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Isilda Pegado
Órfãos de pais vivos
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1 – O João tem 6 anos e desde há 18 meses espera que a mãe o vá buscar à Instituição que o acolhe enquanto corre o Processo de Promoção e Protecção de Crianças. As tentativas feitas para este se afeiçoar a uma outra família têm sempre a mesma recusa do João: - “A minha mãe não me mente… ela prometeu vir buscar-me, e virá…”. Esta é também a atitude que comove todos os que o rodeiam. Mal sabe o João que um processo cheio de equívocos, factos mal explicados e alguma ideologia decretou que a sua mãe está impedida de o ver, de cumprir com a sua palavra. E o João espera pela sua mãe…

2 – A Francisca tem 9 anos, vive com a mãe e não conhece o pai. Como na escola todos os meninos têm mãe e pai, perguntou à mãe por aquele. A mãe explicou-lhe que a Francisca era fruto do “seu grande amor”, mas que nunca tinha tido um marido. E por isso tinha feito uma viagem a Espanha a um “Centro de procriação assistida” e que aí “uma cegonha tinha depositado uma semente que a gerou”. A Francisca que não é parva e aos 9 anos já sabe muito, percebeu logo que a mãe teria recorrido a um “banco de esperma”. Mas ela, Francisca deseja tanto saber quem é o seu pai que frequentemente liga a televisão espanhola, pois talvez aí encontre alguém que tenha parecenças consigo. Até já pediu à avó Fernanda para ir a Barcelona fazer uma viagem… Quem sabe se, numa qualquer rua encontra o homem… que é seu pai.

3 – O Luís tem 13 anos, vive com o pai e desde há mais de 6 anos que não vê a mãe. Recorda-se vagamente do tempo em que os pais estavam juntos e das discussões ente eles. Sabe que houve vários processos complicados (violência doméstica) e que o pai – que diz protegê-lo muito – não gosta da Justiça. Aliás, quem manda sempre é o pai. A mãe, ás vezes, ia à porta da escola vê-lo, mas tinha medo do pai. E ele, também não queria que a mãe sofresse mais… Várias vezes o pai lhe disse que para fazer dele um grande homem, quem o educava não era a mãe, mas sim o pai. O Luís tem boas notas mas não tem amigos, não fala senão da escola.

4 – A Rita tem 9 anos e vive com a mãe, que se separou do pai Rui, quando esta tinha 3 anos de idade. O Rui deixou de pagar a pensão de alimentos e a mãe deixou de permitir as visitas ao pai. No princípio ainda “construiu algumas desculpas” para a filha não estar com o pai mas depois, foi o pai quem deixou de aparecer.

A Rita já nem sabe como é estar com o pai. Para ela o pai é um estranho… Mal conhece o irmão de 3 anos que o pai teve com a nova companheira. Mas, a saudade do pai…

5 – A Alice tem 16 anos e sempre teve como pai e mãe o António e a Ana. Porém, há um ano atrás teve um problema de saúde e foi necessário identificar os antecedentes hereditários dos progenitores. A Alice ficou então a saber que Ana tinha adquiridos óvulos para engravidar. Geneticamente não era filha da Ana. A Alice tinha olhos verdes, e, de facto nem o pai, nem a mãe tinham olhos verdes. Frequentemente a Alice anda no autocarro ou no metro à procura de olhos verdes, como os seus. Será minha mãe? Será meu irmão?

6 – O Tiago, filho do Abel e da Sandra sempre gostou muito da avó Teresa. Corria frequentemente para junto da avó, mas a mãe contrariou sempre aquele impulso. Havia um verdadeiro conflito entre a sua mãe e avó. Nunca o percebeu. Mas um dia o pai e a mãe, num acto de grande amor contaram-lhe a verdade. A Sandra não podia engravidar por ter tido uma doença e foi a avó Teresa quem engravidou e deu à luz o Tiago. Tudo muito bem explicado e num acto de grande generosidade.

Mas quem era verdadeiramente a sua mãe? A Sandra ou a Teresa? Se a Teresa (avó) era sua mãe, então ele era irmão da sua mãe Sandra? Quem decidiu? Porque estava ele neste conflito?

7 – Todos estes meninos e meninas, o João, a Francisca, o Luís, a Rita, a Alice e o Tiago são a ficção de uma só realidade.

Perder naturalmente o pai ou a mãe é uma grande dor. A vertigem de nem eu mesma saber quem sou agora. Mas esta dor, cumpre algo de Grande, que nem eu, nem outro como eu pode modificar. Por isso, é uma Dor Grande, que me projecta. Uma dor que, estou certa, é abraçada pelo tempo.

8 – Mas, a dor do João, da Francisca, do Luís, da Rita ou da Alice resulta do arbítrio de uma lei, de um Tribunal, de um voluntarismo, de um capricho ou simplesmente de uma ideologia.

Não somos capazes de ajuizar cada um dos dramas pessoais que ditam aqueles órfãos de pais vivos. Mas, não nos conformamos com uma Sociedade, um ordenamento jurídico, uma ética social, que deliberadamente num liberalismo irracional nega aos homens e mulheres a Natureza e os Direitos Humanos. Não sabemos dos seus efeitos dentro de 15 ou 20 anos.

Que Sociedade estamos a construir? Onde estão os nossos tão queridos Direitos Humanos?

Resta-nos a Esperança…