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Taizé
Com Ele tem outro sabor
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Cerca de 60 jovens de Lisboa participaram, com o Cardeal-Patriarca, no encontro ‘Rumo a uma nova solidariedade’, em Taizé, França. De 9 a 16 de agosto, quatro mil jovens de todo o mundo e diversos líderes religiosos rezaram pela paz, na comemoração do 75º aniversário desta comunidade ecuménica.

 

8h15. Os sinos da comunidade começam a chamar os jovens para a oração. Na pequena aldeia de Taizé, na região da Borgonha, em França, os monges católicos e protestantes da comunidade ecuménica, fundada há 75 anos, preparam cuidadosamente os momentos de oração e reflexão. As portas da igreja da Reconciliação – sempre abertas – convidam à reflexão, à escuta e à partilha. Na senda do legado deixado pelo seu fundador, o irmão Roger Schütz – morto há 10 anos, em pleno momento de oração –, a comunidade propôs para a semana de 9 a 16 de agosto o ponto culminante da proposta temática dos últimos três anos “rumo a uma nova solidariedade”. À convocação acorreram mais de quatro mil jovens, de mais de 100 nacionalidades e diversos representantes de igrejas cristãs, de organismos cristãos interconfessionais e de outras religiões. Todos disponíveis para rezar pela paz, numa comunidade por onde já passou, em 1986, São João Paulo II, que afirmou: “Passa-se por Taizé como se passa perto de uma fonte”.

 

Experiência a dois

De entre os países representados, Portugal foi o terceiro com maior número de inscritos no encontro – mais de 300. De Lisboa, inscritos pelo Serviço da Juventude e na companhia de D. Manuel Clemente, viajaram 58 jovens de autocarro. Uns conheceram Taizé pela primeira vez e muitos outros repetiram a viagem. Para a jovem Madalena, de Mafra, a experiência de um encontro em Taizé, há um ano atrás, alertou-a para a necessidade de fazer a experiência sempre a dois. “No ano passado senti que Jesus vinha comigo, mas, por vezes, senti-me como que a perder o que trouxe na mala durante o caminho e achava que Jesus também ia ficando perdido. Senti-me a celebrar um aniversário sem o aniversariante”, testemunhou esta jovem de 19 anos, num encontro onde incentivou depois os outros jovens portugueses ali presentes: “Se ainda não encontraram Jesus, convido-vos a irem à vossa mala de viagem, mesmo que desarrumada, e vivam isto com Ele porque tem outro sabor. Taizé é muito bom mas o melhor que podemos viver vai sempre connosco e passa a haver Taizé em Portugal e no mundo”.

 

Simplicidade

As tendas, habitações temporárias e condições muito simples, são sinais de uma precariedade evangélica que promovem gestos de simplicidade e comunhão. Do programa diário para a semana, os monges preparam meditações sobre a alegria, a simplicidade e a misericórdia – valores que o irmão Roger colocou no centro da vida da comunidade que fundou.

Depois da meditação, inserida na oração da manhã, os jovens estavam convocados para os workshops com inúmeros testemunhos de pessoas comprometidas na sociedade. Desde organizações não governamentais, a cristãos empenhados na vida política, passando por experiências de instituições que se dedicam a acompanhar os marginalizados, foram partilhas que suscitaram o interesse dos participantes.

O segundo momento de oração do dia acontecia, diariamente, pelas 12h20. No centro da igreja, como habitualmente, os monges preenchem o espaço central. Pela primeira vez na história da comunidade de Taizé, todos os irmãos regressaram dos seus países de missão pelo mundo para estarem juntos, obrigando até alguns a pernoitarem em tendas.

 

Mensagem

Na carta de Taizé 2012-2015, o irmão Alois, sucessor do irmão Roger, apelou ao início de “uma expressão de solidariedade”. “Procuremos permanecer atentos aos mais fracos. (...) A nossa atenção aos mais pobres pode expressar-se através de um compromisso social. A um nível mais profundo, esta atenção significa uma abertura em relação a todos: os nossos próximos são também, em certo sentido, pobres que precisam de nós”. Aproveitando a presença em Taizé dos irmãos que estão em missão por várias “periferias” do mundo, o período após o almoço foi também aproveitado para a escuta dessas experiências. A atenção pelos mais pobres, tão manifestada nas palavras e na vida do fundador da comunidade ganharam vida pelas partilhas dos irmãos missionários.

A viver em Taizé, há 20 anos, encontra-se o único monge português da comunidade. O irmão David, natural de Portalegre, partilhou com os jovens portugueses como nasceu a sua vocação e se tornou celibatário. “Deparei-me com uma parte de risco, de incerteza. Mas trabalhando, discernindo, rezando, achei que valia a pena correr esse risco e assumir essa parte de insegurança. Vim como voluntário em 1993, entrei na comunidade em 1995 e em 1997 fiz o meu compromisso de vida em comunidade, junto dos irmãos, para toda a vida. É uma vida de entrega, de celibato, de simplicidade e disponibilidade para o que a comunidade me vai pedindo”, afirmou.

 

Luta e contemplação

Na quinta-feira do encontro, dia 13, após a oração da noite que começa pelas 20h30, o irmão Alois proferiu a habitual meditação. Numa semana especial para a comunidade, começou por fazer presente o ensinamento do irmão Roger. “Ele deixou-nos como legado as suas principais preocupações: a paz, a partilha, a solidariedade entre os seres humanos. Ele falou de «luta» e de «contemplação»; ele sabia que a bondade de Deus pode transbordar nas nossas vidas através da bondade e da compaixão para com os que estão aflitos”, referiu o irmão Alois, apontando alguns sinais de esperança para a “família humana”: “Outro sinal de esperança é ver a crescente consciência de que todos nós pertencemos à mesma família humana. É verdade que há ainda medo uns dos outros e de estrangeiros, e todos nós experimentamos isso. No entanto, não encontraremos uma solução para esse medo isolando-nos atrás de muros, mas apenas indo ao encontro dos que não conhecemos. Não terão os cristãos a vocação de promover uma fraternidade universal? Não terá Cristo estendido os braços na cruz para acolher todos os seres humanos?”, questionou o prior da comunidade de Taizé.

Num discurso em que tornou público o agradecimento ao Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, pela sua presença, vindo “de autocarro com um grupo de jovens portugueses”, o irmão Alois sugeriu a criação de um organismo universal que garanta as regras para uma maior justiça e paz. “Em todos os países, há muitas pessoas que estão à procura da paz para a família humana. Veem a globalização como uma oportunidade para concretizar uma fraternidade universal. Então, uma pergunta se torna mais e mais imperativa: (...) não será essencial a criação de organismos supranacionais, e até mesmo uma espécie de autoridade universal, que fixe regras que garantam uma maior justiça e mantenham a paz?”, questionou o monge.

 

Criar futuro

Sendo o único Cardeal que esteve presente em Taizé durante todos os dias da semana, D. Manuel Clemente não animou apenas alguns ateliers e workshops. Durante a espera para as refeições, e nos restantes momentos do dia, o Cardeal-Patriarca de Lisboa foi uma presença muito notada e disponível para escutar e dialogar com os jovens. “Este contacto diário, com tantas conversas, aproximou-me ainda mais e dá um realismo para aquilo que é a minha função: ligar o Evangelho e a vida das pessoas. Os jovens transportam muita vontade de criar futuro e fazer coisas boas na Igreja e na sociedade”, referiu D. Manuel Clemente, lembrando o legado do irmão Roger: “Taizé é um lugar profético para a Europa e para o mundo. Esta experiência que os jovens levam daqui é muito favorável para as suas comunidades, bem na intenção do fundador de Taizé, porque o irmão Roger nunca quis fazer um movimento ou organização mas pretendeu que eles tivessem aqui uma experiência de cristianismo profundo, alargado e ecuménico e que a levem para as suas comunidades. E levam mesmo!”, garantiu.

Questionado sobre o caminho que falta trilhar no ecumenismo, D. Manuel Clemente afirmou ao Jornal VOZ DA VERDADE fazer falta “mais Taizé” na Igreja. “Fazem falta mais ocasiões em que nós percebamos o nosso lugar-comum de batizados e o valorizemos mais. É preciso em que cada uma das nossas tradições cristãs valorizemos mais o batismo. Não apenas com uma fotografia que temos lá por casa, mas como uma realidade viva. Quanto mais percebermos o que é a vida de Cristo em nós, mais nos uniremos, porque nos uniremos no essencial. Se quisermos fazer uma unidade apenas pelas consequências e não formos à base, nunca mais lá chegamos. Essa insistência na vida batismal, no cristianismo na sua fonte, é que nos vai levar à unidade. E o irmão Roger percebeu isso muito bem”, concluiu D. Manuel Clemente.

 

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Papa Francisco enviou mensagem

O Papa recordou o fundador da comunidade de Taizé, salientando a sua importância para a construção de “pontes de fraternidade entre os cristãos”.

“Procurando com paixão a unidade da Igreja, Corpo de Cristo, o irmão Roger abriu-se aos tesouros guardados nas diversas tradições cristãs, todavia sem causar uma rutura com a sua origem protestante. Com a perseverança da qual a sua longa vida deu prova, contribuiu para modificar as relações entre cristãos ainda separados, traçando para muitos um caminho de reconciliação”, lembra a mensagem de Francisco, por ocasião do 75º aniversário desta comunidade, que foi lida pelo Cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

 

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Irmão Alois em entrevista

Na edição da próxima semana, o Jornal VOZ DA VERDADE publica uma entrevista exclusiva do irmão Alois, prior da comunidade de Taizé. Este monge aborda o tema proposta pela comunidade para o próximo ano e deixa uma mensagem particular aos jovens portugueses.

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