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Guilherme d’Oliveira Martins
Como a Exortação é de facto inovadora
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Regresso à Exortação Apostólica «Evangelii Gaudium» para insistir no seu caráter inovador. Na conferência do Patriarca de Lisboa, D. Manuel, de 6 de fevereiro, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, antecedida pela intervenção de Diogo Costa Gonçalves e seguida de um debate em que tive o gosto de participar com Francisco Sarsfield Cabral, Francisco Louçã, Eduardo Vera-Cruz Pinto e Eduardo Paz Ferreira, pareceu haver uma divisão entre quem preferia salientar a continuidade e quem enfatizava a novidade. Sou, como já afirmei aqui, dos que salientam a novidade e o ineditismo deste documento – e devo dizer que naquela manhã, entre os participantes não vi antagonismo, uma vez que todos salientaram o caráter inovador da Exortação. É evidente que há elementos de continuidade e os princípios conhecidos da doutrina social da Igreja, contudo houve da parte do Sumo Pontífice uma preocupação de abrir novas perspetivas e horizontes. É a dinâmica dos direitos fundamentais da pessoa humana que está em causa. É a resposta à crise financeira atual que merece consideração. É um sobressalto apostólico que está suscitado, uma vez que uma certa inércia europeia, bem como o eurocentrismo, são postos em causa.

Há um apelo exigente ao desenvolvimento humano e à justiça, que não tem a ver com respostas ideológicas, mas com um apelo inequívoco à centralidade da dignidade da pessoa humana, da inclusão e do respeito mútuo por todos. Daí a transversalidade e o caráter abrangente desta exortação destinada, antes de mais, aos cristãos, na sequência do Documento de Aparecida, da Conferência do Episcopado da América Latina (CELAM), de 2007, e da reflexão da XIII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, de 2012, sobre «A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã». Se é certo que estamos perante um documento para a Igreja Católica, a verdade é que se trata de um alerta que ultrapassa em muito as fronteiras dos fiéis, uma vez que, na linha da Encíclica «Caritas in Veritate» (dirigida a todas as pessoas de boa vontade), há um apelo contra a perigosa tendência para o agravamento das desigualdades e para o aumento das massas da população excluídas e marginalizadas, consideradas como resíduos ou sobras. Dizer que «esta economia mata» é, assim, pôr a tónica no valor da humanidade, da verdade e da vida. E neste ponto há uma audaciosa referência ao princípio fundamental da economia segundo o qual «o que tem mais valor é o que não tem preço» (François Perroux).

Lembremos algumas afirmações fortes: temos de recusar uma economia de exclusão (cf. E.G., 53), do mesmo modo que não podemos conciliar com uma nova idolatria do dinheiro, uma vez que «a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano» (E.G., 55). A «crise mundial, que acomete as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo» (Ib.). A especulação e o mercado divinizado esquecem as pessoas. O dinheiro não pode governar em vez de servir (cf. E.G., 57 e ss.) e não devemos esquecer que a desigualdade social gera violência. E o Papa é claro: «Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos veem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes». (E.G., 60).

O Sumo Pontífice recusa, assim, o «pessimismo estéril», citando o Papa João XXIII na abertura do Concílio: «Chegam-nos aos ouvidos insinuações de almas, ardorosas sem dúvida no zelo, mas não dotadas de grande sentido de discrição e moderação. Nos tempos atuais, não veem senão prevaricações e ruínas. Mas a nós parece-nos que devemos discordar desses profetas da desgraça, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo» (E.G., 84). Haverá mensagem mais inovadora?