Lisboa |
Paróquia de Coz recebeu Visita Pastoral
Um mosteiro que se revela no interior
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É uma paróquia que tem no antigo mosteiro da Ordem de Cister o seu grande orgulho. Coz, na Vigararia de Alcobaça-Nazaré, faz da catequese o principal veículo da evangelização e recebeu a Visita Pastoral de D. Nuno Brás, Bispo Auxiliar de Lisboa, nos dias 19 a 22 de fevereiro.

 

“Há muitos, muitos anos, apareceu este magnífico mosteiro de Coz. É bonito, de facto. Muito bonito, uma maravilha! Na época em que foi construída, esta igreja quis significar a presença de Deus em nós, no meio do seu povo. Uma presença de Deus assim, bonita. Era a forma de há 400 anos, ou mais, dizer que Deus está presente no meio de nós. Atualmente, podemos olhá-la, podemos admirá-la, podemos lá rezar, mas hoje o Senhor quer fazer, aqui, em Coz, uma outra Igreja, mais bonita ainda do que esta, não de pedras mortas nem de tijolos, mas uma Igreja de pedras vivas, que sois vós, que somos nós”. Na homilia da Missa de encerramento da Visita Pastoral à paróquia de Santa Eufémia de Coz, D. Nuno Brás destacou a beleza do ex-líbris desta terra, o antigo mosteiro da Ordem de Cister, mas frisou a importância da construção da Igreja enquanto comunidade. “Ninguém é cristão sozinho! O Senhor quer fazer connosco uma comunidade assim, belíssima!”, apontou o Bispo Auxiliar de Lisboa.

Nesta celebração em Coz, que decorreu na manhã do passado dia 22 de fevereiro, I Domingo da Quaresma, D. Nuno Brás fez depois uma analogia entre a igreja templo e a Igreja de pedras vivas, destacando a importância do atual tempo litúrgico para a vida dos cristãos. “Nesta Quaresma, queremos ‘limpar’ o pó, queremos ‘retocar’ aquelas ‘brechas’ que entretanto se abriram, queremos ‘tapar’ aquelas ‘infiltrações’ do mal que apareceram, queremos ser esta Igreja de ‘cara lavada’ que se apresenta a todos e a todos fala de Jesus Cristo”, observou.

Ao longo de quatro dias, o Bispo Auxiliar de Lisboa visitou diversas empresas situadas no espaço geográfico da paróquia de Coz, entre as quais a Atlantis - Cristais de Alcobaça, em Casal da Areia. Na visita a esta empresa, na manhã de sexta-feira, dia 20 de fevereiro, D. Nuno Brás pôde observar in loco a forma como é feito o cristal, juntando o vidro com o chumbo. Fazendo uma assemelhação a esta fusão, sublinhou a relação de Cristo com os batizados. “Nós olhamos para o cristal e não se vê lá o chumbo. O chumbo e o vidro estão de tal forma unidos que quando o colocamos junto a uma fonte de luz brilha com todas as cores. No fundo é isto que Jesus Cristo quer fazer connosco! Olhando para o interior da nossa vida, pouco valemos, mas com Jesus Cristo isto muda de figura! Aquela realidade do chumbo, que é uma coisa pesada, preta, suja, depois, com o vidro, torna-se outra coisa, torna-se qualquer coisa de maravilhoso. A nossa vida de batizados é isto, é esta união entre Deus e nós, de tal forma que pareça uma maravilha. O batismo faz-nos um com Cristo”, apontou o Bispo Auxiliar do Patriarcado, na Missa de encerramento da Visita Pastoral a esta paróquia da Vigararia de Alcobaça-Nazaré.

 

Coz (e não Cós)

Coz é uma pequena terra do concelho de Alcobaça, com 15,86 quilómetros quadrados de área e 1895 habitantes, segundo os Censos de 2011. Nos últimos anos, a população tem procurado ser conhecida pelo nome antigo: Coz, e não Cós. “Há um movimento na terra que quer restaurar a forma antiga de escrita do nome da terra, Coz, algo que demora um certo tempo. Recentemente, a junta de freguesia mudou o nome das placas nas ruas e mesmo nos correios já aparece o nome Coz”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE o pároco, padre José dos Santos Dionísio. Presente em Coz desde setembro de 2011, este sacerdote sublinha que “a população não tem crescido em número” e que “a tendência é até para diminuir”. “A zona industrial, em Casal da Areia, tem muitas fábricas mas são pessoas do concelho que lá trabalham. Nos anos 80-90, muitas empresas de cerâmica abriram falência, o que trouxe uma crise a esta terra, que é anterior à que estamos a passar atualmente”, observa, lembrando “o recurso da agricultura”.

A população de Coz é constituída maioritariamente por pessoas naturais da terra. “As que saem para estudar, raramente voltam, embora façam da terra programa de fim-de-semana”. O centro de Coz, onde está situado o mosteiro, “praticamente não tem habitantes”, sendo que “o maior e mais jovem” meio populacional desta terra é a localidade de Póvoa, havendo ainda a Castanheira, “que entretanto foi perdendo gente”.

Em termos de igrejas, esta é uma paróquia com seis templos. “O mosteiro funciona como igreja paroquial, apesar de termos igreja paroquial em Coz que acolhe celebrações somente durante a semana; a capela de Santa Rita é usada uma vez por ano, no Domingo da Ascensão; a igreja da Castanheira só tem uma Missa por semana; e temos ainda a igreja da Póvoa e o santuário da Senhora da Luz, que tem Eucaristia uma vez por mês, além de receber uma festa tradicional que ocorre nos dias 16 e 17 de novembro, onde as pessoas trocavam bens e animais, e que agora ainda continua a ter expressão, recebendo muitos peregrinos vindos de fora, em autocarros”, descreve o pároco.

 

Beleza

O Mosteiro de Santa Maria de Coz é um ponto de referência nesta paróquia. “As pessoas identificam-se bastante com o mosteiro e têm muito orgulho nele”, aponta o padre Dionísio. A página da internet da Junta de Freguesia de Coz (www.jfcoz.com) deixa uma descrição deste monumento. “Coz é uma das antigas povoações do Couto do Mosteiro de Alcobaça. Foi aí que se fixou uma comunidade de religiosas cistercienses. No século XV, Santa Maria de Coz tornou-se um dos mais ricos mosteiros femininos da Ordem de Cister Portuguesa. O Convento de Santa Maria de Coz foi fundado a 20 de abril de 1279 pelo Abade de Alcobaça, D. Fernando, cumprindo assim a disposição testamentária de D. Sancho II. No século XVI, deram-se as primeiras alterações quando o edifício se transformou em casa conventual das freiras da Ordem de Cister. O convento foi reconstruído em fins do século XVII, no entanto, hoje em dia, o que resta em boas condições é a igreja, a sacristia com os seus anexos e alguns vestígios arruinados de parte do celeiro e do dormitório. A decoração dos tetos da igreja e da sacristia constitui um caso único entre as Abadias Cistercienses de Portugal e Espanha. O altar-mor é de bela talha dourada dos fins do século XVII, possuindo na tribuna uma escultura da Sagrada Família. As paredes têm azulejos azuis e brancos do último quartel do século XVII”, explica o referido site.

A igreja encontra-se dividida, a meio, por uma grade de clausura em talha dourada. “Essa separação, chamada ‘ministra’, com o cadeiral, era o local onde as religiosas faziam os ofícios e participavam nas celebrações”, aponta o padre Dionísio, referindo que “o mosteiro tem essa característica de ser bastante longo”.

Nos meses de Verão, o Mosteiro de Santa Maria de Coz costuma ser muito visitado. Além de o monumento estar incluído nos roteiros do município, existe uma parceria com a Câmara, em que quem visita o Mosteiro de Alcobaça, situado a menos de 9 quilómetros, tem acesso ao miniautocarro que o leva até ao mosteiro de Coz para uma visita acompanhada por um guia. O pároco frisa que, “ao longo do ano, há também alguns grupos que costumam visitar a igreja, bem como pessoas individualmente”. “As gentes da terra gostam de receber as visitas e têm esse orgulho de pertencer a Coz por causa do mosteiro. As conversas entre a população e os turistas são normalmente acerca da beleza do mosteiro, que não é percetível do exterior”, partilha.

 

Mobilizar pela catequese

Há cerca de três anos e meio, quando chegou a Coz, o padre José Dionísio deparou-se com “uma estrutura muito forte da catequese”. “Ao contrário de outras paróquias das redondezas, em Coz havia os dez anos de catequese, o que não é fácil, e havia também catequistas com bastante formação. A catequese é a mais-valia de uma comunidade, porque é a partir da catequese que nós fazemos a nova evangelização. Os pais ainda sentem algum compromisso de enviar os filhos para a catequese. Podem não ter uma noção dos dez anos de catequese, ou do seu conjunto, mas pelo menos existe um compromisso que se for mais ou menos trabalhado acaba por trazer à igreja os pais, os avós, os tios, os primos e os padrinhos”, afirma o pároco. “A minha ideia inicial, e que continua, é apostar numa catequese que tem algum dinamismo de participação na Eucaristia, de forma a mobilizar a família. Por vezes até digo que temos ‘infantilizado’ a Missa para chegar às crianças e aos seus pais”, acrescenta o padre Dionísio, referindo que esta aposta, em seu entender, “anima também os sacramentos”.

Nesta paróquia, a única Missa dominical é celebrada no mosteiro. A catequese, que em Coz decorre neste local de culto, na igreja paroquial e na residência paroquial, acontece antes ou depois da Eucaristia. “Como tenho três paróquias, num ano a Missa é às 9h15, e a catequese é a seguir, e no ano seguinte a celebração é às 10h30, e a catequese é antes”, explica o pároco de Coz. Neste ano pastoral 2014-15, a paróquia de Coz tem pouco menos de 100 crianças e adolescentes na catequese, a ‘cargo’ de cerca de 15 catequistas. “Coz tem uma característica interessante: o agrupamento de escuteiros funciona aproveitando esta dispersão provocada pela mudança de morada devido ao trabalho, e também pelo facto de não haver escutismo nas paróquias vizinhas. E como para andar nos escuteiros em Coz é necessário estar inscrito e participar na catequese, temos este elevado número de catequizandos. De maneira que, muitas vezes, temos mais gente na catequese que é de fora”, refere o pároco de Coz, sublinhando que a atividade dos escuteiros nesta paróquia acontece de 15 em 15 dias.

 

Ponto de encontro

Da vida paroquial, o padre Dionísio destaca ainda “a tentativa de formar um grupo da Cáritas em Coz”, que está “enraizado na Confraria”, para ajudar “os idosos a tratar da burocracia”. “Apesar de a ação social do Estado funcionar, aqui, normalmente, há uma generosidade própria das pessoas da aldeia, que todas as semanas doam pelo menos um cesto com bens alimentares para distribuir. As pessoas têm correspondido a uma iniciativa chamada ‘Tive fome, deste-me de comer’, em que coloquei um cesto junto a uma Imagem de Nossa Senhora e as pessoas, em vez de trazerem flores para Maria, trazem ‘sementes’ para dar aos pobres”, descreve. Ao nível caritativo, esta paróquia tem ainda a particularidade de somente recolher bens para o Banco Alimentar Contra a Fome, não os recebendo desta instituição.

Para o futuro, o pároco de Coz salienta a necessidade de “criar estruturas para responder pastoralmente a determinadas dificuldades comunitárias”. “Uma das questões que sentimos muito aqui, em Coz, é a ausência de casais: às reuniões e encontros, ou vem a esposa ou vem o esposo, raramente vem o casal. Quando vem o casal, eles já estão empenhados em tudo, pelo que é sempre muito difícil pedir mais…”, lamenta o padre Dionísio, sublinhando a importância “do testemunho de casais cristãos”.

Este sacerdote reconhece ainda “faltar um trabalho de fundo onde as pessoas possam ter um espaço onde se reunir e onde se identifiquem como cristãos para se poderem unir em torno de diversas causas”. “Faz muita falta o convívio cristão. As pessoas vivem hoje muito individualmente e a aldeia tem esta questão da distância, e muitas vezes falta um espaço de encontro. A Missa dominical acaba por ser o maior encontro que existe em toda a paróquia. Como tenho três comunidades, não consigo promover um ‘pós-Missa’ ou um ‘antes-Missa’, que criasse um convívio alargado onde as pessoas pudessem trocar ideias e partilhar aquilo que são e que têm”, aponta o pároco de Coz.

  

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Um pároco que acolheu os três Bispos Auxiliares

Em 2011, quando assumiu a paróquia de Coz, o padre Dionísio foi também nomeado pároco de Maiorga. No ano seguinte, o Cardeal-Patriarca de Lisboa confiou-lhe igualmente a paróquia de Valado dos Frades, pertencente à mesma Vigararia de Alcobaça-Nazaré. Com a Visita Pastoral a esta vigararia, este sacerdote recebeu nas suas três paróquias os três Bispos Auxiliares da diocese. Primeiro foi D. Joaquim Mendes a visitar Valado dos Frades, entre os dias 22 e 25 de janeiro. “Foi uma visita enquadrada na festa anual de São Sebastião e teve um contexto muito próprio. Houve algo curioso: marcámos um encontro com os agricultores, que têm passado por dificuldades de escoamento dos produtos, onde cada um pôde falar e ouvir o senhor bispo. Foi bom os agricultores perceberem que a Igreja se preocupa com eles”, conta o pároco. Seguiu-se, de 5 a 8 de fevereiro, D. José Traquina em Maiorga, numa visita que, segundo o padre Dionísio, “teve um ambiente mais caseiro, de menor dimensão”. “Foi muito bom, enquanto padre, conhecer mais de perto os senhores Bispos Auxiliares”, frisa este sacerdote.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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