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António Bagão Félix
Ética das férias ou férias da ética?
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É necessário garantir o respeito de horários humanos de trabalho e de repouso

João Paulo II, in Centesimus Annus

 

As férias acabaram. Foi tempo de descanso depois de meses de trabalho, de canseiras, de escola, de filas para tudo e para nada.

As férias, como o descanso semanal, contêm em si o fundamento ético da sua necessidade. O direito ao repouso faz parte da natureza da pessoa humana desde os primórdios da humanidade: “Concluída no sétimo dia toda a obra que tinha feito, Deus repousou no sétimo dia do trabalho por Ele realizado. Abençoou o sétimo dia e santificou-o” (Gn.2,1-3).

O tempo de descanso não é um valor marginal em relação ao tempo de trabalho. O trabalho e o descanso contribuem, em alternância, para a realização da pessoa. Separá-los é, pois, um erro que se paga mais à frente. Como está escrito, o trabalho é para o homem, não o homem para o trabalho.

As férias não são incompatíveis com o código ético do trabalho. Não o contradizem, não o menorizam, nem mesmo beliscam o profissionalismo, o sentimento do dever cumprido, a exemplaridade laboral, o próprio prazer no trabalho.

As férias e o descanso semanal fazem parte da higiene e profilaxia dos desgastes, tensões e angústias. Tal como na disciplina corporal, importa ser rigoroso na disciplina do descanso. Essa disciplina pode até passar pela necessidade de um grande esforço para o não esforço. É que a quietude é exigente e precisa da pessoa no seu todo.

As férias têm que ser exigidas e, ao mesmo tempo, merecidas, porque o direito ao repouso nasce da realização conjunta do direito ao trabalho e do dever de trabalhar.

No mundo do trabalho são visíveis sinais preocupantes de desumanização das relações laborais e de desconsideração do envolvimento familiar.

Escreveu João Paulo II que para o homem, o trabalho não tem apenas um significado técnico, tem também um significado ético. E há anos os Bispos portugueses afirmaram que vivem lado a lado – até nas mesmas pessoas – as concepções da sociedade pós-laboral, “sem trabalho”, e a obsessão idolátrica do trabalho, que destrói a família e desumaniza as relações interpessoais.

Por tudo isto é cada vez mais importante reconhecer que se ter trabalho é um factor de esperança, ter tempo é um factor de harmonia. Trabalho sem tempo é tão perverso como tempo sem trabalho.

As férias, sendo uma oportunidade de recarga pessoal, são também um espaço de encontro familiar. De junção e não de afastamento. De oportunidade de multiplicar o tempo e não de desperdício de dividir os tempos. Por isso, as férias devem ser um tempo pela família (e com a família) e não um factor de desagregação contra a família.

Hoje é trivial, em certos meios designadamente urbanos, encontrar uma oferta alargada de alternativas de tempos livres que ignoram ou prejudicam a convivialidade entre diferentes gerações. Vemos, cada vez mais, as férias estratificadas por idades: filhos temporariamente em férias de pais e pais temporariamente em férias de filhos...

A ética no ócio não pode ser outra do que a ética no neg(ócio): austeridade e sobriedade como valores de exigência contra a permissividade que nunca fez ninguém feliz; autenticidade do ser com o estar e o fazer; simplicidade, carácter e coerência nas atitudes.

E, já agora não querendo “confessionalizar” as férias, para os que crêem... é bom não se pôr a relação com Deus em férias. Porque como escreveu Bento XVI, se Deus não está presente em nós, tudo se torna completamente insuficiente. Até mesmo... as férias!