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Curso inovador de Serviço Social na Universidade Católica
“Recolocar no centro os valores essenciais”
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A licenciatura em Serviço Social da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa apresenta um novo programa curricular para o próximo ano letivo 2014-2015. Dimensão internacional e empreendedorismo, sem esquecer a formação mais “tradicional”, são os eixos traçados pela coordenadora da licenciatura, Inês Amaro, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

 

No ano letivo 1996/1997, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (UCP) tornou-se na primeira universidade, em Portugal, a integrar a formação em Serviço Social. Hoje, com uma reconhecida preparação dos alunos que frequentam esta licenciatura e com uma taxa de empregabilidade superior a 90%, este curso reveste-se “de novidade” para poder “oferecer um programa curricular inovador”, respondendo às “exigências do mercado e às aspirações dos candidatos”, refere a coordenadora do curso, Inês Amaro. Falando do carácter de novidade que este programa curricular apresenta, esta docente lembra a história desta licenciatura. “Temos uma formação com 16 anos. O primeiro ano em que se lecionou Serviço Social na Católica foi como que uma ‘pedrada no charco’, tendo em conta o que já existia na escola pública, porque integrou algumas dimensões que, até então, não eram habituais nesta formação, nomeadamente, a área do planeamento social, do pensar em termos de metas, objetivos e como desenvolver o pensamento estratégico. Tudo muito baseado numa metodologia de projeto. Hoje, vemos estas dimensões absorvidas pela grande parte das 20 licenciaturas em Serviço Social que existem em Portugal”, constata.

Para esta docente universitária, a novidade do curso de Serviço Social da UCP não tem somente como objetivo “conquistar novos públicos” mas também “dotá-los de novas capacidades”, requeridas não só para o trabalho mais ‘tradicional’ em Portugal, mas também para as carreiras internacionais que são ambição de muitos alunos que frequentam o curso. “Sentimos, apesar de termos tido sempre bons indicadores de qualidade, que era necessário ‘romper’, no sentido de encontrar uma forma de colocar novidade na formação, mantendo os padrões de qualidade”, salienta.

 

Internacionalizar

O novo plano curricular, em vigor a partir deste ano letivo 2014-2015, é assim o resultado de uma reflexão que foi elaborada nos últimos anos. Depois de um período de “consolidação das competências técnicas”, surge agora a necessidade de responder às “mudanças do mercado de trabalho”. Para Inês Amaro, este novo plano de estudos “tem como ‘bandeira’ o empreendedorismo e a internacionalização”. “Trata-se de dotar os estudantes de capacidade de inovação e gestão de equipamentos sociais, e de poderem desenvolver carreiras internacionais em grandes organizações mundiais, com quem buscaremos consolidar contactos”, revela.

Para esta doutorada em Serviço Social, o importante fluxo migratório de licenciados nesta área para países como Inglaterra não causa novidade. “O que acontece, por exemplo, com os enfermeiros recém-licenciados encontra paralelismo nos licenciados em Serviço Social”. A ‘fraca visibilidade’ apontada por Inês Amaro para este fenómeno pouco conhecido, não tem detido os licenciados em Serviço Social para saírem do país, procurando trabalho. “Desde 2003-2004 temos tido licenciados que têm Inglaterra como um dos destinos mais desejados, sobretudo para trabalhar na área infanto-juvenil. A preparação dos alunos e os seus currículos são muito apreciados pelos empregadores”, destaca Inês Amaro.

 

Empreendedorismo

A professora universitária aponta um “terreno muito fértil” para os profissionais da área de Serviço Social: o empreendedorismo e a inovação. Para Inês Amaro, incluem-se neste sector “todos aqueles que imaginam dar resposta a problemas sociais e que conseguem organizar-se para prestar essa resposta, criando o seu próprio emprego. Esta é uma área que continua em crescimento”, explica. Para fazer face a esta nova tendência, a faculdade pensou “ser necessário incluir uma formação que preparasse os estudantes, dotando-os de maior capacidade para empreenderem – criarem os seus próprios projetos, executarem-nos e serem capazes de ter um pensamento socialmente criativo, fora daquilo que é a resposta habitual e tradicional”, revela.

 

Componente prática

Para além da direção internacional e empreendedora, apontada pelo novo programa curricular do curso de Serviço Social da Universidade Católica, esta licenciatura, segundo a coordenadora, “não deixa de parte a formação mais ‘generalista’ ou ´tradicional’ com uma forte componente prática – cerca de 900 horas de estágio”. “Também temos como objetivo dar maior visibilidade à paleta de formatos que um assistente social pode assumir”, refere. “Muitas vezes, quem está de fora tem uma imagem muito estereotipada do que é um assistente social. Hoje em dia, temos profissionais que fazem, por exemplo, assessoria nos tribunais – nomeadamente em questões ligadas à proteção de crianças e jovens, estão ao lado de mulheres que são vítimas de violência conjugal, a trabalhar com os mais carenciados, em escolas, bancos e outras empresas. Existe uma variedade de funções que um assistente social pode ter. Sendo certo que o seu denominador comum é trabalhar sempre em prol da promoção pessoal e da justiça social”, lembra Inês Amaro.

 

Valores

Em resposta ao que ainda há por fazer no campo social nos dias de hoje, Inês Amaro destaca, ao Jornal VOZ DA VERDADE, aquela que considera a necessidade mais premente para esta área. “É urgente ter a capacidade de se repensar e de se reinventar com criatividade para se pensar além das aparentes inevitabilidades, isto é, não aceitarmos que a realidade não pode ter outro rumo, se não aquele que está a tomar, quando esse rumo conduz ao desemprego, à pobreza, à desigualdade, em suma, à infelicidade”, considera.

A coordenadora do curso de Serviço Social salienta a necessidade para se voltar ao essencial do problema e que tantas vezes é esquecido. “É importante termos a capacidade de voltar a colocar no centro aquilo que é o fundamental da nossa vida, ou seja, os valores que nós queremos que a norteiem. Quando a felicidade do ser humano é cortada, em detrimento de outras prevalências, creio que há algo que está ao contrário”, considera.

 

Juventude com sentido

Os dados revelados recentemente pelo Eurostat revelam que o risco de pobreza dos jovens portugueses, entre os 20 e 24 anos, atinge os 30%. Perante estes números, Inês Amaro considera que “existe alguma falta de esperança nos nossos jovens” e alerta para alguns fenómenos que são “perturbadores” e consequência disso. “Vamos vendo os jovens a reunirem-se às centenas, naquilo que  apelidam de ‘meets’, algo que parece ter pouco sentido”, considera. Recentemente, o fenómeno do alistamento de jovens para combater junto do Estado Islâmico também é “um sinal perturbador para sociedade”, segundo a coordenadora da licenciatura em Serviço Social. “Com preocupação, vejo jovens portugueses e de outros países europeus a alistarem-se no Estado Islâmico com a pretensão de fazer uma luta jihadista. Creio que essa organização oferece uma mensagem de pertença, agregação e sentido muito fortes. Podemos ter uma visão critica sobre o que é dito, mas têm uma narrativa que oferece uma chave de interpretação do mundo, um sentido para a ação e para a existência. Há, nestes fenómenos, qualquer coisa que nos deve fazer refletir”, considera Inês Amaro.

 

Formar para o outro

Para a docente da Faculdade de Ciências Humanas da UCP, a evangelização “como narrativa e não como contra-narrativa” é um facto precioso que pode “oferecer sentido para o mundo” e tem como destinatário “o outro”. “A dimensão da formação oferecida é composta por ética, conhecimento e sensibilidade social, por isso, não deve ser só uma transmissão de competências. Deve ser também um momento de formação da formação do outro. Pretendemos trabalhar com os jovens, ajudando-os a formarem-se como cidadãos, com um olhar sobre o mundo, com uma capacidade de pensar e refletir criticamente a sociedade contemporânea e de abertura ao outro. O sentido ético não pode nunca abandonar a ação dos profissionais nesta área do serviço social”, considera Inês Amaro.

 

Espaço de ação

Perante a sociedade atual, Inês Amaro considera que os jovens “não se devem demitir de reivindicar o seu espaço para que possam construir o seu próprio mundo”. “O que não é admissível é uma sociedade que não ofereça aos seus jovens esse espaço de ação. Seria muito importante dotá-los de capacidade para reivindicarem esse espaço de ação e criação. Temos um país, um território, muita gente, por isso, temos de ser capazes de construir este país. Para isso, é preciso termos gente, e gente com sangue novo e capacidade para se questionar e reinventar”, define esta docente.

Nessa ‘reinvenção’ em tempos de crise vão-se destacando alguns “exemplos de solidariedade informal e entreajuda”. “Nesses momentos vem ao de cima a criatividade quando inventamos, naturalmente, novas formas de responder às necessidades”, considera. No entanto, a coordenadora do curso de Serviço Social alerta para “não se cair na ilusão de pensar que só com esta boa vontade ou voluntarismo vemos resolvida a questão da justiça social. No campo das políticas sociais, que não pertencem só ao Estado, existe um nível de política social muito importante que, embora mais distante do terreno, é um local onde os assistentes sociais também estão presentes”. Para esta docente, “é importante que os novos licenciados estejam também preparados para agilizar uma política social neste nível”, considera.

  

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A coragem de Francisco

O pensamento para voltar a colocar os princípios norteadores no centro de tudo “vem no seguimento do que temos ouvido do Papa Francisco”, considera Inês Amaro. “É importante não cair no negativismo e naquilo que podemos chamar de niilismo, isto é, ter a ideia de que nada vai mudar”. Para contrariar esta ideia negativista, a coordenadora do curso de Serviço Social da UCP refere que o novo plano curricular do curso também pretende alertar os alunos para a necessidade de “cultivarem uma mensagem de esperança, de colocar no centro os valores substantivos para a humanidade, de perceber que as economias, riquezas e política devem funcionar em função do desenvolvimento humano na sua plenitude e não na satisfação do ser humano nas suas necessidades imediatas. Quando tudo se subjuga às leis de um mercado ou economia que funciona em nome de algo que nem sequer conhecemos, então o mundo parece um local sem sentido”, considera a coordenadora da licenciatura. Para Inês Amaro, o Papa Francisco “tem tido a coragem de avançar com uma mensagem que coloca em cima da mesa estas discussões de fundo que não são nada irrelevantes. Vai pondo o dedo na ferida nesta desordem em que a ordem mundial contemporânea se encontra”, considera.

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