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A. Bagão Félix
Ainda e sempre a solidariedade
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A solidariedade é um bem social de mérito. Não se edifica senão por nós. Exige o melhor de cada um sob pena de ser uma aparência ou um simulacro. No limite, só frutifica quando o eu se transforma em nós e o nós em todos. Ou dito de outro modo: quando se dá sem pedir contrapartida. Não se trata, pois, de uma relação biunívoca feita de uma parte e contraparte, mas de uma relação distributiva construída numa só direcção. Numa analogia de um quase oximoro aritmético, multiplica-se dividindo e soma-se pela diferença.

Disse João Paulo II que é preciso “construir uma grande solidariedade de mentes, corações e mãos capaz de vencer as diferenças e as divisões”.

A mais espontânea e natural expressão solidária é a que advém dos laços de sangue e que tem o seu expoente na solidariedade familiar. Como bem dizia Jean Duvignaud, a família é neste contexto ao mesmo tempo afectivo, relacional, biológico e social “um útero social para abrigar a cria humana”.

Vivemos um tempo de exacerbação do individualismo – ou para usar uma expressão do Papa Emérito Bento XVI, da “ditadura do eu em primeiro lugar”. Individualismo que erodindo a individualidade rapidamente se transforma no egoísmo social e ético. A este fenómeno de contágio, a solidariedade genuína pode contrapor-se como uma expressão contagiante e estimulante de educação para o bem comum. Dizia Gabriel Garcia Marquez: “Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”.

Socorro-me de Immanuel Kant para exprimir de outro modo o dever de solidariedade. Distinguia ele o dever passivo (obligatio obligati) do dever activo (obligatio obligantis). O primeiro é o que resulta da obrigação perante a lei, o contrato, a formalidade. Já o segundo, é a obrigação em que nos auto-constituímos. Ninguém nem nada nos obriga, a não ser a nossa consciência. Neste enquadramento axiológico, a solidariedade é um dever activo. Que nasce em nós e pode fermentar nos outros. É esta não obrigação da obrigação que lhe confere o seu profundo e inestimável valor personalista e resultado relacional.

A solidariedade não é uma posição, um estado. É um caminho, uma relação. De alguém para outrem. E por bem. Uma relação não necessariamente de proximidade geográfica ou física, mas de vontade e entreajuda. Para a solidariedade a noção da relação é mais a do próximo ainda que distante do que do vizinho ainda que perto. Nesse sentido, é necessário acrescentar à globalização das trocas, dos bens, dos movimentos a maior e mais completa de todas: a globalização da caridade.

A caridade é o grande património comunitário do Cristianismo. Caridade é muito mais do que filantropia, altruísmo ou assistência. É o oxigénio da doação social através da confluência do ter e do não ter através do ser. É amar sem contrapartida. Como se diz no Novo Catecismo Católico a caridade é “o fruto do Espírito e a plenitude da Lei”.

A caridade é a inteligência do coração e o coração da inteligência. Exige, como tão bem disse Jean Guitton, “o esquecimento de nós mesmos”. Ou como S. Paulo: “a medida do amor é a de amar sem medida”.

A solidariedade altera a densidade social da pólis. A solidariedade só o é se for praticada como um valor e não como uma simples tecnicalidade.

Neste âmbito, é indispensável lutar por uma renovada ética de solidariedade. A solidariedade é um princípio ordenador para a realização do bem comum, tendo em atenção a “hipoteca social” que impende sobre qualquer bem privado ou público.

A solidariedade para ser genuína, autêntica, enriquecedora, geracional e persistente tem que se edificar de baixo para cima, potenciando os valores do voluntariado, da solicitude e da participação como alicerces de uma atitude criativa, espontânea de solidariedade não intermediada, menos burocrática, mais desinteressada e amiga, mais conforme à natureza do Homem.

Por outro lado, uma nova ética nas relações sociais pressupõe que o social não seja visto como um custo ou passivo, mas antes como um recurso indispensável para a geração de uma sociedade mais equilibrada. E se é certo que o social, desligado da necessária geração prévia de riqueza pode redundar em puro e inconsequente utopismo, não é menos verdade que as preocupações sociais não podem ficar submergidas pelo primado da economia e da produção, insensível à realidade social. Ambas as visões corroem o exercício da solidariedade.

A solidariedade deve ser concretizada como princípio ordenador, virtude moral, dever social e geracional, valor radicalmente humano e expressão de profunda responsabilidade pessoal. Solidariedade como expressão de vida livre em sociedade e não como uma norma exterior ou imposta. Solidariedade fundamentada em princípios inalienáveis de dignidade da pessoa humana e não em interesses circunstanciais. Solidariedade praticada como um estímulo activo e não como uma dependência estigmática. Solidariedade como referência de exemplaridade geracional e não como uma imposição ou constrangimento mais ou menos mecânico.