Lisboa |
Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina
Cem anos a apoiar raparigas deslocadas do ambiente familiar
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O Patriarca de Lisboa entende que a celebração do centenário da Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina (ACISJF) pode ser o momento propício para retomar a inspiração das fundadoras desta obra. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, a presidente desta associação católica fala do desejo de chegar brevemente a todas as raparigas que no passado foram ajudadas pela ACISJF.

 

É porventura um dos mais deslumbrantes e inesperados miradouros de Lisboa. Falamos do último piso do prédio nº 1 da Travessa do Ferragial onde funciona a sede da ACISJF – Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina, uma obra católica que acolhe, orienta e apoia a rapariga, de qualquer credo ou raça, quando deslocada do seu ambiente familiar. Maria da Conceição Affonceca é, desde há mais de 10 anos, presidente da direção da junta nacional desta associação que neste ano 2014 assinala o centenário da chegada a Portugal. “A ACISJF, que antigamente se chamava obra de proteção, visava precisamente proteger as raparigas e evitar os perigos que pudessem correr quando estivessem fora dos seus ambientes familiares”.

Esta associação foi fundada em Friburgo, na Suíça, em 1897, e chegou ao nosso país uns anos mais tarde, em 1914, no contexto da I Guerra Mundial. “Naquela época, iam para a tropa os irmãos, os maridos, os namorados e os pais das raparigas, que ficavam inativas. A senhora D. Maria Emília Brandão Palha esteve na Suíça e trouxe de lá a ideia e implantou-a em Portugal, porque percebeu que a associação era uma maneira de ocupar as raparigas e de as valorizar, dando formação a todos os níveis”, conta Maria da Conceição. “Uma das coisas que acontecia, naquela época, era as raparigas do campo quererem vir servir para a cidade. Eram ‘criadas de servir’ e algumas aventuravam-se a trazer consigo apenas uma cestinha com roupa, metiam-se no comboio e apareciam em Lisboa sem saber para onde ir…”, acrescenta a presidente da ACISJF, sublinhando o papel que esta associação católica teve há 100 anos atrás: “Na estação de caminho-de-ferro do Rossio, e mais tarde em Santa Apolónia, as senhoras da ACISJF, com uma identificação que consistia numa braçadeira amarela, tinham um gabinete cedido pela CP, e quando viam uma rapariga mais ou menos perdida ou até a ser abordada por alguém que inspirava menos confiança dirigiam-se a elas, perguntavam o que queriam e encaminhavam-nas para o lar na Costa do Castelo”. Era neste local que as raparigas do campo que vinham para a cidade à procura de um futuro melhor “recebiam, principalmente, formação doméstica”. “Quando estivessem preparadas, as senhoras da ACISJF arranjavam-lhes uma casa de família, de confiança, para elas irem trabalhar”, conta.

 

Mudança de realidade: do serviço para o estudo

Uns anos mais tarde, perto da década de 50-60, as raparigas que começavam a chegar a Lisboa vinham com o intuito não de servir mas de estudar. Esta mudança de paradigma obrigou a associação católica a adaptar-se aos novos tempos de então. “Nos estatutos há uma frase que diz ‘a obra adapta-se às circunstâncias de cada época’. Isto é que é importante! As raparigas chegavam com a sua malinha e por isso fundaram-se lares para estudantes. Aqui em Lisboa havia um lar em três andares, na Avenida Visconde Valmor, com mais de quarenta lugares”, refere.

Foi também por esta altura que a então jovem Maria da Conceição Affonceca conheceu a Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina, pela mão de um sacerdote que anos mais tarde foi nomeado bispo. “Eu pertenci à Ação Católica, mais concretamente à JIC [Juventude Independente Católica], na minha paróquia do Coração de Jesus, e o senhor padre Aurélio Granada Escudeiro, que viria a ser Bispo de Angra, nos Açores, era o assistente nacional da associação e convidou-me para vir ajudar a ACISJF. Como a JIC tinha acabado na minha paróquia, eu aceitei e aqui estou há 45 anos. Comecei por colaborar no boletim da associação, que na altura era mensal. Depois fui vice-secretária e secretária”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. A chegada à presidência desta associação católica aconteceu no contexto do falecimento da anterior presidente. “Nós tínhamos uma ótima presidente, que era a Isabel Xara-Brasil, que adoeceu e morreu. Eu era vice-presidente, nessa altura, e tive de ocupar o cargo, mas foi uma coisa muito inesperada”, observa a atual presidente, que é natural de Lisboa, formada em línguas estrangeiras e fala fluentemente cinco línguas, além do português: francês, inglês, espanhol, italiano e alemão.

 

Presença e proximidade

A Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina assinalou em Lisboa, no passado dia 3 de abril, o centésimo aniversário da chegada a Portugal. Na Basílica dos Mártires, ao Chiado, o Patriarca de Lisboa associou-se a esta celebração, para “dar graças a Deus pelo feliz centenário” da ACISJF. “Esta é uma obra que eu tanto prezo, com a qual contactei aqui em Lisboa, depois muitíssimo no Porto e agora de novo em Lisboa, e cuja história e cujo historial de presença e de proximidade em relação essencialmente com as jovens também tenho muito presente”, recordou, desde logo, D. Manuel Clemente, lembrando a história desta obra: “Muito bem me lembro, como qualquer pessoa da minha idade, de ver nas estações de caminho-de-ferro as senhoras desta associação empunhando um cartaz dizendo às raparigas que chegavam onde é que podiam ser acolhidas, e muito bem acolhidas, para serem assim preservadas de muitos perigos que efetivamente pendiam sobre elas”.

Na presença do Núncio Apostólico, D. Rino Passigato, e do pároco das paróquias de Sintra, padre Armindo Elias dos Reis, devido à presença nesta paróquia de um centro de acolhimento da associação, o Patriarca de Lisboa considerou que a celebração do centenário da ACISJF, que tem como lema ‘100 anos de Presença Viva’, pode ser o momento propício para retomar o que foi a inspiração das fundadoras desta obra. “Dou graças a Deus porque esta obra é uma obra iminentemente apostólica e evangelizadora, que tem de encontrar hoje, e amanhã, os caminhos que a relancem na mesma senda! Porque juventude para ser acompanhada, e ainda protegida – porque não! –, temo-la de sobra! Daí que esta celebração, sendo de ação de graças, é certamente também para pedir a Deus a inspiração, a força e a coragem para as atuais militantes, no sentido do futuro e de reencontrar, agora, a maneira de concretizar a sua inspiração e, porque não, o seu carisma de sempre”, salientou.

 

As obras como expressão de Cristo no mundo

Na Eucaristia na Basílica dos Mártires estiveram presentes representantes da ACISJF em Espanha, França e Itália. D. Manuel Clemente frisou, por isso, que as obras que os cristãos realizam são expressão de Cristo no mundo. “Aqui mesmo, estamos a celebrar os 100 anos das ACISJF como expressão neste mundo, e em relação a casos concretos e a situações precisas, da obra de Cristo, que assim mesmo se verbaliza! Estais a ver, minhas irmãs e meus irmãos, da importância que tendes, que tiveste e que haveis de ter! Porque, repito, as cidades a que correspondeu a ACISJF são cidades que continuam, estão aí patentes, crescentes até”, alertou.

O Patriarca de Lisboa falou também da palavra crise, “no sentido etimológico do termo”, como “um momento que exige um juízo e uma decisão”, para reforçar o pedido à ACISJF para repensar o seu papel na sociedade. “Uma crise é aquilo que correntemente altera o sentido dos acontecimentos e das expectativas, o curso normal das coisas. Hoje, concretamente na juventude, e na juventude feminina, então não há um tempo de crise, para tantas e tantíssimas delas? Então, como é que não se há-de retomar o que foi a inspiração das fundadoras e dos fundadores da ACISJF para agora concretizar para a resposta que urge? É importante, é importantíssimo, e é isso que estamos aqui, hoje, a pedir!”, observou D. Manuel Clemente.

Durante a celebração, o Núncio Apostólico em Portugal entregou à direção desta associação uma bênção papal. “A benemérita missão de integrar, formar e valorizar jovens mulheres privadas do seu ambiente familiar, ao longo de um século de entrega generosa e desinteressada, no espírito do Evangelho, não deixou de produzir bons frutos”, refere a bênção do Papa Francisco.

 

Presença atual no mundo e em Portugal

Além de Portugal, a Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina está presente em diversos países de quatro continentes: Europa (Alemanha, Espanha, França, Grécia, Itália e Suíça), África (Benim, Camarões, Chade, Ilha Maurícia, República Democrática do Congo e República do Congo), América Latina e Caraíbas (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Haiti, México, República Dominicana e Uruguai) e Médio Oriente (Líbano). Neste momento, nos Estados Unidos da América têm decorrido contactos para iniciar um projeto da ACISJF neste país.

A Junta Nacional da Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina, com sede em Lisboa, coordena as atuais cinco juntas diocesanas, em Braga, Faro, Funchal, Porto e Viana do Castelo. Em Portugal, esta associação católica presta diversos serviços, tendo centros de acolhimento e informação, lares para estudantes e empregadas, alojamento para raparigas em trânsito, self-services, salas de estudo, cursos de formação doméstica e profissional, formação cultural e artesanato. “A formação prestada pela ACISJF é a chamada formação integral e adapta-se conforme os locais onde está presente a associação. Em Viana do Castelo, por exemplo, temos um centro de formação em que as raparigas aprendem a fazer artesanato típico da região, como palmitos e lembranças de festas, que depois é vendido nas feiras anuais”, explica a presidente da ACISJF, uma associação que em 1935 foi agraciada, pelo Presidente da República, com o grau de Comendador da Ordem de Benemerência.

Na sede em Lisboa, o self-service na Travessa do Ferragial foi concebido, inicialmente, “apenas para raparigas”. Hoje, recebe qualquer um que queira almoçar. “Está aberto ao público e nós consideramos que é um meio de formação, porque o ambiente é formativo, do ponto de vista estético e através dos cartazes que colocamos, com mensagens da Igreja. Nas datas especiais, como o Dia de Nossa Senhora do Bom Conselho, distribuímos também umas lembranças, ou nos Santos Populares, em que explicamos a história dos santos. É por tudo isto que o nosso self-service é diferente de um restaurante qualquer”, conta Maria da Conceição, salientando um pormenor: “Esta casa é conhecida como ‘A cantina das freiras’. As pessoas quando aqui vêm, dizem que vêm almoçar às freiras! Não há ninguém que possa apagar isso e eu digo: voz do povo, voz de Deus”.

Ainda na Diocese de Lisboa, em Sintra, bem junto à igreja de São Miguel, a ACISJF dispõe de um centro de acolhimento que “presta informações e apoio”. “Estamos a tentar, agora, apesar de ainda não ter começado, criar um serviço de formação para famílias em dificuldade, em colaboração com a Segurança Social”, revela a presidente, desejando também “uma colaboração com a paróquia de Sintra”.

 

Encontrar as antigas raparigas

Neste ano em que a Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina assinala o seu centenário em Portugal, o desejo passa por ir ao encontro das raparigas que no passado foram ajudadas por esta associação. “Acentuou-se no último Conselho Nacional da ACISJF, realizado na sede da junta nacional, no passado dia 4 de abril, a necessidade de insistir pela busca das antigas utentes desta associação. Chamá-las para que realmente se lembrem que podem dar apoio a esta associação e que, de alguma maneira, voltem, venham e deem algum apoio através de trabalho ou como sócias, apesar de ainda não termos criado propriamente um grupo de sócias das antigas utentes, algo que temos estado a pensar criar”, refere Maria da Conceição Affonceca. “Temos lançado alguns apelos na internet, mas não temos conseguido respostas. Está tudo muito disperso, mas iremos continuar à procura”, garante a presidente da Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina.

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