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Guilherme d’Oliveira Martins
Ruy Cinatti (1915-1986)
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Ruy Cinatti nasceu há cem anos. Poeta dos «Cadernos de Poesia» (1940), com José Blanc de Portugal e Tomaz Kim, bem como da causa de Timor, como cristão deve ser lembrado. «A Condição Humana em Ruy Cinatti» da autoria do Padre Peter Stilwell (Presença, 1995) é uma obra fundamental para compreendermos não só a qualidade poética do autor de «Nós Não Somos deste Mundo», mas para entendermos fundamentalmente a importância da sua herança espiritual. Cinatti foi uma personalidade complexa e fascinante, o amor fraterno atraía-o, o sonho era o seu ambiente natural, a descoberta das diferenças a sua paixão, a ciência e o espírito andavam sempre consigo, numa ligação fecunda. Num dos romances mais interessantes do século XX, «A Torre da Barbela» de Ruben A., seu grande amigo, o cavaleiro, personagem fulcral da complexa trama onírica (que é uma crítica ao que fomos sendo ao longo do tempo) é inspirado inequivocamente em Ruy Cinatti. Estamos perante quem sempre considerou o Espírito, grande impulsionador da vida. E Peter Stilwell descreve o modo com se encontraram: «Encontrámo-nos esporadicamente na década de 60. Mas foi nos últimos dez anos da sua vida que o diálogo se tornou mais frequente. Almoçávamos de quando em vez… Ou, melhor dito, almoçava eu. O Ruy comia umas migalhas enquanto falava: preocupado com a salvação de amigos e conhecidos; apaixonado pelas ideias, pelas pessoas, pelo destino do País; revoltado com pequenas e grandes injustiças; compreensivo para com as fragilidades humanas, intolerante da hipocrisia. Por vezes, lia-me poemas. Só de os ouvir, eram difíceis de entender. Mas percebia que luziam para ele duma evidência impossível de explicar. Expressavam a sua vida, e essa era a distância que nos separava. Não só a reserva que mantinha a seu próprio respeito, mas também o facto de a «larga e livre estrada» que seguia não ser a minha. Dele, a do leigo, poeta, engenheiro agrónomo, antropólogo, visceralmente itinerante. Minha, a de padre, aprendiz de teólogo, essencialmente sedentária. E, no entanto, sem razão para isso, consultava-me insistentemente sobre este ou aquele verso de incidência mais teológica, sempre preocupado com a precisão dos conceitos».

Nota-se aqui o especial talento poético de Cinatti, que ligava uma insaciável curiosidade pela vida e pelas pessoas ao especial culto pela força mágica das palavras. A leitura dos seus poemas, desde os tempos mais recuados e juvenis até à maturidade, é uma fantástica ilustração de como um caminheiro da «larga e livre estrada» pode fazer das virtudes teologais, fé, esperança e caridade, matéria-prima de uma poética de espiritualidade e de vida. Por isso, disse um dia: «Chamarem-me poeta do infinito, nada quer dizer se por infinito se considera apenas o que não é finito (…). A minha religiosidade, sim, essas é infinita, mesmo quando de maneira não explícita ou confessional» (1972). O tema do Infinito está sempre presente na sua reflexão e na criatividade que cultiva incessantemente: «Em face de qualquer imagem do Infinito, o homem descobre-se a si próprio, relembra a sua condição de viajante na Terra e dá início à peregrinação» (1948). Leitor de G. K. Chesterton, Charles Péguy e Jacques Maritain, Ruy Cinatti vai perseguir, com obstinação, a salvaguarda da eminente dignidade da pessoa humana, percebendo que «Deus escreve direito por linhas tortas». «Pensámos que Deus dera o dever de desprezarmos; / A noite sem estrelas cobriu-nos / Enquanto o Senhor se mostrava a cada esquina, / Misterioso como príncipe encantado». A dúvida e a perplexidade levam-no para o mundo e para a «aventura» (em especial no caso de Timor e do seu povo mártir, cuja liberdade já não pôde ver), numa permanente insatisfação, imbuído de uma fantástica esperança. «Podem negar-me tudo o que quiserem. Não podem, Graças a Deus, negar-me a disponibilidade, a potência de amar». Francisco de Sousa Tavares falou do jovem Ruy Cinatti como possuidor de uma «aura inultrapassável»: «era necessário que a rara magia da sua personalidade única ficasse presente na nossa consciência como um traço de uma raça superior em que não havia ódio nem ambição desmedida e a relação dos homens fosse regida por uma lei primária – a lei da generosidade e do amor». É difícil dizer melhor quem foi este homem excecional, que sonhava com a verdade e a justiça, que muito dificilmente encontrava em fugaz vislumbre. «E eu – pobre de mim! – tão grande calma / Faz-me sofrer por não saber dar mais. / Oxalá que alguém viesse ensinar-me / O silêncio que, a sós, vai purificar-me: / Senhor! Porque não vens, porque me atrais?!».