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Movimento ‘Fé e Luz’
“Fazer sentir à pessoa com deficiência que ela não está só, nem é inútil”
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É um movimento que pretende ajudar os deficientes mentais a fazerem caminho de Igreja e que está presente em apenas uma paróquia do Patriarcado de Lisboa. O movimento ‘Fé e Luz’, no Catujal desde há cerca de nove anos, celebrou a padroeira com os seus ‘amigos especiais’.

 

“Uma das vocações de ‘Fé e Luz’ é fazer sentir à pessoa com deficiência que ela não está só, nem é inútil”. Esta frase do Papa João Paulo II dá o mote para a missão deste movimento na Igreja. Fundado em França há mais de 40 anos, este movimento tem atualmente apenas uma comunidade no Patriarcado de Lisboa. É na paróquia de São José de Nazaré do Catujal, que por sinal é uma das paróquias mais recentes criadas na diocese. Esperança Pereira é a coordenadora paroquial do movimento ‘Fé e Luz’ no Catujal, mas o que a liga a este movimento é muito mais do que a sua missão paroquial. “O meu sobrinho e afilhado, o Raúl, é um ‘rapaz especial’. É comigo que ele vem aos encontros do movimento e foi por esse motivo que eu entrei para o ‘Fé e Luz’”, partilha ao Jornal VOZ DA VERDADE. Raúl tem 23 anos e, apesar das necessidades especiais, “acolita semanalmente na Eucaristia”, fez “a Primeira Comunhão” e o ano passado “foi crismado”, refere, orgulhosa, a madrinha.

Esperança vive no Catujal há 35 anos e “praticamente desde a chegada de ‘Fé e Luz’ à comunidade”, por volta do ano 2005-2006, que integra este movimento da Igreja. “Gosto muito de comunicar com eles”, observa. No último ano, Esperança assumiu a coordenação paroquial de ‘Fé e Luz’. “Este movimento é uma paixão, que eu quero largar mas não consigo… Há alguma coisa que nos prende a ele! É o Divino Espírito Santo que nos dá esse toque!”, assegura, apontando que este movimento “é um caminho para dar”. Para o futuro, fica o desejo da chegada de mais ‘amigos especiais’ ao movimento e também a possível criação de mais comunidades ‘Fé e Luz’ em outras paróquias do Patriarcado de Lisboa. “Nós queríamos que houvesse mais jovens especiais a participar nos encontros do movimento ‘Fé e Luz’. Da mesma forma que era muito bonito haver mais paróquias na diocese que tivessem este movimento. Há muitas paróquias no Porto que têm o ‘Fé e Luz’, mas para nós é difícil deslocarmo-nos lá para conviver”, lamenta Esperança.

 

O rosto de Jesus

‘Fé e Luz’ é um movimento de origem francesa, que nasceu na Páscoa de 1971, com uma peregrinação ao Santuário de Lourdes de milhares de pessoas com deficiência mental, acompanhados de pais e amigos. Os fundadores deste movimento são Marie Helene Mathieu e Jean Vanier, que sentiram a necessidade de continuar o espírito da peregrinação. Neste sentido, os grupos que então se formaram para preparar a peregrinação continuaram a encontrar-se regularmente, procurando fazer caminho de Igreja com as pessoas com deficiência mental.

‘Fé e Luz’ chegou à paróquia do Catujal pela mão do atual pároco, padre Luís Manuel Alvarez Garcia, sacerdote espanhol da congregação dos Padres dos Sagrados Corações que conheceu o movimento no Rio de Janeiro, no Brasil, nos anos 80. “Este movimento chegou ao Catujal, timidamente, aproximadamente em 2005-2006. ‘Fé e Luz’ é constituído por comunidades pequenas, geralmente nas paróquias, em que a presença de Jesus é feita com aqueles que nós chamamos de ‘especiais’, os deficientes mentais, que podem ser leves ou profundos, num trabalho que é feito juntamente com as famílias e amigos”, aponta.

O objetivo do movimento, segundo o padre Luís Manuel, é “resgatar e abrir espaço para o dom do deficiente mental”. “Ele não é alguém que não sabe nada, que não entende nada, que é para deixar de lado. Pelo contrário! É alguém muito importante, porque primeiramente, do ponto de vista da fé, ele é também o rosto de Jesus. Depois, o deficiente mental tem um dom, que é o dom do coração, o dom de uma sensibilidade especial para o trato com as pessoas”, observa.

 

Partilha, oração e festa

Falando da realidade de ‘Fé e Luz’ na sua paróquia, o pároco do Catujal salienta que o movimento “demorou bastante tempo a implantar-se” e que “ainda está em crescimento”. “No Catujal, eu via na minha frente pessoas com deficiência mental, por isso convoquei as pessoas, fiz contactos com algumas famílias e aos poucos foi-se formando uma pequena comunidade”, conta. Até há pouco tempo, o movimento ‘Fé e Luz’ tinha seis ‘amigos especiais’. Hoje, contudo, são menos. “Temos quatro deficientes mentais no movimento, porque um deles foi recentemente para um lar e uma senhora deficiente mental morreu”, refere. Reforçando que o movimento “não é um grupo de terapia”, o pároco do Catujal observa: “Quando tratamos com ‘pessoas especiais’, a preocupação com o número, a preocupação com as grandes coisas terminam. Porque é outra dimensão, é outro tipo de dinâmica em que entramos!”, garante.

Nesta paróquia da Vigararia de Sacavém, o quarto Domingo do mês é de festa para o movimento ‘Fé e Luz’. O dia começa com a Eucaristia, às 8h45, e prolonga-se pela tarde. “Fazemos um encontro por mês, que se realiza em três tempos: o tempo de partilha, de colocar em comum a vida – sobretudo os familiares e irmãos dos deficientes sentem uma necessidade muito grande de pôr em comum, muitas vezes momentos de sofrimento, outros de alegria; o tempo de oração, geralmente utilizando muitos símbolos e canções; e o tempo de festa e de alegria, que é fundamental no ‘Fé e Luz’”, explica o padre Luís Manuel, sublinhando o papel do movimento na Igreja: “Um dos objetivos do ‘Fé e Luz’ é dizer às famílias que as ‘pessoas especiais’ são muito importantes para a Igreja, que são queridos por Deus, e que elas não podem ficar sozinhas com esta riqueza. ‘Fé e Luz’ é um presente que a paróquia recebe, porque é Evangelho em estado puro”.

Este sacerdote conhece o movimento ‘Fé e Luz’ há mais de 30 anos. Questionado sobre a forma como os ‘amigos especiais’ do movimento veem Deus, o padre Luís suspira interrogado: “Como eles veem Deus? Eu gostaria de saber… Porque o Deus que eles veem deve ser tão profundo, tão direto – porque eles são diretos em tudo! –, tão de coração a coração, que nós, que somos ditos ‘normais’, que temos tanta coisa com conhecimento e com a parte cognitiva, por vezes escapa-nos esse outro lado, que é a sensibilidade cordial, afetiva, que realmente é mais profunda. Os deficientes mentais veem Deus por esse lado e apesar de não O conseguirem falar, ‘falam’ d’Ele com os olhos e com outras formas de expressão”.

 

Romper a ilusão de que não há pessoas com deficiência mental nas paróquias

O movimento ‘Fé e Luz’ tem como padroeira Nossa Senhora das Candeias, cuja festa litúrgica é celebrada a 2 de fevereiro. O passado Domingo, dia 2, foi por isso de festa para a comunidade ‘Fé e Luz’ do Catujal, que recebeu a visita da comunidade de Évora deste movimento. A coordenadora nacional do movimento ‘Fé e Luz’ pertence a esta comunidade eborense e desafia, através do Jornal VOZ DA VERDADE, mais paróquias do Patriarcado de Lisboa a acolher este movimento nas suas comunidades. Olga Grilo entende que “era muito importante as paróquias acolherem este movimento”. “A presença do movimento ‘Fé e Luz’ seria uma forma de romper a ilusão de que não há pessoas com deficiência mental nas paróquias. Nós entramos nas Eucaristias e vemos lá os ‘amigos especiais’. Seria muito importante, tanto para eles, como para as famílias”, garante esta responsável, sublinhando que “além do isolamento social, muitas pessoas com deficiência mental sentem um isolamento da vivência da fé, que as famílias dificilmente rompem”. “É preciso muita força de vontade, e muita coragem, para fazer caminho sozinho”, destaca.

Coordenadora nacional do movimento desde o ano passado, Olga refere que este primeiro ano foi aproveitado “para refletir o contexto do ‘Fé e Luz’ em Portugal” e manifesta o desejo da criação de mais comunidades deste movimento, em especial “no sul do país”, onde apenas existe a comunidade de Évora e a do Catujal.

 

Crescer na fé e no amor, numa exigência de compromisso

Olga Grilo entrou para o ‘Fé e Luz’ há cerca de 12 anos, mesmo não tendo “ninguém na família com deficiência mental”, e sublinha que este é um movimento de caminho. “O movimento nasceu por causa do reconhecimento de que a pessoa com deficiência mental é tão amada por Deus como qualquer um de nós e precisa de crescer também na sua fé, com a sua forma de expressão, que é limitada, mas precisa de fazer esse caminho”. Neste sentido, observa, “os amigos do movimento, juntamente com os familiares, são os pares com quem os ‘amigos especiais’ fazem esse caminho”.

Olga pertence à comunidade de Nossa Senhora de Fátima, em Évora, e esteve presente na festa da comunidade do Catujal, no passado Domingo, dia 2 de fevereiro. “A nossa comunidade em Évora foi criada há 18 anos e está um pouco envelhecida. Há uma crise que julgo que é transversal a outras comunidades e outros movimentos: é difícil cativar jovens”. Salientando que “os jovens têm cada vez mais dificuldade em comprometer-se”, Olga sublinha que o movimento ‘Fé e Luz’ “exige compromisso”. “Este não é um movimento de serviço. Se fosse de serviço, o jovem ia, fazia o que tinha a fazer, e no mês que vem se não pudesse ir não fazia mal… No ‘Fé e Luz’ o que está em causa é construir, é as pessoas crescerem na fé, no amor, na consciência daquilo que são e descobrirem-se, através da amizade e dos laços que criam com o outro”.

A coordenadora nacional do movimento ‘Fé e Luz’ lamenta, por outro lado, que não participem nas atividades do movimento mais famílias que têm pessoas com deficiência no seu seio. Algo que pode ser explicado pelo “estigma que ainda há em relação a esta doença”. “Tal como há 10 ou 20 anos atrás, as pessoas continuam a ter medo de expor familiares com deficiência mental e a achar que não são compreendidas – e muitas vezes não são! – e escolhem fechar-se, porque é mais fácil”, aponta.

Sobre os encontros que o movimento ‘Fé e Luz’ organiza com os ‘amigos especiais’, Olga Grilo tem apenas uma palavra para os definir: alegria. “Os nossos encontros, e os momentos que partilhamos, são sempre marcados por muita alegria, apesar das dificuldades e de sabermos que todos temos sofrimentos na nossa vida”.

 

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Símbolo ‘Fé e Luz’

O símbolo do ‘Fé e Luz’ é representado por uma barca iluminada pelo sol que começa a sair de nuvens negras. Foi criado na altura da primeira peregrinação a Lourdes por Meb, um pintor portador de síndrome de Down, depois de lhe pedirem que desenhasse ‘Fé e Luz’. Meb pediu à mãe para lhe ler a Carta da primeira peregrinação de ‘Fé e Luz’ e depois iniciou o trabalho. Fê-lo intuitivamente pois não sabia contar. Colocou no esboço os doze apóstolos e disse: “Jesus dorme no fundo da barca. Mas nós não devemos ter medo, porque o Seu coração está atento”.

Neste símbolo, há uma legenda que acompanha o desenho: “As nuvens abriram-se e a tua Luz, Senhor, veio até nós”.

in www.feeluzportugal.org

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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