerosas as suas publicações, entre as quais ‘Piemme: Pio XII, o Papa dos hebreus’, ‘Papa Luciani. O sorriso do santo’, ‘Bento XVI. O guardião da fé’ e ‘Carlo Maria Martini. O profeta do diálogo’.

Casado e pai de três filhos, esteve em Portugal, nos dias 17 e 18 de junho, a convite da editora Esfera dos Livros para apresentar a biografia do novo Pontífice, ‘Francisco, O Papa de Todos Nós’, da sua autoria.

 

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Sinopse: ‘Francisco, O Papa de Todos Nós’

A 13 de março, depois de um Conclave de apenas cinco escrutínios, o mundo conheceu um novo Pontífice, Jorge Mario Bergoglio. O primeiro Bispo de Roma jesuíta, o primeiro latino-americano, o primeiro a escolher um nome para si, que ao longo da história, nenhum outro Papa jamais se atrevera a impor a si próprio: Francisco. A profundidade do seu olhar, a forma como saudou a todos na Praça de São Pedro com um espontâneo «boa noite», o permanecer igual a si próprio, simples, preferindo a sua cruz de ferro ao ouro, recusando a murça e os sapatos vermelhos, passando por cima de protocolos oficiais e o facto de iniciar de forma firme e surpreendente um conjunto de reformas necessárias, tocaram o coração de milhões de fiéis. Na primeira e mais atual biografia do Papa Francisco, o jornalista vaticanista Andrea Tornielli, que teve a oportunidade de, por diversas vezes, privar com Bergoglio, esboça a personalidade de um homem de Deus, filho de imigrantes, humilde e cordial, que fez da radicalidade evangélica e da mensagem da misericórdia os pilares da sua ação pastoral, num país como a Argentina, atormentado por desequilíbrios sociais e económicos. No relato de uma vida, das suas palavras e das ideias, dos testemunhos e das recordações pessoais do Papa Francisco, emergem as chaves para a compreensão da novidade de um Pastor capaz de encarnar as necessidades de renovação desde há muito presentes na Igreja universal. Numa entrevista muito recente concedida a Tornielli, o cardeal Bergoglio apontara a autorreferencialidade, a vaidade e o carreirismo como os males mais graves da Igreja. O início do seu Pontificado faz-nos pressagiar um novo caminho, o de uma Igreja missionária e próxima das pessoas. Uma missão que une o Papa, o clero e o povo de Deus: fazendo dele o Papa de todos nós.

tradução por Nuno Rosário Fernandes
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