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P. Duarte da Cunha
De como a Caridade supera a Justiça
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Um pouco por toda a Europa, e não só em Portugal, sente-se muita perplexidade sobre o modo como se consegue ou não garantir a justiça. Não só o problema da justiça contra os criminosos, nem apenas o tema das leis que devem ser justas para garantir os direitos de todos e a coesão social, mas também a justiça social, ou seja, o empenho da sociedade para que cada pessoa tenha o mínimo necessário para viver. Uma sociedade justa é aquela onde ninguém é tratado como insignificante, e todos têm comida e um lugar para viver.

A Justiça dos tribunais, mas também das leis e sobretudo das práticas e das decisões que cada um toma é algo que faz parte do bem de todos e interessa a todos. Mas ela deve começar no coração de cada um de nós. Cada um deve querer que as coisas estejam no lugar “justo”, ou seja, no lugar que lhes convém. Este é o trabalho da justiça!

Antes de mais devemos querer que a Deus seja reconhecido o Seu lugar na nossa vida – pessoal e comunitária –, ou seja, o primeiro lugar! Já São Tomás dizia que a religião, ou seja, a relação com Deus, que deve levar até à adoração, faz parte da justiça. Quando falta esta primeira dimensão da Justiça, não nos deve espantar que surja uma desorientação sobre o que é verdadeiramente justo e bom.

Se Deus está no lugar justo, vêm depois as relações entre nós humanos. Aqui vejo três níveis. Há a relação com os nossos superiores (pais, Estado, Igreja, chefes), onde devemos acolher o que ensinam e o que mandam. Pressupondo, claro está, que querem o nosso bem e que têm a visão do todo. Só assim eles têm autoridade, e quando nos dizem que precisamos de fazer ou evitar algo, fazem-no porque isso é bom para nós e para todos. Recordamos que nunca é justo que alguém exija alguma coisa de outro que vá contra as suas convicções mais profundas ou contra o que a Igreja ensina, porque é de justiça ninguém ser obrigado a agir contra a sua consciência.

Entre irmãos e amigos e concidadãos, ou entre países, a justiça tem também um importante lugar: podemos exigir dos outros o máximo e isso até é importante para os valorizar, mas não podemos pedir que façam o que não lhes compete. Sobretudo devo ter sempre presente a dignidade do outro e nunca tratar uma pessoa como se fosse uma coisa que uso ou de quem apenas retiro prazer; isso seria claramente uma injustiça. E nem é preciso que isto esteja escrito nas leis do Estado ou da Igreja, está inscrito no nosso coração!

Para com aqueles que somos chamados a servir como pais, professores, mestres, chefes, temos a obrigação de ajudar e de conduzir. É injusto um chefe não assumir a sua responsabilidade, ou um pai descuidar da educação do seu filho deixando de ensinar o que é bem e o que não se deve fazer. Como é injusto um governante descurar a responsabilidade pelo bem comum e dedicar-se apenas ao seu bem ou ao dos seus amigos.

Finalmente poderíamos ainda falar da justiça no uso das coisas que foram confiadas pelo Criador aos homens. É justo desenvolver tudo o que podemos para melhorar a vida, mas não é justo pensar que não há regras ou que se pode fazer tudo o que tecnicamente é possível. Sem um uso responsável dos bens não se pode garantir justiça, quer para com os nossos contemporâneos, quer para com as próximas gerações.

Esta reflexão poderia ser aprofundada e desenvolvida, mas julgo que já se pode ver que a justiça apesar de ser importante não é, necessariamente, criativa. E é aqui que julgo que o cristianismo é verdadeiramente revolucionário. Com Jesus Cristo não nos limitamos a querer garantir os direitos dos outros ou impedir as guerras. Mas queremos o bem para todos e cada um. E querer o bem dos outros é interessar-nos por eles, é disponibilizar-nos para servir, é estar atentos à verdade de cada um para o ajudar. Numa palavra querer o bem dos outros é amar.

Já o Papa Paulo VI, no discurso pelos 25 anos da FAO, em 1970, dizia: "A justiça social faz-nos respeitar o bem comum e a caridade social faz-nos amá-lo". Não esqueçamos que a caridade é activa, gera obras, procura a verdade e o bem, leva a pessoa a sair de si para ir ao encontro do outro. E isso não só garante a justiça como a ultrapassa. O simples discurso sobre a justiça para exigir que os outros sejam justos pode não ter incidência na responsabilidade pessoal, já o amor, que move o coração, não deixa nunca a pessoa parada.