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Serra Leoa: o combate ao Ébola ainda não terminou
Os fantasmas do Padre Konteh
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Como uma sombra que não lhe larga a memória, é raro o dia em que o Padre Peter Konteh, director da Caritas em Freetown, não se recorda do menino de dois anos, que encontrou sozinho em casa, rodeado dos cadáveres dos pais, ou do frenesim dos enterros, no quintal nas traseiras do seu escritório. O Padre Konteh não é um herói. É apenas uma pessoa vulgar que não desertou das suas responsabilidades.

 

Tudo começou em Maio do ano passado. O surto da epidemia tinha sido declarado na Guiné e um médico da Serra Leoa foi destacado para lá, para ajudar. Sem o saber, ficou também infectado. Quando regressou, ele próprio foi o rastilho que deixou o país à beira do desastre. A velocidade com que a epidemia se multiplicou veio revelar como eram profundas as insuficiências nos cuidados básicos, a nível sanitário e nas estruturas da saúde. A ajuda internacional foi essencial. A Fundação AIS declarou como prioritária esta batalha. Não havia tempo a perder. Ergueram-se centros improvisados para a triagem dos doentes, para os internamentos. Comprou-se equipamento. Em Maio do ano passado, a Serra Leoa tinha apenas oito ambulâncias. Agora tem duas centenas de viaturas equipadas. As rádios locais foram essenciais para a transmissão de informações às pessoas, para se alterarem hábitos e comportamentos, para se evitarem mais contágios.

 

De megafone nos mercados

O Padre Peter Konteh tem o sorriso enorme de um bom gigante. No entanto, por trás desse ar simpático esconde-se a memória trágica de quem viveu de perto uma epidemia que dizimou milhares de pessoas em poucos meses. “Ninguém estava preparado para aquilo. Nem o Governo, nem sequer a Igreja. Os primeiros dois ou três meses surpreenderam toda a gente.” A tarefa foi ciclópica. Com mais de 60% da população analfabeta, tornava-se quase missão impossível mudar hábitos de higiene e de comportamentos das pessoas. Mas era necessário fazê-lo. “Às vezes, íamos até para os mercado, com megafones, para alertar as populações”.

 

Epicentro da crise

Hoje, praticamente um ano depois de se ter declarado a epidemia de Ébola, a vida começa a regressar a uma certa normalidade. O Governo já anunciou que as escolas vão reabrir no final deste mês, mas, tal como a recuperação dos doentes se revelou lenta, também o próprio país tem agora um longo caminho a percorrer. A agricultura e o comércio ficaram profundamente afectados e só o tempo poderá sarar as feridas do tecido económico na Serra Leoa. Para o Padre Peter Konteh, porém, por muitos anos que ainda tenha de vida, dificilmente se esquecerá das horas e dos dias de emergência, quando, no epicentro da crise, tudo parecia perdido e todos se mostravam impotentes. “Quando eu acordava de manhã e olhava para a parte de trás da nossa casa, via os recém-falecidos a serem trazidos para o enterro, ao ritmo de cerca de cinquenta por dia. Enquanto isso, pela janela da frente, via as pessoas a receberem o tratamento para o Ébola. Conheci pessoas, pessoas famintas, pessoas que procuravam conforto. Era sempre assim, dia após dia. Não foi fácil”.

 

Como consolar?

Há memórias que estão vivas, como feridas abertas que nunca irão sarar. O Padre Konteh, um dia, foi a uma casa levar comida para as pessoas que lá estavam de quarentena. “Encontrei lá uma criança, aí com uns dois anos de idade. Estava sozinha. Os adultos tinham morrido. Fomos logo avisar os médicos para cuidarem do bebé. Soube, mais tarde, que também não resistiu. Isso assombra-me ainda hoje. Sinto que devia ter agido mais cedo…”

Todos os que têm estado envolvidos neste combate ao Ébola ficaram marcados. Profundamente marcados. Uma colega do Padre Peter Konteh perdeu toda a família. Toda. Pais, irmãos, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas. Ela foi vinte sete vezes ao cemitério enterrar os seus entes queridos. “Como podia eu consolá-la? Agora, nós somos a sua família…”

 

O poder da oração

A Fundação AIS continua empenhada no apoio à Igreja na Serra Leoa. Mesmo depois do vírus do Ébola ter sido praticamente controlado, há uma tarefa enorme pela frente. Só na Diocese de Freetown há cerca de 800 crianças que perderam pais, que perderam a família, que estão órfãs. No país, calcula-se que sejam mais de 8 mil órfãos. É preciso dar-lhes uma família, um tecto. É preciso ajudar a construir um futuro para todas estas crianças. Nunca se sabe nem o momento nem a hora. O Padre Konteh não escolheu participar nesta guerra contra o Ébola, nem se considera sequer uma pessoa especial, muito menos um herói. Apenas não desertou da sua responsabilidade. Nos momentos de maior desalento, Peter Konteh confiava-se à oração e pedia também as nossas orações. É por isso que todos nós podemos estar também em qualquer parte do mundo, na linha da frente, a fazer o bem. Essa é a outra maneira da Fundação AIS ajudar a Igreja que Sofre. Basta querermos. Depende de nós, das nossas orações, para que isso aconteça.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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