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Manuel Barbosa, scj
50 anos de Perfectae Caritatis
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O título deste apontamento pode soar a estranho para quem não está familiarizado com os textos do Concílio Vaticano II. Trata-se do Decreto sobre a conveniente renovação da Vida Religiosa; era assim que se dizia na altura, hoje diz-se «Vida Consagrada» para abranger todas essas formas de vida cristã nas congregações, mosteiros e conventos, nos institutos seculares e sociedades de vida apostólica.

Em 28 de outubro celebrámos 50 anos da aprovação deste Decreto pelos Bispos membros do Concílio (2.325 votos a favor e apenas 4 contra), sendo promulgado pelo Papa Paulo VI no mesmo dia; daí esta breve mas significativa referência para a compreensão da Igreja à luz do Concílio.

Interessa recordar que ainda estamos em Ano da Vida Consagrada e estaremos mais dois meses e meio. Na introdução da alusiva Carta Apostólica para esta celebração, o Papa Francisco enuncia algumas motivações: «por ocasião do quinquagésimo aniversário da Constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, que no capítulo VI trata dos religiosos, bem como do Decreto Perfectae caritatis sobre a renovação da vida religiosa, decidi proclamar um Ano da Vida Consagrada».

Importa lembrar também que este Decreto tem que ser visto também em íntima ligação com a posterior Exortação Apostólica pós-sinodal de João Paulo II, Vita Consecrata (1996).

Convém ainda referir que o conteúdo do texto final do Decreto teve grande evolução e radicais mudanças ao longo dos quatro anos do Concílio. Passou-se de uma visão da caridade perfeita percebida só para alguns eleitos na Igreja a uma compreensão da caridade perfeita para todos os seguidores de Cristo, nos quais se encontram também os que levam esta forma de existência cristã na Vida Consagrada. Passou-se da compreensão de uma santidade que era entendida só para alguns eleitos, contrariando os essenciais fundamentos bíblicos, a uma santidade que é para todos, sem exceção.

O Decreto de que aqui fazemos memória agradecida é constituído por 25 números. Logo a abrir e antes de apelar a uma conveniente e profunda renovação dos Institutos, afirma: «O sagrado Concílio já mostrou, na Constituição que começa pelas palavras Lumen Gentium, que a consecução da caridade perfeita por meio dos conselhos evangélicos tem a sua origem na doutrina e nos exemplos do divino mestre e brilha como um sinal luminoso do reino dos céus».

No segundo número afirma cinco princípios como norma suprema para essa renovação, sempre num contínuo regresso às fontes e adaptação às novas condições dos tempos: seguimento de Cristo proposto no Evangelho; fidelidade na aceitação e guarda do espírito e intenções dos fundadores; participação na vida da Igreja; promoção do conveniente conhecimento das circunstâncias dos tempos e dos homens bem como das necessidades da Igreja; contínua animação pela renovação espiritual.

O Decreto continua com orientações fundamentais para todos os aspetos da Vida Religiosa e termina dizendo que «este sagrado Concílio estima muito o seu género de vida, feita de virgindade, pobreza e obediência, de que o próprio Cristo Senhor nosso foi exemplo, e deposita uma firme esperança no seu tão fecundo trabalho escondido e manifesto».

O Decreto conciliar Perfectae Caritatis, de 28 de outubro de 1965, inspirou as numerosas aportações que surgiram até hoje. Ao decretar um Ano da Vida Consagrada, o Papa Francisco quis que retomássemos o espírito e a letra do Concilio Vaticano II, no seu genuíno regresso às fontes bíblicas e patrísticas. E na mesma introdução da Carta Apostólica, não deixou de apelar ao que disse João Paulo II na Vita Consecrata: «Vós não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir! Olhai para o futuro, para o qual vos projeta o Espírito a fim de realizar convosco ainda coisas maiores».

Que o início do Ano Santo da Misericórdia, a coincidir nos próximos meses com o Ano da Vida Consagrada, nos motive a todos, incluindo os consagrados e consagradas, a renovar a Caridade que é perfeita por brotar da Misericórdia de Deus.