Sínodo 2016 |
Encontro ‘Sínodo para todos – Análise ao Guião de Leitura #2’
“Encarnar” é a resposta à crise do compromisso comunitário
<<
1/
>>
Imagem
Video

“Encarnar” é a palavra-chave do segundo trimestre da caminhada sinodal da Diocese de Lisboa. No encontro ‘Sínodo para todos’, que decorreu na noite do passado dia 21 de janeiro, o Patriarca reforçou a importância de a Igreja de Lisboa assumir “um compromisso concreto com o outro” contra uma “ideia falsa de globalização”.

 

“A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros”. Este excerto da Exortação Apostólica ‘A alegria do Evangelho’, do Papa Francisco, foi o ponto escolhido pelo Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, para analisar o Guião de Leitura #2 – ‘A crise do compromisso comunitário’ do Sínodo Diocesano de Lisboa 2016. Como “resposta” a esta crise, D. Manuel Clemente falou da importância de um compromisso concreto com o outro contra uma falsa ideia de globalização. “Quando dizemos que ‘o verbo encarnou’ significa que Jesus é Deus na carne humana e não em abstrato. ‘Carne’ significa o outro enquanto sente, chora e ri, enquanto sofre ou enquanto está bem. A crise do compromisso comunitário vem, em boa parte, de não se considerar isto mesmo. A globalização dá-nos a ideia de que estamos em todo o mundo, ao mesmo tempo, com a televisão e internet, mas, na verdade, não estamos em sítio nenhum. Por vezes, no telejornal, ficamos impressionados com um massacre que acontece em África mas a seguir vem outra coisa que nos faz rir e vamos passando como espectadores e, nem essas coisas ganham carne, nem nós encarnamos nelas. É preciso encarnar!”, encorajou o Patriarca de Lisboa.

No auditório do Colégio Pedro Arrupe, no Parque das Nações, em Lisboa, com aproximadamente 500 pessoas presentes, D. Manuel Clemente apontou, como exemplo, as palavras do Papa Francisco na recente viagem apostólica às Filipinas. “O Papa insiste que a única maneira de ultrapassar esta crise do compromisso comunitário, quer na sociedade, quer nas comunidades, é levarmos muito a sério a encarnação de Cristo e, por isso, a nossa. Deus faz carne em nós e na nossa carne faz-se carne dos outros e para os outros. Gente sensível, gente que não deixa passar, gente que não é espectadora mas que é interveniente e comprometida. Nas Filipinas, o Papa Francisco deparou-se com uma criança que lhe perguntou porque é que as crianças sofrem. A sua resposta foi abraçá-la, chorar com ela e dizer-lhe: ‘Nós temos este problema que foi deixar de chorar, deixar de sentir’. A novidade do cristianismo está precisamente aqui! O que nos faz cristãos é a encarnação, a carne dos outros. Sem se encarnar, ninguém se compromete com nada”, garantiu o Patriarca, durante o encontro conduzido pelo padre Paulo Franco, diretor do Secretariado de Ação Pastoral e pároco do Parque das Nações, e que iniciou com a interpretação do Hino do Sínodo Diocesano 2016, pelo Coro da Escola Diocesana de Música Sacra.

 

Campo missionário

Este encontro foi transmitido pela internet, através do site do Patriarcado (www.patriarcado-lisboa.pt), e obteve, segundo o Departamento da Comunicação da diocese, mais de 260 visualizações em direto, das quais muitas em auditórios paroquiais. Três desses locais (Alenquer, Nova Oeiras e Peniche), previamente escolhidos, tiveram uma intervenção em direto (ver caixa) com o auditório em Lisboa, onde D. Manuel Clemente começou por apontar a importância da realização deste Sínodo para a “diversidade” da Igreja de Lisboa. “Esta caminhada sinodal é uma ótima ocasião para todos ganharmos consciência de Igreja. Nós, os batizados, reunimo-nos numa Igreja particular ou local, a de Lisboa, que por sua vez participa na Igreja Universal. Um quarto da população portuguesa vive nesta diocese e com gente dos cinco continentes! É um enorme desafio e uma terra de missão. Muitos dos habitantes não conhecem o básico da fé cristã. Temos aqui um enorme campo missionário que se envolve em muita gente para que o anúncio de Jesus Cristo nos obrigue a fazer um exercício quotidiano de criatividade apostólica e de presença”, salientou D. Manuel Clemente.

Durante o primeiro trimestre da caminhada sinodal, “mais de mil grupos” em toda a diocese reuniram-se para “estudar, rezar e ensaiar as iniciativas que o Papa Francisco propõe na sua exortação apostólica, como programa para a Igreja, nos próximos tempos”, revelou ainda o Patriarca de Lisboa. A partir do Guião de Leitura #1 – ‘A transformação missionária da Igreja’, D. Manuel Clemente referiu o ponto 25 da exortação apostólica para reforçar o “carácter missionário” que é pedido pelo Papa Francisco a toda a Igreja: “‘Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma «simples administração». Constituamo-nos em «estado permanente de missão», em todas as regiões da terra’”, citou o Patriarca de Lisboa, sublinhando que “o âmago da exortação apostólica está neste ponto”. “O Papa trouxe para Roma e para a Igreja Universal aquilo que já tinha sido o seu trabalho como Bispo na América Latina. Dizer ‘conversão pastoral e missionária’ das comunidades é um critério. É um critério que quando começamos a esmiuçar, começa a tocar”, referiu D. Manuel Clemente, que também se questionou sobre a presença deste critério “claro e exigente”: “Será que esta dimensão missionária, esta viragem para fora, esta concretização do ‘ide’ que ouvimos no final de cada Missa, está feita? Digo-vos que ainda há muito por fazer…”.

 

Igreja a trabalhar

Para D. Manuel Clemente, o Papa Francisco “faz uma constatação difícil” n’ ‘A Alegria do Evangelho’. “Quer na sociedade, quer nas próprias comunidades, não somos assim tão comunidade como isso porque uma comunidade implica a partilha, a participação e o compromisso em bens que são comuns e essenciais”, explicou o Patriarca de Lisboa. A partir do tema proposto para o Guião de Leitura #2 – ‘A crise do compromisso comunitário’, D. Manuel Clemente referiu ainda existir “muita falta de compromisso comunitário na sociedade e, por vezes, nas nossas próprias comunidades”. “Esse espírito comunitário ainda precisa de ser muito afervorado para que toda a gente sinta que a comunidade cristã é de todos os batizados, na variedade de carismas e dos serviços, mas é verdadeiramente ‘o corpo eclesial de Cristo’”, apontou, referindo-se às palavras de São Paulo.

Para os grupos que se reúnem para trabalhar, a partir dos Guiões de Leitura do Sínodo Diocesano de Lisboa 2016, D. Manuel Clemente afirmou “não ser necessário responder a todas as perguntas”. O guião “é apenas uma ajuda e não se trata de um questionário de exame mas de uma Igreja a trabalhar”, lembrou. “O que é importante é que de trimestre a trimestre se trabalhe os capítulos da ‘Exortação Apostólica’, tendo em vista as realidades de cada grupo e que sejam dadas sugestões para que se vá aumentando a ‘massa crítica’ com coisas pensadas, refletidas, rezadas e ensaiadas para percebermos melhor como podemos levar por diante o que o Papa Francisco nos propõe, concretizando o sonho missionário de chegar a todos”, referiu o Patriarca de Lisboa.

 

__________________

 

Durante o encontro que analisou o Guião #2 da caminhada sinodal, três locais da Diocese de Lisboa colocaram, via Skype, as suas perguntas ao Patriarca de Lisboa. Também o auditório do Colégio Pedro Arrupe colocou uma questão a D. Manuel Clemente. Apresentamos uma síntese das quatro questões.

 

Alenquer

Como devem as famílias concretizar, dentro de si mesmas e para fora, o sonho missionário de chegar a todos?

No Sínodo de Roma sobre a Família, em 2014, o que mais relevou foi o critério familiar para as nossas comunidades como exemplo para as nossas sociedades. Todos nós temos articulações básicas que começaram por ser as familiares. Olhar para as nossas comunidades cristãs e, a partir daí, para a nossa sociedade com chave familiar, é muito importante para recompor de um modo mais humano e reconhecido o que realmente somos. Isto falta fazer mas é um enorme exercício comunitário. Nesta crise que temos tido tanta dificuldade em ultrapassar, uma das coisas que mais ressaltou foi que, em muitos casos, o que ainda aguentou a situação foi o recurso do apoio familiar.

 

Nova Oeiras

O que é importante para sairmos e apresentarmos esta “encarnação” àqueles que ainda não a conhecem?

A palavra “encarnação” é a palavra-chave e distingue o que é tipicamente cristão de outro tipo de propostas, porque ela faz do encontro com cada pessoa a chave da nossa própria salvação. Só nos realizamos com pessoas concretas. Temos como exemplo o Papa Francisco, na atenção que dá a cada pessoa. Vemos isso, por exemplo, no tempo que Francisco demora nas audiências. Porque é que ele ‘gasta’ tanto tempo do seu ministério no contacto pessoal? Porque é cristão. Porque percebe o que é a encarnação. Com certeza que temos muita coisa para fazer. Jesus tinha o mundo inteiro para salvar. Mas vai ao todo pela parte. Vai ao muito pelo pouco. E é assim que devemos seguir se nos queremos reencontrar cristãos.

 

Peniche

Perante uma ruptura na transmissão geracional da fé cristã, não devemos procurar novas e mais abertas propostas de vida, acolhimento, aceitação, apostando na conversão dos que estão completamente afastados?

O Papa Bento XVI na homilia com que iniciou o seu pontificado disse que o que nós temos não é uma doutrina, ou um código, mas um encontro com uma Pessoa viva, Jesus Cristo. Nós só podemos proporcionar esse encontro porque a decisão desse encontro é do próprio Cristo. O mais interessante é que no diálogo que fazemos uns com os outros, possamos perceber como é que nos outros aconteceu esse encontro com Cristo vivo e testemunhar como é que isso aconteceu no nosso caso, porque isso é que marca. O básico é que criemos nas comunidades e nas famílias as condições para que pelo testemunho da vida encontrada com Jesus, para cada um Jesus também se torne uma presença.

 

Parque das Nações

Como ‘ganhar’ a família para se transmitir a fé?

A base é o batismo, onde começa em nós a aventura da filiação divina, na participação do Espírito de Jesus Cristo. É importante que tenhamos consciência disto. Se não, pedimos os sacramentos ‘à peça’, conforme as circunstâncias. A vida sacramental é a vida em Cristo. O que é importante é que, tal como acontecia com os primeiros que aderiam ao Cristianismo ou àqueles que aderem hoje, eles reparem na novidade da vida cristã, pela novidade da vida dos cristãos. Quando isso acontecer, ‘pega-se’, porque o coração humano foi feito para isso. Os outros também estão à espera deste encontro. Nós não soubemos isto, se não pelo testemunho de outros que nos tocaram e nos despertaram para que o tal encontro acontecesse.

 

__________________

 

Subsídio Litúrgico já disponível

O Departamento da Liturgia do Patriarcado de Lisboa disponibilizou, em formato digital, um caderno com vários subsídios litúrgicos destinados à caminhada sinodal da Diocese de Lisboa, até à Quaresma deste ano. Este documento contém orações universais, propostas para vigílias de oração, via-sacra e oração do terço. Pode descarregar gratuitamente no site: http://sinodo2016.patriarcado-lisboa.pt.

__________________


Vídeo e fotografias do encontro ‘Sínodo para todos’

- ww.youtube.com/patriarcadolx

- www.flickr.com/patriarcadodelisboa

texto por Filipe Teixeira; fotos por Arlindo Homem
A OPINIÃO DE
Guilherme d'Oliveira Martins
A encíclica «Fratelli tutti» (FT) é uma corajosa invocação de S. Francisco de Assis, a lembrar-nos que...
ver [+]

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Deo gratias! No passado dia 10 de Outubro, foi beatificado Carlo Acutis, um jovem italiano de 15 anos, falecido em 2006.
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES