Domingo |
À procura da Palavra
Profetas do presente
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DOMINGO XIV COMUM Ano B
"Estava admirado
com a falta de fé daquela gente."
Mc 6, 6

Associamos facilmente o nome de "profeta" a adivinho ou uma espécie de visionário que faz prognósticos sobre o futuro. E é curioso como muitos, depois das coisas sucederem, gostarem de dizer que já as tinham previsto. São herdeiros da famosa tirada futebolística que alguém pronunciou: "prognósticos, só no fim do jogo!" Mas é pena não sabermos que o profeta é alguém que fala em nome de Outro, nomeadamente, de Deus, não tanto sobre as linhas do futuro mas sobre as escolhas do presente. São essas escolhas que abrem os horizontes do futuro, que são resposta ao projecto de felicidade que Deus oferece, que dão corpo à mudança ou cristalizam o que é caduco. Por isso os profetas incomodam: pedem que olhemos com olhos de futuro o nosso presente!

Ao contrário de Jesus na sua terra natal, a última encíclica do Papa Francisco, "Laudato Si", sobre o cuidado da casa comum, tem sido bem acolhida por muitos sectores da sociedade. Curiosamente, o comentário imediato de maior recusa veio de um cristão, um candidato à presidência norte-americana, que convidava, "grosso modo", o Papa e os bispos a ajudarem as pessoas a serem boas, mas que não se metessem em política! Trata-se de um documento incómodo, com uma interpelação profética enriquecida por muitas vozes e muita partilha, que não podemos deixar de ler. Mas pode suceder-nos o mesmo que aos conterrâneos de Jesus: ficamos espantados com tal sabedoria, sublinhamos a riqueza do pensamento, fazemos bonitas citações, mas nada de milagres, porque ninguém quer mudar o seu estilo de viver. Nem os governos, nem as multinacionais, nem cada um, em casa ou na sua vizinhança!

É esse o drama do profeta. Transmite uma boa notícia, interpela as consciências, promove caminhos novos, fornece instrumentos de desenvolvimento, e as audiências esperam piruetas de magia ou milagres por encomenda! Jesus revoluciona o papel do profeta ao confiar a sua missão aos discípulos. Já não há "profetas privados"; todos, em comunidade que O ama e acolhe, são profetas. É a lógica do "fermento na massa" e do "sal da terra", os pequenos grupos que revolucionam de baixo e por dentro, as "minorias abraâmicas" de D. Helder Câmara, os "grupos de Jesus" de José António Pagola. Como diz este último, no livro com o mesmo título: "O nosso objectivo principal nos Grupos de Jesus é viver juntos um processo de conversão individual e grupal a Jesus, aprofundando de maneira simples o essencial do Evangelho."

Como andamos a acolher Jesus? Somos os amigos a quem Ele pode interpelar com as suas palavras, tantas vezes já ouvidas? Vivemos a fé como um condomínio, relativamente protegido, com reuniões participadas, mas distantes do mundo? Que profetas nos convida Ele a ser?

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