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Manuel Barbosa, scj
Saudações cordiais
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«Saudações cordiais», «cordialmente»: são expressões usadas no uso epistolar, cada vez mais na digital comunicação. Nem sempre nos damos conta da sua radical profundidade, que tem a ver com o coração qual raiz das entranhas do nosso ser. Tantas vezes escrevemos ou pronunciamos estas saudações de modo tão rotineiro e distraído, sem atinar com a força do seu sentido.

Tudo isto nos relaciona com a marca «coração» a pautar os nossos andamentos solidários e não solitários, as nossas atitudes hóspedes e não hostis, sempre em sinais de abertura e não de fechamento.

Acena-se aqui à primazia do Amor no Coração, que é de Deus e se derrama pelo seu Espírito nos nossos corações. É assim o Amor de Deus a nos saudar cordialmente, convidando-nos a viver em permanente saudação cordial.

A liturgia eclesial insiste também nesta tónica. Não é por acaso que dois meses acentuam a constante relevância do Coração, de Maria em maio, de Jesus em junho. Tanto se escreveu ao longo dos séculos, em particular nos mais recentes, sobre a devoção ao Coração de Jesus. Devoção pode ser conectada com certo pietismo a soar a devocionismos, quando deveria centrar-se na cordialidade, de Jesus e da intercessora Maria, naquilo que somos e nos espaços e situações onde peregrinamos. Devoção tem a ver com culto e liturgia, da nossa vida em Deus ou da vida de Deus a sintonizar com a nossa.

Quando, em 1956, Pio XII nos ofereceu a bela encíclica «Haurietis aquas», quis que renovássemos o culto ao Coração de Jesus a partir das fontes da salvação, que nos saciam na alegria. O caminho para os crentes só pode ser o de tomar o mistério de Deus e o seu amor, deixando-nos transformar por Ele.

50 anos depois, a 15 de maio de 2006, Bento XVI traçou-nos alguns elementos para continuarmos cordialmente a aprofundar a nossa relação com o Coação de Jesus. Em breve e incisiva carta dirigida ao Superior Geral dos Jesuítas, apontou quatro pistas para reavivarmos a nossa fé e acolhermos o amor de Deus. Revisitando esses quatro tópicos - conhecer, experimentar, viver, testemunhar – a partir do lado trespassado de Cristo como fonte para conhecer verdadeiramente Jesus Cristo e experimentar o seu amor na profundidade do nosso ser, transcrevo alguns excertos dessa carta.

Primeiro: conhecer o amor de Deus em Jesus Cristo. «Dado que o amor de Deus encontrou a sua expressão mais profunda no dom que Criso fez da sua vida por nós na Cruz, é sobretudo olhando para o seu sofrimento e para a sua morte que podemos reconhecer de modo sempre mais claro o amor sem limites que Deus nos tem... O mistério do amor de Deus por nós é o conteúdo do culto e da devoção ao Coração de Jesus, e de qualquer espiritualidade e devoção verdadeira».

Segundo: experimentar o amor de Deus mantendo o olhar fixo em Cristo. «Um verdadeiro conhecimento do amor de Deus só é possível no contexto de uma atitude de oração humilde e de generosa disponibilidade. Partindo desta atitude interior, o olhar fixo no lado trespassado pela lança transforma-se em adoração silenciosa».

Terceiro: viver completamente do amor de Deus. «A fé intensa como fruto do amor de Deus experimentado é uma graça, um dom de Deus. Mas o homem só pode experimentar a fé como uma graça na medida em que a aceitar dentro de si como um dom, do qual procura viver... Este culto, totalmente dirigido ao amor de Deus que se sacrifica por nós, é de importância insubstituível para a nossa fé e para a nossa vida no amor».

Quarto: testemunhar aos outros o amor de Deus. «O amor de Deus experimentado é vivido pelo homem como um chamamento ao qual ele deve responder. O olhar dirigido ao Senhor ajuda-nos a tornar-nos mais atentos ao sofrimento e à necessidade dos outros... A experiência do amor haurida do culto do lado trespassado do Redentor tutela-nos do perigo do fechamento em nós mesmos e torna-nos mais disponíveis para uma vida para os outros».

Em mês de junho, que inclui a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, deixemo-nos saudar cordialmente por Cristo, para assim expressarmos saudações cordiais a todos aqueles que vamos encontrando e procurando, sempre com coração aberto e solidário.