Lisboa |
6ª Catequese Quaresmal
“A proposta da ‘Evangelii Gaudium’ e seus contornos”
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O Papa Francisco intitula os números 16 a 18 da exortação apostólica Evangelii Gaudium: “A proposta desta Exortação e seus contornos”. São por isso de especial relevância e devemos retomá-los ao concluir esta série de catequeses que nós – os quatro Bispos ao serviço do Patriarcado de Lisboa – aqui fomos fazendo.

Começa por esclarecer (cf. EG, 16) que aceitou o convite dos Padres sinodais para redigir a Exortação. Refere-se à assembleia sinodal de outubro de 2012 – em que eu próprio tive ocasião de participar, ainda no pontificado de Bento XVI -, que versou o tema da “nova evangelização”.

É significativo o facto dessa assembleia, como manifesta a sua Mensagem final, ter aludido ao encontro de Jesus com a Samaritana como ícone do que a Igreja deve ser agora na apresentação – e reapresentação – da proposta evangélica nos mais diversos contextos. Nesse passo evangélico (cf. Jo 4), o acolhimento, o diálogo e a proposta da novidade cristã como que resumem o essencial da atitude de Cristo – e não há outra a prosseguir agora.

O Papa Francisco integra explicitamente várias proposições da assembleia sinodal de 2012 na sua exortação apostólica. Porém, não a quis chamar “pós-sinodal”, pois incluiu mais pontos, provenientes doutras instâncias, sobretudo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe - Documento de Aparecida, de 29 de junho de 2007.

Além da contribuição da assembleia sinodal, o Papa consultou “várias pessoas” e juntou as “preocupações” que pessoalmente o movem neste momento eclesial concreto, em ordem à evangelização do mundo. Com estes contributos, redigiu a Evangelii Gaudium, consciente da complexidade da temática versada e sem pretender abarcá-la na totalidade. Di-lo com a mesma simplicidade com que acrescenta que «não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobe todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo» (EG, 16).

Na verdade, a disseminação da Igreja é um facto tão geográfico como sociocultural, que o Papa tem insistentemente referido. Acrescentando a propósito: «Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar “descentralização”» (ibidem).

Como sabemos, a Evangelii Gaudium é de 24 de novembro de 2013, no final do Ano da Fé, que foi convocado pelo Papa Ratzinger. E podemos lembrar que os Bispos de Portugal já tinham publicado, a 11 de abril desse mesmo ano, uma Nota Pastoral que dalgum modo prefaciou tal “descentralização”. Intitula-se Promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal e geralmente informa o que vão fazendo as vinte dioceses. É muito significativa a coincidência de intenções com a proposta do Papa Francisco, pois tudo vai igualmente no sentido da renovação eclesial em chave comunitária e missionária, com os novos contornos que a “missão” tem hoje em Portugal e no continente europeu.

É oportuno relembrar, a este propósito, a exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, assinada por São João Paulo II a 28 de junho de 2003, quando esclarece no seu número 46: «A Europa faz parte já daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além duma nova evangelização, se requer em determinados casos a primeira evangelização. […] Mesmo no “velho” continente existem extensas áreas sociais e culturais onde se torna necessária uma verdadeira e própria missio ad gentes».

Deste passo da Ecclesia in Europa ao impulso missionário da Evangelii Gaudium vão dez anos inteiros, em que o nosso enquadramento próximo se tornou mais exigente ainda. Não sei se já nos demos verdadeiramente conta disso mesmo, tirando daí as devidas consequências de pensamento e ação…

Já em meados do século passado, o Cardeal Cerejeira bradava que a terra dos pagãos estava perto de Lisboa... Hoje está certamente dentro e muito dentro, um “paganismo” que significa ausência de valores cristãos reconhecidos e praticamente vividos e convividos. Fácil verificação, esta, seja na conduta individual, seja familiar, social e cultural, onde a “crise do compromisso comunitário” – título e objeto do segundo capítulo da Evangelii Gaudium – é tão evidente como dolorosa, com o seu triste cortejo de contrassinais, assim descrito pelo Papa Francisco: «… não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes com pouca dignidade» (EG, 52).

Porque o reconhecemos, como igualmente à vocação eclesial e comunitária para ser, no mundo e para o mundo, sinal vivo de Cristo ressuscitado e ressuscitador de nós todos, é que estamos em caminho sinodal diocesano, sempre no sulco da providencial exortação do Papa Francisco.

 

No número 17 da Evangelii Gaudium, o Papa elenca sete “questões”, depois desenvolvidas ao longo do documento. São elas: a) A reforma da Igreja em saída missionária; b) As tentações dos agentes pastorais – no número 78 apontará três “males” que se alimentam mútua e negativamente: individualismo, crise de identidade e declínio do fervor; c) A Igreja vista como a totalidade do povo de Deus que evangeliza; d) A homilia e a sua preparação; e) A inclusão social dos pobres; f) A paz e o diálogo social; g) As motivações espirituais para o compromisso comunitário.

Sistematizando um pouco, apuramos um fio condutor: A Igreja que somos existe de Deus para o mundo, na sequência de Cristo e no dinamismo do seu Espírito, que a transporta. Assim sendo, “reformar” a Igreja é muito mais do que corrigir o que esteja mal nas instâncias centrais ou locais duma organização de tal complexidade e tamanho.

“Reformar” corresponde à necessidade eclesial premente de retomar a “forma” inicial que Cristo nos deu e reclama, para sermos como Ele “missionários” do Pai entre os homens. Aquela forma a que nos dispomos, em conversão nunca concluída. Seremos até a única realidade comunitária que começa sempre a sua celebração principal com um momento de contrição e pública confissão, pelo que há de corrigir nos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, referindo-se cada um destes pontos às disposições indevidas, ao testemunho que não demos ou à missão que não cumprimos... 

Referem-se também – pela positividade a alcançar - à comunhão necessária de pessoas, carismas e ministérios, imprescindível para levar por diante uma missão de todos para todos, que não é outra coisa senão alargar no mundo a comunhão que o próprio Deus é em si mesmo. Aquela glória do Pai, do Filho e do Espírito, que sempre aclamamos na nossa oração, para sempre mais a testemunharmos na vida, uma vida unitrinitária também; que o mesmo é dizer de unidade plural e perfeita compartiha.

Isto mesmo se há de anunciar na transmissão da Palavra e sua aplicação às circunstâncias. E com prioritária incidência em todas as pobrezas que é preciso colmatar, naquela solidariedade radical com que o nosso Deus se define, quer no que é em Si mesmo, quer na criação que mantém e nos confia, para igualmente o ser. Para prontamente o sermos e uns para os outros, sem deixar ninguém excluído ou ausente.

Um exercício de paz e pacificação, em suma, alimentando o diálogo social que nunca acaba, pois a sociedade sempre evolui, desdobrando potencialidades no tempo que a distende e interrogando o Evangelho que de novo lhe responde, através duma Igreja que se mantenha vigilante e atenta. O seu Senhor é o Senhor da História e é na história dos homens que Deus se aproxima de cada um de nós. Na história grande ou pequena, do mundo e de cada país, da humanidade e de cada ser humano, em especial dos mais frágeis, “lugar” por excelência da misericórdia divina, como objetos ou sujeitos dela.

A última “questão” em que o Papa se detém e nos faz deter é a das “motivações espirituais para o compromisso missionário", pois nada se fará que não seja pelo Espírito.

No capítulo final da Exortação, irá explicitar tais motivações, em quatro pontos fundamentais: a) O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva; b) O prazer espiritual de ser povo; c) A ação misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito; d) A força missionária da intercessão.

Encontro pessoal com Jesus, relação viva com Cristo vivo, que nos leva irresistivelmente a comunicar o que d’Ele recebemos e tão definitivamente nos vence e convence, para beneficiar também os outros. Pois, como luminosamente resume o Papa Francisco: «Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa. É por isso que evangelizamos» (EG, 266).

Prazer espiritual de ser povo, prazer que se ganha no Espírito de Cristo, de amar todos os que Ele amou e como Ele os amou. E o Papa expressa admiravelmente este sentimento: «Cada ser humano é objeto da ternura infinita do Senhor, e Ele mesmo habita na sua vida. Na cruz, Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. […] E ganhamos plenitude quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes!» (EG, 274).  

A ação misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito, esperada e apressada na oração instante, mantém-nos sempre na alvorada pascal, com um Sol que raia, por mais escuras que sejam as noites. Certamente por experiência própria, confidencia-nos o Papa: «É verdade que muitas vezes parece que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e crueldades que não cedem. Mas também é certo que, no meio da obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado volta a aparecer a vida, tenaz e invencível» (EG, 276).

A força missionária da intercessão, finalmente, é uma alusão bíblica constante, da que Moisés fazia pelo povo antigo à que Jesus fazia pelos seus discípulos e ainda por todos os demais, como até pelos seus inimigos e na própria cruz. Não tanto porque Deus esteja à nossa espera para se interessar por eles, mas porque a nossa intercessão nos inclui na geral benevolência divina e Lhe permite manifestá-la ainda mais. É ainda o Papa a esclarecer-nos: «Poderíamos dizer que o coração de Deus se deixa comover pela intercessão, mas na realidade Ele sempre nos antecipa, pelo que, com a nossa intercessão, apenas possibilitamos que o seu poder, o seu amor e a sua lealdade se manifestem mais claramente no povo» (EG, 282). Quase diríamos que, se Deus nos dá a vida através de quem nos gera e sustenta, também nos salva agora pela mútua intercessão que mantemos. Ainda aqui, a palavra fundamental é comunhão - a “comunhão dos santos”.

 

Com o número 18, o Papa conclui a introdução da Evangelii Gaudium. E, retomando o que escreveu e as nossas catequeses quaresmais quiseram sublinhar, insiste em que todos estes pontos temáticos «ajudam a delinear um preciso estilo evangelizador», como o tempo particularmente requer. Agradeçamos-lhe a oportuna lembrança. - Agradeçamos sobretudo a Deus, por nos conceder na palavra e nos gestos do Papa Francisco a sua mais estimulante ilustração!

 

Sé de Lisboa, 29 de março de 2015

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

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