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Manuel Barbosa, scj
Passar da indiferença à proximidade
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Neste domingo em que alinho estas notas, que é o sexto do tempo comum, somos apanhados pelo encontro de Jesus com um leproso. Jesus não alinha no desencontro da exclusão, da rejeição e da indiferença com que seria normal tratar um leproso; pelo contrário, assume uma profunda e sentida atitude de encontro, aproximando-se dele, estendendo-lhe a mão e tocando-o. Jesus liberta o leproso da impureza e da lepra, levando-o ao reencontro com os outros e com Deus.

Escrevo de Fátima, a participar na trigésima semana de estudos sobre a vida consagrada: quatro dias de reflexões, com conferências, testemunhos e debates, sobre os «consagrados para anunciar a alegria do Evangelho». Já muita coisa de relevo se pronunciou neste encontro de consagrados e consagradas. Iluminados pelo Evangelho de hoje, esta vocação de especial consagração na Igreja para o mundo só pode ser de olhar atento e com o coração próximo de tantas lepras e leprosos que nos habitam, por vezes nas próprias comunidades. O anúncio de Jesus Cristo nas tão faladas periferias existenciais nunca pode ter qualquer sinal de indiferença, fazendo de conta que tais situações não existem; só pode ser de visitação profética e de proximidade inclusiva.

Há quem continue a fomentar e a inventar mecanismos de exclusão e segregação, de sofrimento e indiferença, e até fundamentam isso em nome de um Deus dito como severo, intolerante, distante, insensível aos limites e fragilidades das pessoas; esses atentam contra Deus.

O Deus que somos convidados a redescobrir, a amar e a testemunhar nos nossos mundos concretos é o Deus de Jesus Cristo que nos encontra, nos toca e nos ama com toda a ternura e misericórdia; é este Deus tão íntimo de nós e não há outro.

A mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma enquadra-se neste dinamismo, ao apontar-nos caminhos de proximidade à luz de um Deus que só é assim e nos compromete a lutar contra aquilo a que o Papa chama de «globalização da indiferença». Cito apenas breve texto do início da mensagem:

«Deus não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar».

Que o Evangelho deste domingo, a mensagem do Papa e o lema desta semana reflexiva das pessoas consagradas em Fátima nos motivem a passar da (globalização da) indiferença à (globalização da) proximidade, sempre com o coração pleno de misericórdia, aberto a Deus e aos irmãos.

Como nota complementar mas sempre em tom de proximidade, quero exprimir o regozijo que os mil cento e cinquenta consagrados e consagradas manifestaram aqui em Fátima pelo início do serviço de colaboração, como cardeal junto do Papa Francisco, do Patriarca de Lisboa D. Manuel Clemente à Igreja de Roma e à Igreja universal. Como soou hoje em Roma, D. Manuel quer continuar a promover a «proximidade com as pessoas, que não acaba sejam quais forem as circunstâncias, que permanece, que procura, que ajuda, que está lá», aceitando assim o desafio da proximidade lançado pelo Papa Francisco. Tal proximidade com as pessoas só pode ser fecunda se gerada do Coração de Deus. No dizer do Papa Francisco na mensagem quaresmal, «teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença».

Votos de fecunda caminhada quaresmal!