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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Igreja ou… sacristia?
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Na exortação apostólica “A alegria do Evangelho”, o Papa Francisco alertou para um grande risco do mundo actual e da Igreja: “a tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho”, onde “já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem”. Ou seja, de que a Igreja se converta em sombria sacristia e, em vez de se abrir ao mundo, se feche em si mesma. É o que ocorre com quantos professam, no dizer do Santo Padre, “o gozo espúrio duma autocomplacência egocêntrica”, que, “em detrimento do ardor evangélico”, alimenta o ensimesmamento eclesial. Deste jeito, o protagonismo missionário dos leigos e a sua acção no mundo fica reduzida à realização de tarefas clericais, em contradição com a natureza laical da sua missão evangelizadora.

É o caso, por exemplo, daquelas virtuosas damas que, sobretudo nas paróquias rurais, rivalizem em competência e piedosa dedicação no serviço das capelinhas, altares e imagens sagradas. É indispensável e valiosíssima a presença feminina na vida da Igreja, mas não como sacristãs de segunda classe. As confrarias e irmandades são também de uma grande importância, se forem estruturas ao serviço da comunhão eclesial, e não espaços de afirmação própria, ou de contrapoder. Há quem seja irmão para servir a Deus na Igreja, mas também há quem o seja só para vestir uma opa vermelha, para usar mantos e capas, para ostentar insígnias e adereços que, diga-se de passagem, tanto podem ser do queijo da serra como da Nossa Senhora das Angústias. Para alguns, que felizmente são a excepção, o importante é o cargo, a diferença, a familiaridade com os notáveis do lugar, o banco reservado no templo e a precedência nas procissões.

Também no altar, a grande maioria dos leigos prestam um inestimável serviço a Deus e às comunidades, com grande espírito de sacrifício e humildade, mas outros há que, passeando-se pelo presbitério com ares de vestais de algum culto antigo, parecem interessados apenas em se evidenciarem a si mesmos. A sua presença esvoaçante, no espaço cénico da coreografia litúrgica, pretende ser um sinal visível da sua preponderância paroquial. Mais do que servir o altar, dir-se-ia que se servem do altar para a sua promoção pessoal.

Os coros são também essenciais para a dignidade do culto e, em geral, prestam um valiosíssimo serviço eclesial, à custa da generosa abnegação dos seus membros. O bel-canto paroquial é, por regra, muito meritório, excepto quando se confunde com uma desgarrada, em que cada qual tenta ser a prima-dona do concerto da freguesia.

É muito de louvar a participação, cada vez mais activa, dos leigos na vida da Igreja e nas celebrações litúrgicas, através do serviço do altar, dos acólitos e dos leitores, dos coros, das confrarias e irmandades, etc. Mas a promoção do laicado não passa pela sua conversão em padres de segunda, ou sacristães suplentes. O seu sacerdócio real, mas não clerical, deve ser exercido sobretudo na vida familiar, profissional, política e social.

É este mais um grande desafio pastoral que o Papa Francisco lançou à Igreja: “apesar de se notar uma maior participação de muitos nos ministérios laicais”, infelizmente “este compromisso não se reflecte na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e económico”, porque se limita, “muitas vezes, às tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade” (“A alegria do Evangelho”, nº 102).

Que os leigos sejam Igreja e não sacristia, participando activamente nas celebrações litúrgicas mas, principalmente, exercendo a sua missão específica na igreja doméstica, que é a família; no altar do trabalho, que é o principal instrumento de transformação da sociedade; e na vida do mundo, onde cada leigo cristão está chamado a ser verdadeiro sacerdote, profeta e rei.